segunda-feira, 9 de julho de 2012

Para Roma com Amor (To Rome with Love)


Dir.: Woody Allen; Escrito por Woody Allen; Com Woody Allen, Roberto Benigni, Alec Baldwin, Penélope Cruz. 2012 - Paris (112 min. - 12 anos)


A viagem de Woody Allen pela Europa começou em 2005, depois de uma onda de fracassos no EUA no início da década de 2000. Desde então, apenas "Tudo Pode Dar Certo" de 2009 foi filmado na sua amada Nova York. Enquanto isso, a aventura que começou em Londres se expandiu para outros países como Espanha, França e agora, Itália.

Dessa viagem resultaram-se sete filmes que vão do ótimo como o primeiro da safra, o londrino "Match Point - Ponto Final", ao razoável como "Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos", também concebido em Londres. O último filme desse grupo, "Para Roma com Amor" está no meio desses dois extremos: não é o melhor deles, mas por outro lado, é um filme muito simpático e divertido.

O longa é uma antologia de contos, a primeira de Allen desde "Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo, mas Tinha Medo de Perguntar" há quarenta anos atrás. Porém, ao invés de ser divido em segmentos como o filme de 1972, "Para Roma com Amor" entrelaça os seus quatro contos, portanto, o início, o meio e o fim deles acontecem simultaneamente.

O primeiro conto conta a história de um jovem casal que se conhece nas ruas de Roma - ele é italiano, Michelangelo, e ela é americana, Hayley - e que se apaixona quase que instantaneamente. Em pouco tempo, Hayley já conhece toda a família de Michelangelo, porém, ele deseja conhecer os pais dela, afinal se eles quiserem deixar o relacionamento mais sério, precisam do aval dos pais da moça.

Quando estes chegam, não deixam uma boa impressão, principalmente o pai de Hayley, um diretor de ópera aposentado que, após ouvir o pai de Michelangelo cantando lindamente no chuveiro, insiste na ideia de fazê-lo uma estrela dos palcos. O problema é que ele só canta bem debaixo d'água.

Como não é bobo nem nada, Woody Allen escreveu o melhor personagem do filme para ele interpretar como também o conto do qual participa é o mais engraçado. A premissa é inusitada, as piadas funcionam, os personagens são bons etc. Isso sem contar com a ótima parceria entre Allen e Judy Davis, que fazem os pais de Hayley; os dois estão simplesmente ótimos em seus respectivos papéis.

O segundo conto baseia-se naquela famosa frase de Andy Warhol: "no futuro toda a gente será famosa por quinze minutos". Nele, um pacato trabalhador romano, da noite para o dia, torna-se a nova sensação da Itália, sendo chamado para participar de programas de tevê e pré-estreias de filmes. Mas por quê? Ele não fez nada de importante, não é ator ou cantor. Simples, ele é famoso por ser famoso.

Esse é outro conto que dá certo por causa de sua premissa absurda, que cria possibilidade para piadas extremamente engraçadas como a primeira entrevista de Leopoldo, o cidadão celebridade, para a televisão. As perguntas são tão idiotas que nos fazem rir loucamente. Além disso, Roberto Benigni não faz feio e deixa as situações ainda mais engraçadas.

O terceiro conto mostra a chegada de um casal, Antonio e Milly, do interior à Roma para se encontrar com um grupo de familiares aristocráticos que podem dar um ótimo emprego a Antonio. Porém, quando vai buscar um cabeleireiro, Milly se perde nas ruas da cidade e não consegue chegar a tempo ao encontro. Enquanto isso, Antonio recebe a visita de uma prostituta, Anna, que diz ter sido paga para satisfazer os seus desejos. Entretanto, a situação se complica quando os tais aristocratas encontram Antonio e Anna em cima da cama em trajes não muito adequados. Por causa disso, Anna tem que fingir ser Milly para que Antonio não perca o emprego que pode mudar a sua vida.

