sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Anna Karenina (Anna Karenina)


Dir.: Joe Wright; Escrito por Tom Stoppard; Com Keira Knightley, Jude Law, Aaron Taylor-Johnson. 2012 - Universal (129 min. - 14 anos)


Desde quando foi lançado, em 1877, "Anna Karenina" de Leo Tolstoy tornou-se uma das obras fundamentais da elogiadíssima literatura russa. Não é por nada que este livro foi adaptado em diversas áreas, dando origem a até uma ópera e um espetáculo de balé. Entretanto, assim como outras grandes obras clássicas, "Anna Karenina" obteve o seu maior êxito no cinema. Em menos de cem anos, a obra foi levada às grandes telas nada menos do que 12 vezes, incluindo versões russas, americanas, britânicas e acredite, há até uma versão egípcia! Além disso, a personagem principal já foi interpretada por grandes musas do cinema como Greta Garbo e Vivian Leigh nas adaptações de 1935 e 1948, respectivamente.

A última dessas interpretações da obra de Tolstoy é uma daquelas com todos os ingredientes para ser um grande filme. Em primeiro lugar, a pessoa escolhida para dirigir a produção foi Joe Wright, diretor cujos dois filmes mais aclamados, "Orgulho e Preconceito" e "Desejo e Reparação", foram baseados em livros famosos, e que possui muita experiência com dramas de época. Segundo, foi chamado um elenco de peso, incluindo astros britânicos como Keira Knightley (musa de Wright) e Jude Law, e figuras em ascensão como Aaron Taylor-Johnson. Terceiro, o roteirista do filme é Tom Stoppard, ganhador do Oscar por "Shakespeare Apaixonado". E por último, ficou decidido por se fazer uma adaptação bastante ambiciosa, visualmente falando. Infelizmente, a promessa foi muito maior do que o resultado.

O grande problema de "Anna Karenina" não é ser um filme ruim, algo que não é, mas sim só conseguir se sair bem em metade do que se propõe. Se por um lado, o filme é primoroso, por outro, ele deixa a desejar.

Falemos primeiro, então, do que funciona: o visual. Acredite em mim, "Anna Karenina" é com certeza o filme mais bonito, esteticamente falando, que você vai ver em muito tempo. Para não alongar mais o texto, não preciso nem falar o quão luxuosos são os figurinos de Jacqueline Durran (curiosamente indicada ao Oscar anteriormente exatamente por "Orgulho e Preconceito" e "Desejo e Reparação") e como este filme é brilhantemente fotografado, cortesia de Seamus McGarvey (indicado anteriormente também por "Desejo e Reparação"). Isso sem contar a excelente trilha sonora de Dario Marianelli que faz muito bem aos ouvidos. 

Porém, da direção de arte eu sou obrigado a comentar. A ideia de filmar praticamente todo o filme dentro de um teatro era uma verdadeira faca de dois gumes: poderia funcionar perfeitamente, mas também poderia mostrar-se um grande equívoco. Felizmente, a concepção foi executada de forma exemplar e, dessa forma, podemos ter dentro de um mesmo local uma estação de trem, um salão de baile, as ruas de Moscou e um hipódromo; e o mais interessante é que se no início é estranho ver as pessoas andando de bicicleta por entre as pilastras que sustentam o balcão do teatro, em pouco tempo já estamos acostumados com aquela nova realidade. Entretanto, vale lembrar que isso só poderia ter dado certo caso o diretor do filme fosse muito bom; e nesse caso, Joe Wright mostrou ser o homem certo para o serviço.

