domingo, 11 de novembro de 2012

Anônimo (Anonymous)


Dir.: Roland Emmerich; Escrito por John Orloff; Com Rhys Ifans, Vanessa Redgrave, Sebastian Armesto, Rafe Spall, David Thewlis. 2011 - Sony (130 min.)


Não há dúvidas de que William Shakespeare é o mais conhecido escritor de língua inglesa. Autor de 38 peças, 154 sonetos e diversos epitáfios e outros poemas, o Bardo de Avon é um ícone não só da Inglaterra, mas de todo mundo, uma vez que suas obras já foram traduzidas para quase todas as línguas vivas. Imagine, porém, se descobrissem que, na verdade, Shakespeare era uma fraude. Ele não escreveu nenhum de seus textos e, quem diria, era analfabeto. Daí surge a premissa de "Anônimo".

Segundo o filme, o verdadeiro autor de obras como "Romeu e Julieta", "A Megera Domada", "Macbeth" e "Hamlet" era Edward de Vere, 17º Conde de Oxford. Por ser nobre e casado com a filha de William Cecil, 1º Barão de Burghley, um homem averso à escrita, Edward nunca pôde assumir publicamente a autoria de suas obras com a ameaça de ter a sua reputação e a da família de sua esposa prejudicadas.

Entretanto, Edward ainda queria mostrar o seu trabalho para o povo, não só para poder ver as suas peças ganharam a luz do dia, mas também para difundir as suas opiniões quanto à política e à nobreza britânica pelas camadas populares. Dessa forma, ele contacta um promissor escritor, Ben Jonson, obrigando-o a pôr o seu nome nas peças de autoria do conde. Entretanto, por uma virada do destino, quem acaba "assinando" as obras é William Shakespeare, um ator analfabeto e sem muitos escrúpulos.

Entretanto, o filme não fica só por aí, ligando as peças supostamente escritas por Shakespeare à toda a tensão política existente na Inglaterra da virada do século XVI para o XVII, principalmente a questão sucessória, envolvendo a já idosa Rainha Elizabeth I e o Rei Jaime VI da Escócia (posteriormente, Jaime I da Inglaterra).

Dirigido pelo alemão Roland Emmerich, conhecido por já ter destruído o mundo várias vezes no cinema em filmes como "2012", "O Dia Depois de Amanhã" e "Independence Day", "Anônimo" não traz nenhuma inovação ao gênero do drama histórico, porém recompensa a falta de originalidade com um filme bastante eficiente, divertido e envolvente. 

As suas qualidades são várias. Primeiro de tudo, o elenco escolhido é muito bom. Rhys Ifans, que vive Edward de Vere desempenha muito bem o seu papel, assim como Sebastian Armesto, intérprete de Ben Jonson, e Rafe Spall, como o boêmio e irresponsável William Shakespeare. O elenco ainda conta com as presenças ilustres de David Thewlis como William Cecil e Vanessa Redgrave e sua filha Joely Richardson vivendo a Rainha Elizabeth I em duas épocas distintas de sua vida.

A reconstituição histórica também é ótima. Filmado nos estúdios Babelsberg, "Anônimo" conta com uma impecável versão cenográfica da Londres elizabetana, incluindo reconstituições do The Rose Theatre e o do The Globe Theatre. Isso sem contar os lindos palácios que abrigavam a corte britânica e suas festas. O figurino desenhado por Lisy Christl também é notável, tanto que foi indicado ao Oscar.

Até mesmo o roteiro, que peca no final com uma revelação, que apesar de ser possível naquela época, é extremamente estranha, mantém o ritmo frenético até o último minuto. Portanto, não pense em ver "Anônimo" se você estiver com sono ou prestando apenas meia atenção na história, pois é daqueles filmes que se você perde um momento sequer, você já fica todo confuso.

Enfim, "Anônimo" não foi indicado a nenhum grande prêmio em nenhuma grande categoria, mas e daí? O filme é muito bem-feito, tem uma premissa interessante, tem boas atuações e toda a produção luxuosa que você pode esperar de um longa-metragem de época.


