domingo, 14 de outubro de 2012

Nós e Eu (The We and the I)


Dir.: Michel Gondry; Escrito por: Michel Gondry, Jeffrey Grimshaw e Paul Proch; Com Michael Brodie, Teresa Lynn, Raymond Delgado. 2012 (103 min.)


O ser humano é estranho. Estranho física e psicologicamente. Como conseguimos andar sobre os dois pés sem precisar de nenhum apoio? Lembrando que os macacos, mesmo sendo próximos de nós, não conseguem ficar sobre as duas patas inferiores por muito tempo. E a nossa mente? O ser humano vive indeciso, se esconde por trás das aparências, precisa de ajuda para saber o que fazer e pensar.

E de todas as fases da vida de um ser humano, a mais estranha é, sem dúvida, a adolescência. Entre a infância e a vida adulta, o adolescente é o ser humano mais confuso. Sua cabeça muda de opinião a cada segundo. Em um momento gosta de um tipo de música ou filme e daqui a pouco já é uma pessoa completamente diferente. Além disso, o corpo também muda constantemente graças à famosa puberdade, e assim mais confusão se apodera da mente do jovem.

Por isso é, no mínimo, interessante saber que um diretor como o francês Michel Gondry, acostumado a contar, em seus filmes, as histórias de pessoas bastante estranhas, resolveu realizar um filme sobre adolescentes. O resultado disso foi "Nós e Eu", um longa bastante estranho, mas ao mesmo tempo, acessível e muito simpático.

Passado em uma única tarde (o último dia de aula) e praticamente em um único cenário (um ônibus urbano), "Nós e Eu" documenta as conversas, os conflitos e os estilos divergentes de um grupo de adolescentes da região do Bronx, na cidade de Nova York. Há jovens de todos os estilos (valentões, nerds, músicos), etnias (brancos, latinos, negros, asiáticos), físicos (magros e gordos), orientações sexuais (héteros, homos e bissexuais) e personalidades (brincalhões, tristes, desinibidos). Consequentemente, as histórias são das mais variadas, envolvendo uma polêmica festa, um sutiã de água, desenhos e poemas, bullying, violência etc. 

Dividido em três partes, "Nós e Eu" conta com o estilo característico de Gondry: hiperativo e cheio de criatividade. O longa, principalmente nos dois primeiros atos, conta com uma edição incontrolável, que pula de uma conversa para a outra como se fosse uma mosquinha perambulando pelo ônibus: tudo isso complementado pelos ótimos flashbacks confeccionados por Gondry, misturando filmagem caseira com stop motion e outros truques do inventivo diretor.

Porém, assim como em seu filme mais conhecido, "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", Gondry usa a última parte do filme para dar algum descanso ao espectador. No caso de "Nós e Eu", a edição frenética dá lugar a conversas mais longas entre poucos personagens, uma vez que aos poucos o ônibus fica cada vez mais vazio.

O elenco também é um diferencial desse filme em relação a outros que abordam a adolescência. Todos os atores são iniciantes, o que deixa o elenco um pouco irregular, porém dá para sentir a emoção sair da performance de todos eles, seja em momentos de comédia ou de drama.

Engraçado e emocionante na mesma medida, é bom ver Michel Gondry voltar à forma depois do morno "Besouro Verde" com um filme extremamente agradável, mas também socialmente engajado. Bem escrito, bem dirigido, criativo e com uma ótima trilha sonora, embalada pela ótima "Bust a Move" do Run DMC, "Nós e Eu" é um filme que merece ser visto.

NOTA: 4/5


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Holy Motors


Dir.: Leos Carax; Escrito por Leos Carax; Com Denis Lavant, Edith Scob, Eva Mendes, Kylie Minogue. 2012 - Imovision (115 min. - 14 anos)


Em todo festival de cinema, sempre tem o longa favorito ao prêmio principal, uma avalanche de estrelas percorrendo extensos tapetes vermelhos e claro, um filme polêmico. Esse filme é aquele que divide opiniões - uns amam, outros odeiam, e tem aqueles que não sabem o que falar -, é diferente de todos os outros filmes em exibição, tem uma narrativa e estética atípicas, e por aí vai.

Como não poderia deixar de ser, no último Festival de Cannes teve um filme que chamou a atenção por todos esses motivos: pelo quão ruim ou bom ele era, pela sua estética e narrativa singulares, por ser a ovelha negra dos filmes em exibição. O projeto em questão era "Holy Motors" do diretor francês Leos Carax.