Esse é outro conto bastante interessante. Não é o mais engraçado deles, mas possui momentos bastante inspirados, principalmente aqueles que envolvem a garota de programa vivida pela ótima Penélope Cruz, que apesar de ser espanhola, aqui fala italiano o tempo todo. Além disso, o desfecho, mesmo sendo bem louco, não deixa de ser engraçado e até um pouco surpreendente.

Por fim, o quarto e último conto narra a confusão mental pela qual um estudante de arquitetura americano chamado Jack passa quando ele começa a se apaixonar pela melhor amiga da sua namorada. Enquanto isso, um arquiteto experiente chamado John tenta lhe dar os melhores conselhos para evitar que ele cometa o grande erro de abandonar a sua namorada por Monica, a instável melhor amiga.

Esse é, de longe, o conto menos interessante. Apesar de ter bons momentos, como aquele em que Monica conta como foi a sua primeira transa com uma mulher, e ter uma sacada interessante já que ficamos na dúvida se John é a consciência de Jack ou vice-versa, esse é o trecho menos inspirado do longa, sendo, portanto, aquele mais escasso em risadas. Mesmo assim, o elenco está super bem, principalmente a dupla de arquitetos vivida por Jesse Eisenberg e Alec Baldwin.

Por ser uma antologia de contos, já era de se esperar que "Para Roma com Amor" não fosse perfeito, afinal sempre há um conto que se sobressai e outro que decepciona. Além disso, uns 15 minutos a menos fariam muito bem ao filme. Mesmo assim, esta primeira viagem de Woody Allen à Itália é tão boa quanto uma deliciosa macarronada.

NOTA: 3.5/5


sábado, 7 de julho de 2012

O Homem do Futuro


Dir.: Cláudio Torres; Escrito por Cláudio Torres; Com Wagner Moura, Alinne Moraes, Maria Luísa Mendonça, Fernando Ceylão. 2011 - Paramount (106 min.)


Uma das críticas mais comuns feitas a "O Homem do Futuro" era de que o longa de Cláudio Torres parecia mais um filme americano do que brasileiro. Mas que bobagem! Tudo bem que, realmente, o filme não retrata a realidade brasileira, mas quem disse que todo filme brasileiro tem que ser um retrato da realidade? Por acaso o nosso cinema deve se restringir a filmes situados em favelas, recheados de cenas de violência e sexo? O povo não tem o direito de se divertir e esquecer por meras duas horas a dura realidade brasileira? Pois, então, digo: apesar de ser um filme "americanizado", "O Homem do Futuro" é bastante divertido, simplesmente pelo fato de fugir do estereótipo do "favela movie", cada vez mais enraizado em nossa cultura. Nada contra esse tipo de filme, mas o cinema nacional não deve se restringir a apenas isso, mesmo que tenha que pegar emprestado elementos de outros "cinemas" para poder fugir da mesmice.

Em "O Homem do Futuro" é contada a história de Zero, um brilhante cientista que é atormentado por uma decepção amorosa do passado. Por causa disso, ele resolve investir dias e noites em pesquisas a fim de desenvolver um acelerador de partículas capaz de levá-lo para o passado. Dessa forma, ele poderia impedir o momento a partir do qual a sua vida se tornou um inferno e, por tabela, conquistar a mulher de seus sonhos.

Porém, apesar de conseguir viajar do ano de 2011 até 1991 e chegar à festa onde tudo aconteceu, Zero vai começar a perceber que mexer no tempo pode ser uma verdadeira armadilha; e o pior, as consequências podem ser bastante difíceis de resolver.

Cheio de reviravoltas no tempo, universos paralelos e referências a Albert Einstein, "O Homem do Futuro", devo admitir, começa com o pé esquerdo. As cenas que antecedem a primeira viagem de Zero através do tempo são extremamente acima do tom, praticamente caricaturescas. Até mesmo Wagner Moura, um ator super competente, consegue ficar canastrão à beça. Felizmente, quando os dois Zeros se encontram (o do passado e o do presente), o filme perde este tom exagerado e começa a realmente envolver.