Entretanto, como já comentei aqui, metade do filme não funciona tão bem assim; e, pasmem!, parte dessa metade é o elenco. Venhamos e convenhamos, esta era a oportunidade perfeita para termos um show de incríveis performances, mas não é isso que acontece. Ao invés disso, o elenco parece pouco inspirado, trabalhando no piloto automático. Exemplo disso é o casal principal Keira Knightley/Aaron Taylor-Johnson. Ambos já mostraram ser ótimos atores: Keira é uma das grandes atrizes de sua geração, já Aaron fez trabalhos ótimos em filmes como "Kick-Ass - Quebrando Tudo" e no recente "Selvagens"; porém em "Anna Karenina" eles parecem estar meio entediados. Nessa situação, quem se sai melhor é Jude Law, que parece ser o único integrante do trio de protagonistas que realmente se empenhou em seu papel. Em suma, fica a impressão de que o diretor Joe Wright acabou dando muito mais atenção à estética do filme do que aos atores.

Por último, mas não menos importante, o roteiro de Tom Stoppard também é falho, o que acabou prejudicando também o produto final. Entendo que condensar um romance de mais de 800 páginas em um filme de 129 minutos é uma tarefa árdua. Além disso, sei também que não tinha muita coisa para Stoppard inovar na narrativa (afinal, "Anna Karenina" é basicamente uma história sobre o adultério e suas consequências). Entretanto, é impossível não notar algumas barrigas no roteiro. Um exemplo ótimo disso é a história paralela que conta o romance entre Levin (amigo de Stiva, irmão de Anna) e Kitty (ex-noiva de Vronsky, amante de Anna). Este trecho poderia ser contado em muito menos cenas, o que evitaria as ocasionais perdas de ritmo do filme, principalmente no último ato.

Em resumo, "Anna Karenina" é um excelente filme sob um aspecto, mas é um longa chato sob outro; portanto, a mistura dessas duas partes resulta em um filme, na melhor das hipóteses, regular.

NOTA: 2.5/5 

INDICAÇÕES: OSCAR - FOTOGRAFIA, FIGURINO, TRILHA SONORA, DESIGN DE PRODUÇÃO; BAFTA - FOTOGRAFIA, CABELO E MAQUIAGEM, TRILHA SONORA, FILME BRITÂNICO, DESIGN DE PRODUÇÃO; GLOBO DE OURO - TRILHA SONORA.

VITÓRIAS: BAFTA - FIGURINO.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O Voo (Flight)


Dir.: Robert Zemeckis; Escrito por John Gatins; Com Denzel Washington, Kelly Reilly, Don Cheadle, John Goodman. 2012 - Paramount (138 min. - 14 anos)


Logo na primeira cena de "O Voo" já vemos um casal deitado numa cama de hotel. Ao ser acordada pelo despertador, a mulher se levanta e a vemos completamente nua, sim, como ela veio ao mundo. Em seguida, o homem também acorda. A mulher põe a sua calcinha fio-dental e logo se põe sobre o homem, enquanto acende um baseado. A mulher traga, o homem traga, eles conversam um pouco. A mulher levanta-se e vai se arrumar, enquanto isso, o homem se vira para a mesinha de cabeceira e forma algumas carreirinhas de cocaína. Ele pega uma nota de dólar, enrola-a e cheira com toda força o pó. O piloto e sua aeromoça estão prontos para levantar voo.

Primeiro filme live-action do diretor Robert Zemeckis desde "Náufrago" de 2000, "O Voo" está longe de ser um filme agradável de se ver. Afinal, o que não faltam são cenas de uso pesado de drogas e assuntos nada prazerosos como vício, morte e responsabilidade.

O filme narra a saga de Whip Whitaker, um piloto de avião que ganha fama do dia para a noite após ter conseguido salvar quase todos os passageiros a bordo de sua aeronave durante um terrível acidente. Porém, nem tudo é tão perfeito quanto parece, uma vez que são descobertos traços de álcool e drogas em seu sangue, retirado logo após o acidente para exames. Por causa disso, Whip pode passar de herói para vilão, já que devido ao seu vício e irresponsabilidade ele pode acabar pegando prisão perpétua.