Sem dirigir nenhum filme desde 1999, exceto quando realizou um segmento na antologia "Tokyo" em 2008, Carax voltou à ativa com um filme extremamente estranho. Dividido em vários segmentos protagonizados pelo mesmo personagem, "Holy Motors" narra um dia na vida de Sr. Oscar, um homem de meia idade que usa uma limusine, dirigida pela choffeur Céline, de camarim para poder se arrumar para os seus encontros.

Mas que encontros são esses? Infelizmente, não posso dizer porque "Holy Motors" é daqueles  filmes que se você detalha demais, acaba estragando a surpresa. O máximo que posso contar é que eles são dos mais variados tipos, abrangendo drama, comédia, musical, fantasia: tudo isso num único filme de menos de duas horas de duração.

Já que não posso contar a história, vamos, então, às minhas observações. O filme, sem dúvida, poderia ser mais curto, achei 115 minutos um pouco além do ideal. Por causa disso, o longa resulta meio cansativo. Mesmo assim, o filme vale ser visto por alguns motivos.

O primeiro deles é a incrível interpretação de Denis Lavant como sr. Oscar. Já que o seu personagem incorpora diversas figuras ao longo do filme, Lavant tem que inventar para cada uma um jeito próprio de andar, falar e gesticular. Além disso, tem que fazer o máximo para não ser engolido pelas diversas trocas de figurino e maquiagem (essa última, por sinal, notável), e felizmente, Lavant consegue se sair muito bem em todos os tipos que interpreta.

Os outros integrantes do elenco também se saem bem. Destaque para Edith Scob, que vive a choffeur da limusine do sr. Oscar, Céline, que possui uma ótima química com Lavant, e Kylie Minogue, que mostra que poderia muito bem seguir a carreira de atriz quando não tiver mais fôlego para fazer turnês mundiais como uma estrela pop. Claro que ela não abandona a música e interpreta a canção-tema do filme, a belíssima "Who Were We".

A estética do filme também é de tirar o fôlego. A mais inventiva sequência, visualmente falando, do filme é uma em que o sr. Oscar participa de uma sessão de captura de movimentos. Nós nem conseguimos ver o rosto do personagem, apenas os seus movimentos graças ao pontos luminosos presos ao collant usado por Denis Lavant. É uma das cenas mais bonitas que vi este ano.

E o terceiro motivo para você ir ver "Holy Motors" é a sua extravagância. Sem dúvida, não há nenhum filme como este, pelo menos neste ano de 2012, e é sempre legal fugir um pouco da zona de conforto dos blockbusters para assistir a filmes que você nunca imaginaria assistir. Você pode achar uma porcaria, mas pelo menos pode dizer que viu.

Enfim, "Holy Motors" peca no ritmo, mas compensa nas atuações e no visual. Não achei ótimo, mas também não achei ruim. É bom. Do que o filme se trata? Não sei exatamente. Mulheres, falta de emoção no mundo moderno, o feio e o belo, a vida e a morte? De tudo isso ou de nenhum desses assuntos? É, realmente, "Holy Motors" é um filme com muitas perguntas e poucas respostas, e acho que é por isso que apesar de não achá-lo nenhuma maravilha, eu não me arrependo nem um pouco de ter gastado dinheiro e tempo assistindo-o.


NOTA: 3/5


terça-feira, 9 de outubro de 2012

Hotel Transilvânia (Hotel Transylvania)


Dir.: Genndy Tartakovsky; Escrito por Peter Baynham e Robert Smigel; Com Adam Sandler, Andy Samberg, Selena Gomez, Kevin James. 2012 - Sony (91 min.)


"Hotel Transilvânia" tem, sem dúvida alguma, uma das premissas mais criativas deste ano de 2012. O longa parte do princípio de que existe um hotel, gerenciado pelo famosíssimo Conde Drácula, aonde os monstros vão para tirar férias sem sofrer a ameaça dos humanos. Entretanto, o verdadeiro motivo para o rei dos vampiros ter construído um enorme castelo para abrigar diversos monstros foi proteger a sua amada filha, Mavis, dos perigos do mundo externo.

Porém, tudo complica quando nas comemorações dos 118 anos de idade de Mavis, surge no hotel um jovem mochileiro que pode por em risco o maior segredo já guardado. Portanto, Conde Drácula se vê na difícil missão de esconder de todos os seus hóspedes, inclusive a sua filha, de que há um humano no hotel, supostamente, livre de humanos.