Apesar do roteiro não ser algo realmente original (quem já viu "De Volta Para o Futuro" vai perceber algumas similaridades entre os dois filmes, inclusive o fato de ambos se desenrolarem em torno de uma festa), ele é um dos fatores que faz do filme um sucesso. Os personagens são interessantes, o casal principal é simpático, o protagonista é alguém por quem a gente sente vontade de torcer, entre outros. Além disso, tudo ganha uma proporção maior, pois o elenco também é bastante eficiente: Wagner Moura e Alinne Moraes estão ótimos, Maria Luísa Mendonça está muito divertida como Sandra (principalmente no passado) e Gabriel Braga Nunes convence como vilão; só mesmo Fernando Ceylão não me agradou porque ele não consegue largar o tom exagerado do início do filme.

Como se já não bastasse, é também um orgulho ver como o cinema brasileiro tem melhorado a qualidade técnica de seus filmes. Apesar de alguns ainda terem cara de produção barata, outros como "O Homem do Futuro" não deixam nada a desejar a uma produção hollywoodiana. A direção de arte, o figurino, a fotografia, os efeitos especiais: todos de muito boa qualidade. 

Além de ser uma raridade no cinema nacional, já que é um filme de ficção cientifica, "O Homem do Futuro" consegue se sair bem em sua missão de trazer diversão descompromissada, mas sem deixar de lado uma história de qualidade e inteligente, como muitos sucessos nacionais andam ignorando. Fica aqui, então, a esperança pela maior diversidade do cinema brasileiro e pelo fim do estereótipo de que apenas fazemos filmes sobre violência e miséria. Temos um país riquíssimo culturalmente e por isso mesmo não temos a obrigação de fazer sempre o mesmo tipo de filme.


NOTA: 3.5/5


sexta-feira, 6 de julho de 2012

A Praia (The Beach)


Dir.: Danny Boyle; Escrito por John Hodge; Com Leonardo DiCaprio, Tilda Swinton, Virginie Ledoyen. 2000 - Fox (119 min. - 18 anos)


Depois de ter ganhado notoriedade com seus dois primeiros filmes, "Cova Rasa" e "Trainspotting - Sem Limites", principalmente com o segundo, era apenas questão de tempo até que Danny Boyle fosse procurado pelos estúdios de Hollywood para iniciar a sua carreira nos EUA. Seu primeiro filme em solo estadunidense foi a comédia "Por Uma Vida Menos Ordinária", que foi um fracasso de bilheteria e de crítica. Uma pena, já que eu gostei bastante do filme.

Apesar disso, a 20th Century Fox, estúdio que distribuiu a comédia romântica com Ewan McGregor e Cameron Diaz, viu potencial em Boyle e lhe deu o sinal verde para filmar "A Praia", uma adaptação de 50 milhões de dólares do livro de Alex Garland protagonizada por um dos jovens atores mais cobiçados da época, Leonardo DiCaprio. O filme foi um sucesso comercial (sendo a maior bilheteria do diretor até "Quem Quer Ser um Milionário?" em 2008), entretanto foi detonado pela crítica. Dá para entender, afinal, apesar de não ser tão ruim quanto dizem, "A Praia" é sim um filme menor de Boyle.

No longa, um jovem americano de vinte e poucos anos chamado Richard viaja para Bangcoc, capital da Tailândia, no intuito de se divertir; em outras palavras, beber e fumar maconha. Entretanto, a viagem fica bem mais interessante quando ele conhece o homem hospedado no quarto ao lado: o lunático Perdido (ou Daffy em inglês), que lhe fala sobre uma ilha paradisíaca localizada no Golfo da Tailândia.