NOTA: 3.5/5


007 - Operação Skyfall (Skyfall)


Dir.: Sam Mendes; Escrito por Neal Purvis, Robert Wade e John Logan; Com Daniel Craig, Judi Dench, Javier Bardem, Ralph Fiennes. 2012 - Sony (143 min. - 14 anos)


A franquia 007 é realmente impressionante! São 50 anos de história contados por 23 filmes e seis intérpretes diferentes de James Bond. Era de se esperar que hoje em dia a franquia já estivesse bastante desgastada, mas não, parece que atualmente ela está vivendo o seu auge de popularidade. Mas como? Simples: como o próprio James Bond diz no mais novo filme da saga, o seu hobby é a ressurreição; e quer fênix maior do que essa franquia? E num desses momentos de renascimento das cinzas, eis que surge "007 - Operação Skyfall".

O novo longa do agente secreto tem como pano de fundo o misterioso passado de M, que ameaça não só a reputação da chefe dos agentes como também a de todo o MI6, o serviço secreto do Reino Unido. Dessa forma, em "Skyfall", M não é apenas mais uma coadjuvante, como acontecia nos outros filmes, aqui ela é a peça-chave de toda a narrativa do longa.

A história se desenvolve exatamente igual aos últimos filmes da franquia, cheia de perseguições e cenas de ação mais realistas, opondo-se aos filmes mais antigos, que usavam e abusavam da imaginação. Apesar disso, pode-se dizer que este "Skyfall" seja o filme mais "absurdo" protagonizado por Daniel Craig como o agente secreto. Algumas cenas dentro do metrô de Londres e a própria suposta morte de Bond são bem irreais, mas não chegam nem perto das invencionices de outros filmes do personagem.

Uma das maiores qualidades de "Skyfall", porém, não é nem a história nem mesmo Daniel Craig (que a essa altura do campeonato já convence como James Bond), mas sim o vilão. Assim como em alguns filmes clássicos de 007, o vilão de "Skyfall" é memorável. Vivido espetacularmente bem por Javier Bardem, Silva é um daqueles antagonistas que vão ficar para a história da franquia. Ele é bronzeado e tem um cabelo loiro esquisito, para dizer o mínimo, ele tem parte da sua mandíbula deformada, o que o obriga a usar uma espécie de dentadura, ele tem planos mirabolantes e, por fim, tem uma cena homoerótica hilária com James Bond. Tem como não gostar?

Outra que também não deixa por menos é Judi Dench. Principalmente neste capítulo, em que M tem grande importância na história, a veterana faz o seu melhor como a exigente chefe dos agentes secretos do MI6. Isso sem contar as cenas mais desafiadoras, fisicamente falando, que devem ser bem difíceis para uma atriz de 77 anos. Mas ela foi lá e correu, se meteu debaixo de mesas etc.

Outro aspecto notável foi a direção. O filme é muito bem fotografado, a trilha sonora é boa, as atuações são ótimas, o ritmo é bem construído, enfim, o diretor mandou muito bem. Mas também não é por menos, o filme foi realizado por Sam Mendes, ganhador do Oscar por "Beleza Americana" em 2000 e diretor de outros filmes elogiados como "Estrada para a Perdição" e "Foi Apenas um Sonho". Nem preciso dizer que para quem não tinha experiência em dirigir blockbusters de ação, ele fez um excelente trabalho.

Entretanto, não gostei de alguns pontos do filme. Em primeiro lugar, em "Skyfall", falta uma Bond girl que seja realmente interessante. Neste filme, há duas, vividas pela inglesa Naomie Harris e pela francesa Bérenice Marlohe, porém nenhuma das duas tem uma entrada triunfal ou muito tempo para mostrar alguma coisa a mais do típico "quero ajudar e/ou transar com Bond". Em resumo, senti falta de uma Vesper, de "Cassino Royale". As duas deste filme nem precisavam ter a importância que a personagem de Eva Green teve no primeiro filme do 007 estrelado por Daniel Craig, mas poderiam ser, no mínimo, mais bem exploradas pelo roteiro, dando-lhes um quê a mais, que é o diferencial das Bong girls.

Além disso, o filme com seus 143 minutos começa a cansar um pouquinho no final, ainda mais que o clímax nem é tão climático assim. Para falar a verdade, na minha opinião, a melhor cena do filme foi a ótima abertura ao som da música-tema interpretada por Adele, que compete com a abertura de "Os Homens que não Amavam as Mulheres" ao som do cover de "Immigrant Song" cantado por Karen O como a melhor cena de abertura do ano.

No final das contas, "007 - Operação Skyfall" representa uma grande melhora em relação ao filme anterior da franquia, o insosso "Quantum of Solace", mas não achei o melhor filme do ano como alguns acharam. Entretanto, pode-se afirmar que "Skyfall" é um filme de ação acima da média.