Felizmente, "Hotel Transilvânia" faz jus ao seu criativo argumento e consegue divertir tanto jovens e adultos.

Apesar de o roteiro seguir um caminho seguro e investir na mais velha estrutura narrativa que existe (normalidade-complicação-desenvolvimento-desentendimento-reconciliação-volta à normalidade), além de depender bastante das piadas físicas, o filme entretém, pois conta com personagens extremamente carismáticos. O Conde Drácula super protetor, a filha curiosa, o estranho sem noção, o Frankenstein pouco inteligente, a múmia bonachona, entre outras figuras muito interessantes, fazem o espectador esquecer da familiaridade da história e embarcar nessa aventura hiperativa (e bota hiperativa nisso!).

Outro ponto crucial para o sucesso do filme é a direção do russo Genndy Tartakovsky. Animador de longa data e criador de clássicos do Cartoon Network como "O Laboratório de Dexter" e "Samurai Jack", além da aclamada minissérie de curtas "Star Wars: Clone Wars", Tartakovsky sabe como ninguém manipular a imagem de seus desenhos. Em todos os seus programas, os traços dos personagens são extremamente bem definidos e os cenários são de notável beleza, principalmente em "Samurai Jack".

Em "Hotel Transilvânia", sua estreia como diretor de longa-metragens, ele não faz diferente. Todos os personagens são facilmente identificáveis e de feições e formas marcantes (por sinal, o Conde Drácula lembra vagamente o Jack) e o hotel conta com criativos cenários. Por sinal, uma das minhas cenas favoritas do filme, uma em que o Drácula e Jonathan (o humano intruso no hotel) andam por diversos corredores no subterrâneo do castelo, lembra perfeitamente as séries de Tartakovsky, principalmente a maneira do Conde andar.

O filme também, como não poderia deixar de ser, faz ótimas piadas em relação aos diversos monstros que se hospedam no hotel. Exemplos delas não faltam como o fato do Frankenstein viver se desmontando, a impossibilidade de alguém ver o Homem Invisível (o que, às vezes, cria situações constrangedoras para os personagens) e os avisos de "não perturbe" das portas serem cabeças de vudu. Isso sem contar, a aparição dos zumbis de Mozart, Bach e Beethoven e a hilária sátira à saga Crepúsculo.

Então, apesar de não ser um clássico do cinema de animação, podendo ser facilmente esquecido daqui a alguns anos, "Hotel Transilvânia" cumpre com muita competência a sua função de ser uma mera diversão descompromissada para toda a família.

P.S.: 1) Fique no início dos créditos para ver uma criativa sequência feita em animação tradicional; 2) apesar do incrível visual de Tartakovsky, o 3D é totalmente descartável. Portanto, se puder evitá-lo, melhor.

NOTA: 4/5


domingo, 7 de outubro de 2012

8 1/2 (8 1/2)


Dir.: Federico Fellini; Escrito por Ennio Flaiano, Tullio Pinelli, Federico Fellini e Brunello Rondi; Com Marcello Mastroianni, Claudia Cardinale, Anouk Aimee. 1963 - Continental (138 min.)


O cineasta Federico Fellini, um dos mais famosos e reconhecidos realizadores italianos, é conhecido por causa de diversos filmes como "A Doce Vida", "Satyricon" e "Amarcord". Porém, é inegável que o seu filme mais celebrado seja "8 1/2" de 1963.

Passado na época de ouro do cinema italiano, o filme conta as desventuras vividas por um genial, porém frustrado, cineasta durante a produção de seu mais novo e aguardado filme. Tudo isso, enquanto está cercado de diversas mulheres, como a sua triste esposa Luísa, a espevitada amante Carla, a sua musa Cláudia, a excitante Gloria, a prostituta de sua infância Saraghina e até a sua defunta mãe, que bagunçam ainda mais a sua vida e deixam Guido cada vez mais confuso em relação ao seu passado, presente e futuro.

Extremamente elétrico, o filme passa todo o caos mental do protagonista para a tela com total eficiência. Portanto, não é de se estranhar que a cena de abertura de "8 1/2" seja um sonho para lá de estranho: um engarrafamento infernal do qual Guido foge voando. Além disso, tem o momento em que Guido sonha com o seu harém, habitado pelas várias mulheres de sua vida. Na minha opinião, essa é a melhor cena de todo o filme. Os flashbacks também são contantes. O filme vai e volta no tempo a fim de contar toda a infância de menino pobre e católico do cineasta.