No dia seguinte, porém, Perdido é encontrado morto em seu quarto depois de ter cortado os próprios pulsos durante a noite. Mas antes de partir, deixa para Richard um mapa com o caminho para a tal ilha maravilhosa. O jovem, então, decide ir até lá junto de um casal de franceses também hospedado no hotel, Étienne e Françoise. Porém, ele não sabe que o que lhe espera é uma mistura de paraíso e inferno.

Para início de conversa, vamos citar as qualidades de "A Praia". Em primeiro lugar, Leonardo DiCaprio está bem como o protagonista da história. Não é nenhuma performance memorável, mas ele consegue carregar o filme sem problemas. Em segundo, o filme é, sem dúvida alguma, muito bonito visualmente. Tudo bem que as praias e florestas tailandesas contribuem, mas se tem uma coisa que Boyle consegue fazer com primor é imprimir um visual marcante aos seus filmes. Por último, o ritmo do longa é eficiente. Ele tem praticamente duas horas de duração e não cansa em momento algum.

Infelizmente, o filme tem defeitos, principalmente em seu roteiro. Apesar do bom ritmo, como já citamos, em certos momentos a história apresenta falhas incômodas. A principal delas refere-se a um trecho do longa em que Richard começa a perder a cabeça e torna-se, literalmente, um garoto das selvas. Não só este pedaço do filme tem uma cena digna de risadas involuntárias, ele também termina de forma abrupta, pois de uma cena para a outra, a loucura de Richard some e ele volta a ser o que era antes.

Outro problema do roteiro de John Hodges é a sua indecisão entre ser um filme sério para adultos ou um filme divertido para adolescentes. Há certos momentos extremamente fortes como quando um tubarão ataca alguns dos habitantes da ilha, deixando-os gravemente feridos. Porém, há outros extremamente bobos como a cena em que Richard, Étienne e Françoise chegam à praia do título ou quando Richard imagina estar dentro de um videogame. Isso tudo realçado pela trilha-sonora composta por Angelo Badalamenti, digna de filme da Sessão da Tarde.

Por fim, como é um filme americano passado na Tailândia não poderiam faltar os esteriótipos asiáticos. Em "A Praia", os locais estão sempre ou muito felizes, sorrindo de orelha à orelha, ou são bandidos casca-grossa munidos de rifles AK-47. 

Enfim, eu, pessoalmente, não recomendo "A Praia". Entretanto, também não acho que assisti-lo é uma total perda de tempo, afinal eu mesmo não o achei uma tortura ou uma experiência insuportável. É apenas uma diversão descartável que não faz mal a ninguém.

NOTA: 3/5


Por Uma Vida Menos Ordinária (A Life Less Ordinary)


Dir.: Danny Boyle; Escrito por John Hodge; Com Ewan McGregor, Cameron Diaz, Holly Hunter. 1997 - Fox (103 min. - 12 anos)


Como o cartaz do filme faz questão de deixar bem claro, "Por uma Vida Menos Ordinária" é uma história de amor distorcida dos mesmos criadores de "Trainspotting - Sem Limites". Só essa frase já deixa a entender que essa comédia romântica não é que nem as outras, apesar de ser bastante previsível; e realmente, "Por uma Vida Menos Ordinária" é, no mínimo, é uma viagem muito louca, mas nem por isso menos satisfatória.

O filme já começa com uma visão bastante bem-humorada do Céu, na qual este é representado como um escritório caótico todo pintado de branco comandado pelo arcanjo Gabriel, que está incrivelmente insatisfeito com a quantidade de divórcios que estão sendo assinados na Terra. Ele, então, chama dois de seus funcionários mais confiáveis, O'Reilly e Jackson, e lhes dá a difícil missão de unir dois completos opostos. Ainda por cima, caso eles falhem, eles serão condenados à vida terrestre para o resto da eternidade.