P.S.: Coincidência ou não, este é o 100º post do Cinematógrapho e o personagem James Bonf fez em 2012 cinquenta anos de cinema.

NOTA: 3.5/5 


terça-feira, 30 de outubro de 2012

As Vantagens de ser Invisível (The Perks of being a Wallflower)


Dir.: Stephen Chbosky; Escrito por Stephen Chbosky; Com Logan Lerman, Emma Watson, Ezra Miller, Paul Rudd. 2012 - Paris (102 min. - 14 anos)


A adolescência já foi abordada diversas vezes no cinema, tendo o seu auge nos anos 1980 com os filmes de John Hughes como "Curtindo a Vida Adoidado" e "Clube dos Cinco". O gênero possui diversos clichês como as diversas práticas de bullying e a extrema segregação dos alunos entre vários grupos, entre eles, os atletas, as líderes de torcida, os geeks e os invisíveis. Estes últimos sendo geralmente os mais explorados nesses filmes, simplesmente porque costumam ser os indivíduos mais complexos psicologicamente falando.

Então, por agregar tantos clichês em apenas um único filme (além de ter a história mais batida de todas, aquela do aluno não-popular que conhece pessoas que mudarão a sua vida para sempre), "As Vantagens de ser Invisível" poderia ter virado apenas mais um filme norte-americano de colegial, porém o diretor e roteirista Stephen Chbosky conseguiu fugir da mesmice e criou um ótimo filme sobre a adolescência.

Indo na contra-mão de novos clássicos do gênero como os divertidíssimos "As Patricinhas de Beverly Hills" e "Meninas Malvadas", "As Vantagens de ser Invisível" procura manter o pé no chão o tempo todo. O primeiro passo para isso foi a escolha do elenco certo, e aqui não poderia ser mais preciso.

Para começar, todos os três protagonistas realmente aparentam a idade de seus personagens, algo extremamente difícil de se ver no cinema, além disso todos atuam muito bem. Logan Lerman, que não teve muita chance de mostrar do que era capaz em seus últimos filmes como "Percy Jackson e o Ladrão de Raios" e "Os Três Mosqueteiros", se sai incrivelmente bem como Charlie, o personagem principal da trama, demonstrando versatilidade e competência.

Os outros dois, Emma Watson e Ezra Miller, já são conhecidos por seus ótimos desempenhos. Emma por seu trabalho na saga "Harry Potter", na qual se mostrava superior aos seu colegas Daniel Radcliffe e Rupert Grint, e Ezra em "Precisamos Falar Sobre o Kevin". Aqui, os dois não desapontam e arrasam como os meio-irmãos Sam e Patrick, principalmente Ezra, que consegue transformar Patrick, um personagem com séria tendência à caricatura, na melhor figura do filme.

O fato de "As Vantagens de ser Invisível" ter sido adaptado para as telas e dirigido pelo próprio autor do livro também ajuda e muito o filme. Dessa forma, o longa saiu bem pessoal e nada artificial, algo que poderia ter acontecido caso Chbosky não estivesse tão envolvido na produção.

Enfim, não há muito mais o que dizer. "As Vantagens de ser Invisível" é um filme que realmente entende a adolescência e não mais um daqueles longas escritos por adultos que se acham "maneiros" o suficiente para escrever para jovens.


NOTA: 4/5


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Looper - Assassinos do Futuro (Looper)


Dir.: Rian Johnson; Escrito por Rian Johnson; Com Joseph Gordon-Levitt, Bruce Willis, Emily Blunt, Piper Perabo. 2012 - Paris (119 min. - 16 anos)


Acho que nunca vi dois atores tão diferentes interpretando o mesmo personagem como eu vi em "Looper - Assassinos do Futuro". Joseph Gordon-Levitt, apesar de estar construindo uma sólida carreira como astro de ação em filmes como "A Origem", "Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge" e o ainda inédito no Brasil, "Perigo por Encomenda", não tem nem de longe o mesmo porte físico nem currículo de Bruce Willis.

Fisicamente, é inegável que Bruce Willis é muito mais bombado que Levitt. Já no que diz respeito à carreira, ambos os atores começaram fazendo sucesso em séries de TV: Willis protagonizava "A Gata e o Rato" nos anos 1980, enquanto Levitt fazia parte do elenco da sitcom "3rd Rock from the Sun" nos anos 1990. Entretanto, depois disso suas carreiras seguiram caminhos completamente opostos. Willis protagonizou, principalmente, filmes de ação, em especial aqueles da franquia "Duro de Matar", já Levitt fez fama em filmes independentes como "A Ponta de um Crime" (do mesmo diretor deste "Looper") e "(500) Dias com Ela".