Porém, quem realmente faz toda essa colagem dar certo é Marcello Mastroianni, que está ótimo na pele de Guido. Os momentos em que o seu personagem entra em desespero e tem um de seus muitos delírios são ótimos. Isso sem contar a interação dele com todas as atrizes com as quais contracena, cada uma delas recebendo um tratamento diferente, às vezes mais amigável, outras vezes mais rude.

As mulheres, por sinal, também são incríveis! Anouk Aimee como Luisa, a esposa de Guido, está muito bem ao mostrar toda a fragilidade, mas também força (escondida) que a sua personagem possui. Claudia Cardinale, apesar de aparecer pouco e já próximo ao final do filme, tem uma presença marcante como a grande estrela dos filmes de Guido. Há, porém, as personagens de cunho mais cômico como a matrona Saraghina, vivida por Eddra Gale, e a minha favorita, Carla, a amante interpretada por Sandra Milo. A cena em que ela chega na estação de trem, logo no início do longa, é uma das minhas favoritas.

Uma história de amor ao cinema, às mulheres e à vida, "8 1/2" conta uma história ótima e divertida com muito bom-humor e ótimas interpretações, além de belíssimos figurino e fotografia em preto e branco.


NOTA: 4/5


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Assassinos por Natureza (Natural Born Killers)


Dir.: Oliver Stone; Escrito por David Veloz, Richard Rutowski e Oliver Stone; Com Woody Harrelson, Juliette Lewis, Robert Downey Jr., Tommy Lee Jones. 1994 - Warner (118 min. - 18 anos)


Oliver Stone sempre foi conhecido por ser uma figura polêmica, seja dentro ou fora do mundo do cinema. Ao mesmo tempo em que é simpatizante de figuras geralmente criticadas como os líderes latino-americanos Hugo Chávez e Fidel Castro, Stone também é famoso por seus filmes que usam e abusam da violência, da política e do criticismo social. Entre suas obras mais famosas (e controversas) estão "JFK - A Pergunta que não Quer Calar" e "The Doors", entretanto o seu filme mais polêmico é, talvez, "Assassinos por Natureza" de 1994.

Baseado num roteiro originalmente escrito por Quentin Tarantino, o longa conta a saga de um casal de assassinos em série, Mickey e Mallory Knox, que, por mera diversão, tocam o terror por onde passam, deixando um verdadeiro rastro de sangue. Enquanto isso, o filme também mostra a ascensão do casal à fama devido aos seus atos de carnificina e o aumento de sua popularidade entre a população norte-americana.

Com um visual marcante, "Assassinos por Natureza" já deixa a sua marca logo na sequência de abertura, em que o casal assassina diversas pessoas dentro de uma lanchonete no meio do deserto. Alternando a fotografia entre cores vibrantes e o clássico preto-e-branco, cortes rápidos e abundantes, uma trilha-sonora de tirar o fôlego e uma mistura de realismo com delírio, o que é prometido é um filme incrível. Entretanto, apesar do longa continuar esteticamente interessante, a história, que é o que mais importa, começa a mostrar os seus defeitos.

Com uma ótima e bem construída crítica à imprensa e à sociedade altamente influenciável, fazendo uso de inúmeros recursos, incluindo um apresentador de tevê de moral duvidosa (vivido com louvor por Robert Downey Jr.) e um comercial da Coca-Cola para efeito cômico, "Assassinos por Natureza" peca onde deveria ter exatamente mais cuidado: na construção de seus personagens principais.

Mickey e Mallory são devidamente apresentados através de uma sequência bastante interessante (e sinistra também) que copia clássicas sitcoms como "I Love Lucy". Entretanto, a partir do momento em que os dois saem estrada afora em sua jornada de assassinatos, a história dos dois começa a ficar bem rasa, dando maior ênfase à violência e à estética do que ao drama dos protagonistas, que poderia ter sido muito mais explorado.

Exemplo desse desleixo com os personagens são as cenas de discussões entre Mickey e Mallory, que poderiam ser mais calmas, dando, portanto, mais chances aos atores (os ótimos Woody Harrelson e Juliette Lewis) de mostrar o seu potencial dramático. Mas ao invés disso, o diretor insiste em manter a edição frenética, impedindo o envolvimento do espectador com os dois serial killers (algo que tornaria o filme bem mais interessante, pois criaria uma sensação de mal-estar no público por simpatizar com uma dupla de criminosos impiedosos).