Os dois opostos que devem ser unidos a qualquer custo são Robert e Celine. Ele é um faxineiro que é demitido da firma onde trabalha, pois o seu cargo passou a ser ocupado por robôs, que podem fazer a mesma função muito mais rápido e sem reclamar ou perder tempo conversando. Enquanto isso, ela é uma herdeira que nunca teve que trabalhar em toda sua vida. Ao invés disso, seus dias se resumem a ficar à beira da piscina e praticar tiro ao alvo com os funcionários de sua mansão. Entretanto, as vidas de Robert e Celine se cruzam quando ele resolve se vingar de seu ex-chefe, sequestrando a sua filha que, coincidência ou não, é a Celine da qual já falamos.

Só pela sinopse já dá para perceber que "Por uma Vida Menos Ordinária" é um daqueles filmes frenéticos em que acontecem mil coisas ao mesmo tempo, mas apesar disso ser normalmente o defeito de muitos filmes, aqui é, talvez, a sua maior qualidade. Dessa forma, o filme nunca fica monótono; não há um único momento que se estenda mais do que deve. Enfim, o filme não sofre daquelas malditas "barrigas". Por outro lado, o seu ritmo acelerado pode ser um motivo de distanciamento para alguns. Portanto, fica aqui o aviso.

Outro ponto positivo do filme é o casal de protagonistas vivido por Ewan McGregor e Cameron Diaz. Os dois têm bastante química juntos e têm um ótimo timing para comédia. Cenas como a da cabine telefônica, na qual Celine ensina Robert a ameaçar alguém pelo telefone, ou a do karaokê só dão certo porque os dois atores estão muito bem. Se fosse outro casal, essas cenas, possivelmente, não teriam a mesma graça.

Falando em casal, os anjos vividos por Holly Hunter (O'Reilly) e Delroy Lindo (Jackson) também são bastante divertidos em suas inúmeras tentativas de juntar sequestrador e refém.

Recheado de humor negro e com uma fotografia vibrante, assim como o filme, "Por uma Vida Menos Ordinária" é, geralmente, visto com um dos piores longas do diretor Danny Boyle. Discordo totalmente! Me diverti muito e gostei de ver um filme mais leve depois dos densos "Cova Rasa" e "Trainspotting - Sem Limites".

NOTA: 3.5/5


quinta-feira, 5 de julho de 2012

Trainspotting - Sem Limites (Trainspotting)


Dir.: Danny Boyle; Escrito por John Hodge; Com Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller. 1996 - New Way Filmes (94 min. - 18 anos)


Quando foi lançado nos EUA, "Trainspotting - Sem Limites" causou diversas polêmicas, entre elas o destaque vai para uma criada pelo senador Bob Dole. Dole acusou o filme de glorificar o uso de drogas, mesmo não tendo visto o filme. Pura bobagem! Se o senador tivesse realmente assistido a "Trainspotting", ele teria visto que o filme faz exatamente o contrário, ele retrata as drogas da forma mais perturbadora possível. Se há algum momento em que as drogas são elogiadas durante os 94 minutos de duração, eu simplesmente o perdi.

Segundo filme do diretor Danny Boyle, "Trainspotting - Sem Limites" está junto de "Réquiem para um Sonho" de Darren Aronofsky na lista dos filmes que fazem qualquer um temer as drogas. Ambos usam bastante a linguagem visual para atrair o público e também para intensificar as suas respectivas mensagens. Nos dois casos o consenso é: as drogas não valem a pena!

No filme de Boyle é narrada a história de um jovem escocês chamado Mark Renton, viciado em drogas pesadas, principalmente a heroína. Apesar de sentir-se bem com esta situação (chega a dizer que heroína é melhor do que qualquer orgasmo), ele chega à conclusão de que precisa acabar com o seu vício caso queira melhorar de vida, profissional e socialmente. Entretanto, esta jornada é muito mais difícil do que ele pensava, já que todos os seus amigos são usuários de drogas e ele próprio não consegue deixá-las de lado.