Mas como o cinema é pura mágica, com um bom trabalho de maquiagem, Joseph Gordon-Levitt conseguiu ficar semelhante a Bruce Willis. Iguais não ficaram, mas os traços são parecidos. E como se isso já não fosse o bastante, ainda conseguiram fazer essa improvável reunião que é "Looper - Assassinos do Futuro" um dos melhores filmes do ano!

A premissa é complicada, então toda atenção é pouca. Passado em 2044, o filme conta a história de Joe, um homem de vinte e alguns anos que tem como profissão um ofício bem atípico: o de ser um looper. Os loopers são assassinos que matam, em 2044, inimigos da máfia de 30 anos na frente (2074, portanto), liderada por um indivíduo chamado Rainmaker.

Mas como isso é possível? Da seguinte forma: em 2074, todos os cantos do planeta são monitorados e a viagem no tempo existe (algo que não acontece em 2044). Então, a máfia de Rainmaker manda os seus inimigos para o passado para que lá eles sejam assassinados e, portanto, não tenham o seu corpo rastreado.

Mas essa é apenas a base do filme, pois a história em si começa quando Joe descobre que tem que fazer o seu loop, isto é, matar a versão 30 anos mais velha dele mesmo. Porém, ele deixa o seu loop escapar e agora tem que fazer de tudo para recuperá-lo para que não seja morto pelos seus chefes.

Realmente, a história é complicada, entretanto, o filme vale muito a pena. O primeiro motivo para você ir ver "Looper" é a ótima performance de Joseph Gordon-Levitt. Cada vez mais, ele se mostra não só um ótimo ator, mas também um intérprete bastante versátil, que consegue passear por vários gêneros (ação, comédia, drama) com a maior facilidade. Além disso, a sua personificação de Bruce Willis já vale pelo filme todo. Por sinal, a sua química com o verdadeiro Bruce Willis é ótima, mesmo que eles queiram se matar durante todo o tempo em que estão juntos.

Ainda falando no elenco, os outros dois atores principais, Bruce Willis e Emily Blunt, também se saem muito bem em sua missão. Ambos aparecem bem depois do filme já ter começado, mas deixam as suas marcas. Há também uma participação especial de Paul Dano no início do filme, fazendo aquele seu tipo neurótico de sempre, que ele faz tão bem.

Mas grande parte do sucesso do longa deve ao seu idealizador, o diretor e roteirista Rian Johnson. O roteiro de "Looper" tem, sim, alguns problemas (um final um pouco repetitivo; o fato do chefe de Joe ser do futuro, mas nunca mencionarem a sua versão do passado), porém ganha muitos e muitos pontos pela sua originalidade e eficiência, além de fazer aquele típica crítica social presente nos melhores filmes de ficção-científica. No caso de "Looper", a ética, os valores morais etc.: tudo isto é posto em evidência.

Mas além de ser um roteirista de respeito, Johnson é um ótimo diretor. Não só tira o melhor de seu elenco como também cria diversos efeitos estéticos interessantes. Tudo isso amparado por ótimos trabalho de fotografia de Steve Yedlin e trilha-sonora de Nathan Johnson.

Original, bem-feito e ambicioso, "Looper - Assassinos do Futuro" não é um filme perfeito, mas chega muito, mas muito perto disso. Já pode botar na lista dos dez melhores de 2012.


NOTA: 4.5/5


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild)


Dir.: Behn Zeitlin; Escrito por: Lucy Alibar e Behn Zeitlin; Com Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Levy Easterly, Gina Montana. 2012 (93 min. - 10 anos)


Quando fiquei sabendo pela primeira vez de "Indomável Sonhadora" e até depois que assisti ao seu trailer, só pude pensar em uma coisa: lá vem mais um "A Árvore da Vida", um filme que, apesar de muitos amarem, eu achei, ironicamente, morto. Porém, fico feliz em dizer que o meu pré-conceito era totalmente infundado, uma vez que "Indomável Sonhadora" é um filme acessível, nada pretensioso e, o melhor de tudo, vivíssimo.