Portanto, apesar dos maiores esforços de seu talentoso elenco, "Assassinos por Natureza" perde a oportunidade de ir além em sua crítica por preferir focar em sangue e visual do que no psicológico de duas figuras visivelmente perturbadas, mas ao mesmo tempo, perdidamente apaixonadas uma pela outra. É um bom filme, mas poderia ter sido melhor.

NOTA: 3/5


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ted (Ted)


Dir.: Seth MacFarlane; Escrito por Seth MacFarlane, Alec Sulkin e Wellesley Wild; Com Mark Wahlberg, Mila Kunis, Seth MacFarlane. 2012 - Universal (106 min. - 16 anos)


É algo comum na obra de Seth MacFarlane seres irreais viverem lado a lado com pessoas como eu e você. Em sua criação mais famosa, "Uma Família da Pesada", um cachorro falante e culto e um bebê com sotaque britânico moram na mesma casa que uma típica família de classe média norte-americana. Em "The Cleveland Show", um dos amigos do protagonista é um urso que fala, já em "American Dad" há um peixinho dourado também falante e um alienígena que adora se travestir. Em todos os casos, os humanos agem naturalmente diante dessas criaturas excêntricas, como se não fosse estranho animais falarem ou outras bizarrices. Portanto, não é surpresa que para a sua estreia como diretor de longa-metragens, com o filme "Ted", MacFarlane tenha escolhido falar sobre um ursinho de pelúcia que, pasmem!, fala e adora beber e fumar maconha.


O filme conta a história da amizade entre um homem de 35 anos, chamado John, que não atingiu nenhum objetivo em sua vida e o ursinho pervertido do título. A maior diversão dos dois é fumar maconha o tempo inteiro e assistir a um dos seus filmes favoritos da infância, "Flash Gordon" (sim, aquela pérola kitsch dos anos 1980 com trilha sonora da banda Queen).

Entretanto, a namorada de John, Lori, não aguenta mais ver o seu namorado desperdiçar a sua vida de forma tão estúpida, apesar de gostar do estranho amigo de seu companheiro. Portanto, ela dá um ultimato: ou Ted se muda e para de levar John para o mal caminho ou, então, o longo relacionamento de 4 anos entre John e Lori acaba. Assim, para não perder o seu grande amor, John inicia uma mudança em seu comportamento, que tem como consequência grandes mudanças na sua amizade com Ted.

Se você leu essa sinopse e achou-a bem bobinha, pode apostar que você não é único. Ela é bobinha mesmo. Entretanto, se tem algo que Seth MacFarlane consegue fazer muito bem é pegar algo já batido e transformar em algo divertido e original. As suas séries de animação são assim, incluindo "Uma Família da Pesada", que para muitos é uma cópia mal-feita de "Os Simpsons". E não é diferente com "Ted".

Primeiro de tudo, não há dúvidas de que MacFarlane se beneficiou e muito do cinema, uma vez que com "Ted" ele conseguiu levar a sua irreverência e humor politicamente incorreto ao extremo, coisa que não é possível na televisão. Afinal os seus programas passam na Fox norte-americana, um dos maiores canais abertos do país. Portanto, espere de "Ted" bastante palavrões, drogas e sexo. Entretanto, nada vem de forma gratuita, muito pelo contrário, tudo acontece de forma inteligente e até traz alguma crítica social pertinente. Um exemplo disso é o chefe de Ted, que aceita todas as safadezas que o funcionário faz, só porque ele é aquele típico americano deprimido, que não aguenta mais a vida, muito menos o seu emprego. Então, se ele pode evitar qualquer tipo de aborrecimento, melhor para ele.

Outra grande qualidade de "Ted" é o seu ótimo elenco. Encabeçado por Mark Wahlberg, por sinal, ótimo como John Bennett, mostrando que ele tem talento cômico de sobra, o elenco conta ainda com a divertidíssima Mila Kunis - colega de MacFarlane em "Uma Família da Pesada" e estrela em ascensão - como Lori, a namorada de John, Joel McHale - dos ótimos humorísticos "The Soup" e "Community" - como o chefe de Lori, e o próprio Seth MacFarlane dublando incrivelmente bem Ted.

Isso sem contar com as ótimas cameos (aquelas pequenas aparições de gente famosa) salpicadas ao longo do filme. Entre as celebridades que fazem uma pontinha estão Norah Jones, Sam J. Jones (o intérprete de Flash Gordon no filme de 1980) e Ryan Reynolds. Todos sacaneando a si mesmos de forma memorável.