O filme inicia, então, uma jornada frenética pelo mundo das drogas, mesclando realidade e imaginação. Por isso mesmo não é de se surpreender que uma das cenas mais famosas do filme é quando Renton entra, literalmente, dentro de uma privada para buscar supositórios de ópio (sim, isso existe!). Além disso, há também uma mistura de drama/suspense com comédia, algo com que Boyle já havia trabalhado em seu longa anterior, "Cova Rasa", obtendo resultados satisfatórios. Aqui a fórmula se repete e mais uma vez agrada.

Protagonizado por Ewan McGregor numa ótima performance e recheado de personagens excêntricos como Sick Boy, Spud e Begbie, por sua vez, muito bem interpretados por Jonny Lee Miller, Ewen Bremner e Robert Carlyle, respectivamente, não há muito o que falar sobre "Trainspotting - Sem Limites" sem estragar as reviravoltas da história ou diluir o impacto das cenas mais chocantes. Só posso dizer o seguinte: se você estiver disposto a ver cenas bem fortes, mas acompanhadas de uma boa e inteligente trama, vá em frente, pois você não vai se decepcionar.

NOTA: 4/5


quarta-feira, 4 de julho de 2012

Cova Rasa (Shallow Grave)


Dir.: Danny Boyle; Escrito por John Hodge; Com Kerry Fox, Christopher Eccleston, Ewan McGregor. 1994 - New Way Filmes (92 min.)


Imagine que um dia você encontrasse dentro do seu apartamento uma maleta lotada de dinheiro. O que você faria? Ligaria para a polícia para devolvê-la ou a guardaria no lugar mais seguro da sua casa? Você gastaria o dinheiro ou doaria aos pobres? É exatamente esta confusão de ideias que dá origem ao filme "Cova Rasa".

No longa, um trio de amigos que vivem no mesmo apartamento está à procura de alguém que possa ocupar o quarto vazio do imóvel. Após diversas entrevistas com todo tipo de gente, eles decidem abrigar Hugo, um escritor, que à primeira vista, parece ser bastante normal. Entretanto, quando este se muda para o apartamento, suas atitudes começam a ficar cada vez mais estranhas. Até que um dia, os três amigos, suspeitando do fato de Hugo ficar trancado em seu quarto o dia inteiro, decidem arrombar a porta e ver o que está acontecendo lá dentro. Ao entrar no quarto, descobrem o cadáver de Hugo sobre a cama e uma maleta escondida. Dentro dela, há mais e mais notas de dinheiro.

Depois de um primeiro momento de incerteza, os amigos decidem, então, ficar com o dinheiro e esconder o corpo de Hugo, aos pedaços, no meio de uma floresta. Porém, com o passar do tempo, a situação começa a se complicar e a amizade dos três é posta em xeque.

Filme de estreia do inglês Danny Boyle (ganhador do Oscar por "Quem Quer Ser um Milionário?"), "Cova Rasa" é um daqueles filmes que começa meio irritante porque os protagonistas são pessoas bem antipáticas. Para se ter uma ideia, parecem aqueles amigos sem noção que todo mundo tem. Porem, quando o dilema dos personagens começa, a história ganha fôlego e envolve até à última cena. Não só pelo mistério envolvendo o dinheiro do falecido, mas também pela forma que os personagens começam a mudar drasticamente depois do acontecimento.

O mais prejudicado é, sem dúvida alguma, David, muito bem interpretado por Christopher Eccleston. Ele, que era o mais sensato de todos os três (tanto que foi quem mais questionou a ideia de ficar com o dinheiro e ocultar o corpo), é o que sofre a maior crise psicológica, principalmente por ter sido ele quem teve que, literalmente, fatiar o corpo e martelar a cara do cadáver, a fim de impossibilitar a sua identificação. Christopher incorpora muito bem a confusão que toma conta da cabeça de David e a frieza que o personagem adquire, muito bem mostrada num dos momentos mais importantes do filme.