Entretanto, o que num primeiro momento parece apenas mais um filme sobre redenção e afins se torna duas histórias bem mais interessantes, dependendo do seu ponto de vista. Sob uma ótica, o longa de Zemeckis é um estudo de personagem, no caso, o piloto alcoólatra e viciado em drogas. Vemos toda a sua luta contra o vício (apoiada por uma amiga/namorada sua, a viciada em heroína Nicole), mas também os momentos em que ele sucumbe aos seus desejos de beber e se drogar. Mas também acompanhamos a relação (quase nula) de Whip e sua família, a amizade entre ele e o traficante gente boa Harling Mays, os desmembramentos de seu caso e como isso afeta o seu psicológico. Em uma frase: os altos e baixos da vida do piloto.

Porém, na minha humilde opinião, a visão mais interessante do filme é uma mais espiritualizada. Com o decorrer da projeção, percebe-se o quanto a palavra Deus é dita mais e mais vezes pelos personagens. Ao ligar este fato com o enredo do longa, entende-se que o filme também trata da famosa questão: tudo ocorre por acaso ou na verdade é Deus quem planeja todos os nossos passos e apenas vai abrindo portas para que esses passos sejam realizados? Por exemplo: o acidente de Whip seria um mero acidente ou um sinal de Deus? Um sinal enviado a ele a fim de fazê-lo mudar de vida, largar as drogas e a bebida? Enfim, essas são questões debatidas pelo filme, mesmo que nas entrelinhas.

Falando do elenco agora, "O Voo" apresenta mais um ótimo trabalho de Denzel Washington. O ator, vencedor do Oscar por "Dia de Treinamento", mostra mais uma vez o seu imenso talento e corrobora a ideia de que o filme ganha e muito com a sua interpretação. Apesar do interessante roteiro de John Gatins, Denzel é que é mesmo a alma do filme, é ele quem faz nós, meros espectadores, torcermos por Whip, mesmo que ele seja um grande safado.

Mas junto de Washington há também ótimos atores como John Goodman, hilariante como o traficante Harling Mays, Don Cheadle como o advogado Hugh Lang, Bruce Greenwood como o grande amigo de Whip, Charlie Anderson, e a desconhecida Kelly Reilly, que está muito bem como Nicole.

Um ótimo retorno de Robert Zemeckis aos filmes com gente de carne e osso (e não com  personagens bizarros de animações em "motion capture"), "O Voo" é um daqueles filmes que serve tanto como entretenimento descompromissado (se você aguentar uma história mais pesada) como também para uma análise mais profunda.

NOTA: 3.5/5

INDICAÇÕES: OSCAR - ATOR (DENZEL WASHINGTON), ROTEIRO ORIGINAL; GLOBO DE OURO - ATOR (DRAMA - DENZEL WASHINGTON); SAG AWARDS - ATOR (DENZEL WASHINGTON).


domingo, 3 de fevereiro de 2013

Obsessão (The Paperboy)


Dir.: Lee Daniels; Escrito por Lee Daniels e Peter Dexter; Com Zac Efron, Matthew McConaughey, Nicole Kidman, John Cusack. 2012 (107 min.)


"The Paperboy" começa com um close no rosto de Anita Chester, empregada de longa data da família Jansen, sentada em uma cadeira dentro da sala de uma delegacia. Ela está ali para fazer um depoimento acerca dos estranhos acontecimentos que ocorreram no verão de 1969 no interior da Flórida. Entre os envolvidos estão os dois filhos de seu patrão, W. W. Jansen, dono do jornal de uma pequena cidade do estado: Wade, jornalista do Miami Times, e Jack, o caçula da família. Aos dois juntam-se o assistente de Wade, Yardley Acheman, e uma periguete que escreve cartas para presidiários, Charlotte Bless.

Todos os quatro personagens tiveram seus destinos cruzados quando Wade resolve voltar à sua cidade natal, junto de Yardley, para investigar o misterioso julgamento de Hillary Van Wetter, que foi mandado para a cadeia por ter supostamente assassinado brutalmente um famoso xerife local. Para ajudar nas investigações, Wade entra em contato com Charlotte, que ao escrever cartas para Hillary acaba se apaixonando e ficando noiva dele. A eles, une-se Jack, irmão mais novo de Wade, que é contratado como motorista oficial do grupo.