Quem também aproveita ao máximo a exposição cinematográfica é o compositor Walter Murphy, parceiro de longa data de MacFarlane na televisão. Em "Ted", ele mantém o seu estilo característico com muito sucesso e quem sabe não arranje mais trabalhos no cinema?

Enfim, apesar de não ser o filme épico que poderia ter sido, deixando um pouco a desejar aos fãs de "Uma Família da Pesada" e afins, como eu, "Ted" é ainda assim uma divertidíssima comédia fiel ao estilo Seth MacFarlane de fazer rir. Ainda bem! Porque nos tempos de hoje o politicamente incorreto é cada vez mais bem-vindo.

NOTA: 3.5/5


domingo, 23 de setembro de 2012

Intocáveis (Intouchables)


Dir.: Olivier Nakache e Eric Toledano; Escrito por Olivier Nakache e Eric Toledano; Com François Cluzet, Omar Sy, Anne Le Ny. 2011 - Califórnia (112 min. - 14 anos)


Há pouco menos de uma semana foi anunciada pelo Centro Nacional do Cinema e da Imagem Animada da França a escolha do filme que vai representar o país na corrida pelo Oscar de melhor filme estrangeiro: "Intocáveis" dos diretores Olivier Nakache e Eric Toledano. Não é por nada, uma vez que o filme não só foi bem recebido pela crítica francesa e internacional, como também vem tendo uma extraordinária jornada pelos cinemas de todo mundo, tanto que se tornou há pouco o filme francês de maior arrecadação fora da França, ultrapassando "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" de Jean-Pierre Jeunet. Além disso, em seu país de origem, é o segundo filme nacional mais visto, perdendo apenas para "A Riviera não é Aqui" de Dany Boon. No Brasil não é diferente, já que aqui o filme já ultrapassou a marca dos 200 mil espectadores - ótimo número para um filme europeu.

Entretanto, não precisa ser um gênio para entender o porquê de um filme como "Intocáveis" fazer tanto sucesso. Ele é engraçado, emocionante, universal, atemporal... Enfim, é um filme com o qual qualquer um de nós pode se identificar, pois trata de seres humanos e não de meros robôs sem expressão ou personalidade.

O filme conta a história de Driss, um habitante da periferia de Paris que não tem nenhum rumo na vida. Na verdade, o seu maior objetivo é receber todo mês o seu seguro-desemprego e ficar até altas horas da madrugada bebendo e fumando com os amigos. Entretanto tudo muda quando ele é contratado por um empresário milionário tetraplégico para ser o seu "enfermeiro". É claro que de início Driss não gosta nada disso, porém com o tempo, ele e seu patrão, Phillipe (o deficiente), ficam próximos um do outro e desenvolvem uma grande amizade.

Só pela sinopse já deu para perceber que "Intocáveis" tem a história mais batida de todas: aquela em que os dois opostos se atraem (no caso, o pobre e o rico que se tornam amigos). Entretanto, o que poderia ter sido apenas mais um filme meloso é na verdade uma ótima comédia, graças ao seu elenco incrivelmente carismático, principalmente a dupla de protagonistas, François Cluzet e Omar Sy. 

Quando juntos em cena, Cluzet e Sy proporcionam ótimos momentos tanto cômicos como dramáticos, que focam, geralmente, nas diferenças sociais entre os dois personagens. Uma das melhores cenas do filme é uma em que Phillipe pede para uma pequena orquestra tocar diversos clássicos da música erudita numa forma de criar uma curiosidade de Driss pelos grandes compositores. O máximo que ele consegue é ligar as músicas a comerciais e a centrais de telemarketing.

Outro ponto positivo do filme é o roteiro, escrito pelos dois diretores, que não tem medo de brincar com o politicamente incorreto. Diversas cenas fazem piada com a condição de Phillipe, entretanto nenhuma delas tem o propósito de ofender, o que diferencia esse filme de outros com o mesmo tipo de humor, mas que infelizmente ao invés de divertir apenas provocam protestos e situações desagradáveis.

No final das contas, "Intocáveis" está longe de ser um filme original, tanto que muitos vão chamá-lo de bobinho, tolo e até de americanizado. Entretanto consegue formar uma identidade própria a partir de seu roteiro inteligente, mas acessível, e de seu elenco de primeira linha.


NOTA: 4/5