Enquanto isso, os outros dois amigos, Juliet e Alex, interpretados, respectivamente, por Kerry Fox e Ewan McGregor, tentam aproveitar ao máximo a situação, causando a insatisfação de David. Juliet, principalmente, começa a perder a razão e a ficar deslumbrada com o dinheiro que ela agora pode gastar.

Mas talvez o mais interessante de tudo é como o filme, apesar de ser pesado e bastante violento, mantém o bom humor em diversas situações, principalmente na sequência do baile de caridade. Além disso, a fotografia do filme é caracterizada por cores bem fortes, especialmente o apartamento dos protagonistas, onde a maioria da ação do filme acontece, incluindo cenas violentas, criando, portanto, uma espécie de brincadeira entre este lado mais cômico do filme e o outro, mais sombrio e sério; o que pode dar origem a uma discussão sobre o lado bom e o lado ruim do crime que, diria eu, é o tema principal do longa.

Enfim, "Cova Rasa" não é para aqueles que não aguentam ver filmes muito fortes, porém para quem estiver disposto é uma hora e meia muito bem aproveitada.

NOTA: 4/5


segunda-feira, 2 de julho de 2012

E Aí, Comeu?


Dir.: Felipe Joffily; Escrito por Marcelo Rubens Paiva e Lusa Silvestre; Com Bruno Mazzeo, Marcos Palmeira, Emílio Orciollo Netto. 2012 - Paris


"E Aí, Comeu?" pode ser visto como uma versão masculina de "Sex and the City". No filme, um grupo de amigos se reúne periodicamente num botequim para botar o papo em dia e, geralmente, 99,9% da conversa envolve sexo. Os amigos, assim como as nova-iorquinas da série da HBO, falam "daquele" assunto sem o menor pudor. Discutem sobre pênis, adultério, pelos pubianos, loiras, mulatas, ruivas... Enfim, na mesa do bar nada é proibido.

Em paralelo, cada um dos integrantes vive seus próprios dilemas amorosos e sexuais. Fernando, enrolado num processo de divórcio, ainda sofre por causa de sua futura ex-mulher, mas ao mesmo tempo, começa a cultivar uma paixão por uma vizinha sua de apenas 17 anos de idade. Honório, casado e pai de três filhas, passa por uma crise no matrimônio ao suspeitar que sua esposa anda traindo-o. Por fim, Afonsinho, um solteiro aficionado por mulheres casadas, começa a sentir algo a mais por uma prostituta da qual é amigo. Em resumo, a ideia é bastante interessante, pena que a execução seja tão fraca.

Apesar de ter boas performances de seu elenco, principalmente do trio de protagonistas formado por Bruno Mazzeo, Marcos Palmeira e Emílio Orciollo Netto, o roteiro é uma verdadeira decepção. O grande problema é o seguinte: os roteiristas Marcelo Rubens Paiva e Lusa Silvestre constroem bons pontos de partida, isto é, as situações criadas por eles têm bastante promessa - as histórias são intrigantes, os personagens são bem construídos etc. -, mas o percurso em si é sem graça e monótono. O filme pretende ser uma comédia, tanto que a quantidade de piadas é enorme, só que estas não são inspiradas. Dessa forma, as risadas demoram a chegar, e quando chegam não são das maiores, apesar de ter alguns bons momentos.

Outro problema é o terceiro ato, ou seja, a parte do filme em que todos os conflitos chegam à uma conclusão. Apesar de todos eles terem finais coerentes e bem amarrados, o ritmo começa a arrastar e a impressão de que o filme já deu o que tinha que dar é predominante.

Enfim, "E Aí, Comeu?" poderia ter sido um filme muito melhor do que é, porém a escassez de risadas e a extensão da história até o seu limite fazem do produto final um filme fraco. Portanto, a pergunta que vem à cabeça do espectador é: "e aí, acabou?".

NOTA: 2/5