O longa, vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Sundance e da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, conta a história de uma simpática menina chamada Hushpuppy. Moradora de uma região miserável e isolada de toda movimentação urbana dos Estados Unidos, Hushpuppy vive em um barraco feito de uma infinidade de materiais junto com seu pai, viúvo e doente.

No vilarejo onde vive, os mitos ainda têm uma força gigantesca, e o principal deles espalha o medo entre os seus moradores: a história de uma enorme tempestade que inundará o mundo e que descongelará perigosíssimos seres pré-históricos. Entretanto, ninguém esperava que o mito se concretizasse em tão pouco tempo, pois após uma forte chuva, os habitantes que permaneceram no vilarejo viram as suas casas cobertas de água e uma preocupante escassez de comida. Além disso, a ação governamental de tirar os moradores daquela região devido à sua periculosidade traz novas aflições a essas pessoas humildes.

Não há como negar, que a premissa do filme parece a de um verdadeiro dramalhão mexicano (algo que o "ótimo" título em português apenas corrobora), entretanto o longa possui diversas situações cômicas e fantásticas que aliviam um pouco a tensão das cenas mais dramáticas. Por sinal, "Indomável Sonhadora" é um filme cujo roteiro merece ser lembrado na próxima temporada de premiações.

Se o roteiro em si já é muito bom, o elenco, então, só melhora as coisas. A protagonista, a incrivelmente talentosa e simpática Quvenzhané Wallis, é o grande triunfo da produção. Apesar de ter apenas cinco anos de idade quando interpretou Hushpuppy, Wallis mostra ser uma grande aposta, que consegue se sair bem tanto em cenas cômicas como em outras mais emocionantes. O seu pai da ficção, Dwight Henry, também não deixa a peteca cair e tem ótimas cenas com Wallis. A química entre os dois é inegável. Isso sem contar com o elenco secundário, com destaque para Gina Montana, intérprete da srta. Bathsheba.

Outra grande qualidade do longa é o trabalho do diretor Behn Zeitlin e sua equipe. Apesar de ter um orçamento de apenas 1,8 milhões de dólares (uma quantia ínfima para o cinema norte-americano), Zeitlin consegue filmar cenas belíssimas em locais extremamente complicados, como as áreas alagadas predominantes no filme. Por sinal, excelente trabalho de fotografia de Ben Richardson.

No final das contas, "Indomável Sonhadora" me impressionou pela criatividade, mas ao mesmo tempo, simplicidade de sua história, pelo ótimo elenco de ilustres desconhecidos, pelo ótimo trabalho feito com tão pouco dinheiro. Enfim, é um filme de escala pequena, mas de grande alma.


NOTA: 4/5



Nota de Rodapé (Hearat Shulayim)


Dir.: Joseph Cedar; Escrito por Joseph Cedar; Com Shlomo Bar Aba, Lior Ashkenazi, Aliza Rosen, Alma Zack. 2011 (103 min.)


Pai e filho seguem a mesma profissão: ambos são grandes especialistas e professores de Estudos Talmúdicos (o Talmude é o Livro Sagrado dos judeus). Por outro lado, apesar de serem parentes próximos, ambos são rivais profissionalmente falando, ainda mais quando o filho está no auge da carreira e o pai é apenas um estudioso esquecido.

Entretanto, tudo que é ruim pode piorar. Um dia, Eliezer Shkolnic, o pai, recebe um telefonema do Ministério da Cultura israelense parabenizando-o por ter sido o escolhido para receber o Prêmio Israel, uma espécie de Nobel do país. Evidentemente, Eliezer fica bastante contente e vê, finalmente, o seu nome ser reconhecido novamente. Porém, o prêmio deveria ser entregue ao outro Shkolnic, Uriel, o filho. Agora, o engano dos realizadores do evento será o responsável pela prova definitiva da relação pai-e-filho. E, então, Uriel vai ou não contar ao seu pai que ele na verdade não ganhou prêmio?

Esse é o ponto de partida do filme israelense "Nota de Rodapé". Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no início deste ano (quando perdeu para o ótimo "A Separação"), o longa escrito e dirigido por Joseph Cedar, nova-iorquino que vive em Jerusalém desde os cinco anos de idade, tem, sem dúvida alguma, uma das premissas mais interessantes desse ano. Porém, é uma pena que o filme nunca chegue ao nível que poderia.

Apesar de contar com ótimas interpretações de todo o elenco, principalmente da dupla de protagonistas, Shlomo Bar Aba e Lior Ashkenazi, "Nota de Rodapé" é vendido em seu trailer como uma comédia inteligente. Entretanto, vemos que o filme tem uma relação bastante estreita com o drama. Sem problema, afinal algumas das melhores cenas do filme são aquelas de maior carga dramática. A questão é que o filme, no geral, não possui cenas hilárias (como promete o trailer, com o qual dei algumas risadas) e nem cenas que tocam fundo no coração do espectador, ou seja, apesar de ser uma comédia dramática, o longa não consegue obter resultados satisfatórios em nenhuma das duas áreas. Há, sim, momentos muito interessantes, mas geralmente, "Nota de Rodapé" é um filme chocho.

Mesmo assim, vale a pena frisar a competência do diretor Cedar, que não só dirige muito bem os seus atores como também mostra ser um indivíduo criativo, usando uma mistura de slides e filmes para contar o passado dos personagens.

No final das contas, "Nota de Rodapé" é um filme inofensivo, salvo da monotonia pelo seu elenco muito bem montado e de extrema competência e pelas boas ideias do diretor.

NOTA: 3/5


domingo, 14 de outubro de 2012

A Guerra Invisível (The Invisible War)


Dir.: Kirby Dick; Com Helen Benedict, Kori Cioca, Hannah Sewell. 2012 (93 min.)


Na maioria das vezes, quando as Forças Armadas norte-americanas são representadas no cinema, elas são vistas como a maior qualidade da nação. São elas que protegem o país, quem sabe até o mundo, da ameaça de grandes vilões como os alemães na Segunda Guerra Mundial, os soviéticos na Guerra Fria e, atualmente, os terroristas árabes.

Nessa glorificação dos representantes da pátria há, sim, um quê de verdade. Exemplo disso foi o assassinato de Osama Bin Laden há pouco mais de um ano atrás. Porém, todos nós sabemos, inclusive aqueles que glorificam as Forças Armadas em suas obras, que nada é perfeito, e a Defesa norte-americana não é exceção. Por isso, é notável a realização de um documentário como "A Guerra Invisível".

O filme de Kirby Dick relata, através de entrevistas com ex-integrantes das Forças Armadas, jornalistas, estudiosos, advogados e representantes do Exército, da Marinha, da Aeronáutica etc., a ocorrência de estupros dentro dos quartéis e bases da Defesa norte-americana. Não que isso seja segredo para ninguém, mas a grande discussão levantada pelo filme é de que esses abusos sexuais ocorrem com muito mais frequência do que se imagina, e isso, obviamente, é escondido pelas instituições.

Portanto, não é de se espantar que o filme chame bastante atenção para a vida pessoal das vítimas dessas atrocidades e como isso afetou suas vidas. Dentre elas, está a "protagonista" do documentário, Kori Cioca, veterana da Guarda Costeira, que saiu da instituição após ter sido estuprada violentamente, levando até um tapa no rosto que danificou os dois discos de sua mandíbula. O documentário mostra as dificuldades que Kori tem em conseguir com que as Forças Armadas paguem a sua cirurgia, como também a relação com sua filha pequena e seu marido, que também fazia parte da Guarda Costeira, e que pediu dispensa após saber do que ocorreu com sua esposa.

Além do caso de Cioca, o longa aborda o sofrimento de várias outras mulheres, de diversas áreas das Forças Armadas, e até o abuso sofrido por um homem, que apesar de não ser tão comum, também é bastante expressivo.

O documentário, feito a partir de um notável trabalho de pesquisa, também reforça a sua opinião contra a vista grossa feita pelo Departamento de Defesa norte-americano perante as denúncias de estupro nas Forças Armadas, através de um impressionante arquivo de imagens. Entre elas, destacam-se as peças publicitárias, feitas pelo próprio governo, que culpam a vítima e não o agressor, as sessões do Senado e da Câmara de Deputados que tinham como assunto principal o abuso sexual nas Forças Armadas e reportagens sobre notórios casos sexuais dentro da Marinha, do Exército e da Aeronáutica.

Atual e urgente, "A Guerra Invisível" é um documentário indispensável para qualquer pessoa de qualquer nacionalidade, pois apesar de focar no Exército norte-americano, o problema do estupro é universal, e saber que alguns dos heróis do país praticam ou sofrem esta crueldade é algo deplorável. Isso mostra que mesmo sendo civilizado socialmente, o ser humano ainda tem muito o que fazer dentro de sua própria mente.

NOTA: 4/5