Até aí tudo bem, porém tudo começa a ficar estranho quando Jack se apaixona perdidamente por Charlotte e novas revelações sobre Hillary Van Wetter põem a segurança dos quatro em xeque.

Não vou mentir e dizer que "The Paperboy" é um filme fácil de se ver, pelo contrário, é extremamente desagradável assisti-lo. O novo filme de Lee Daniels, diretor do premiado "Preciosa - Uma História de Esperança", exibe uma violência quase pornográfica (incluindo até a dissecação de um jacaré), conteúdo sexual bastante forte (mesmo que tenha poucas cenas de sexo) e assuntos polêmicos.

O roteiro, escrito por Daniels e Peter Dexter (autor do livro que deu origem ao filme), apesar de tentar cobrir temas demais como preconceito racial, homossexualismo e miséria, funciona muito bem como uma história de romance policial. Há vários momentos de grande tensão e todo o enredo entorno do enigmático e bizarro Hillary Van Wetter é bastante interessante.

Mas o que eu achei mais fascinante sobre o roteiro de "The Paperboy" é que no fundo, no fundo, debaixo de toda a superfície suja e violenta da trama investigativa, o filme conta uma emocionante história de amor. O romance entre Jack e Charlotte é envolvente exatamente porque ele tem dificuldades em se estabelecer. Apesar de gostar do rapaz, Charlotte o vê mais como um menino do que um homem. Ao invés disso, em sua visão, o macho alpha que pode lhe trazer prazer e uma vida melhor é o criminoso Van Wetter. Para ela, vale mais sexo oral imaginário em plena delegacia do que a ingenuidade amorosa de um jovem. Cria-se, então, um conflito muito bem construído sobre amor carnal versus amor espiritual, que mostra-se atraente até para aqueles que não suportam tramas amorosas.

Mas além do roteiro, o bom funcionamento de ambas as histórias depende de um ótimo elenco. E "The Paperboy" tem um baita elenco! Começando pelos menos conhecidos, temos David Oyelowo e Macy Gray, que vivem muito bem os dois personagens negros do filme, Yardley e Anita, respectivamente. Os dois se saem super bem em papeis secundários, deixando grandes marcas no espectador, principalmente Gray, cantora que vem se mostrando uma ótima atriz.

Em seguida temos os dois grandes astros do elenco, Matthew McConaughey e Nicole Kidman. Matthew, agora com 43 anos, tem largado as comédias românticas que lhe deram fama e vem investindo em filmes menores, mas com personagens mais desafiadores, e por enquanto, tem se saído muito bem, como é o caso de "The Paperboy". Já Nicole, que é uma das minhas estrelas favoritas, continua trilhando muito bem a sua carreira, alternando filmes comerciais com projetos mais autorais de diretores como Lars Von Trier e Stanley Kubrick; e na sua parceria com Lee Daniels, ela está incrível. Como Charlotte Bless, Nicole mostra toda a sua versatilidade como atriz, pois venhamos e convenhamos, quem esperaria ver uma das intérpretes mais famosas do mundo em cenas de sexo pra lá de estranhas ou mijando em Zac Efron?

Por falar em Efron, eu diria que este é o filme em que ele finalmente mostra o seu potencial como ator e, diga-se de passagem, se sai muito bem. Em "The Paperboy", Efron surpreende como protagonista. Além disso, é um alívio vê-lo parar de desperdiçar o seu talento em filmes água-com-açúcar.

Já sobre John Cusack quanto menos se falar melhor. Não porque a sua performance seja ruim, longe disso, mas sim porque é indescritível o asco que ele traz à tela quando seu personagem aparece. Em outras palavras, ele está excelente em seu papel.

Para finalizar, dizer que "The Paperboy" é um filme sutil seria uma grande mentira. Desde sua fotografia até aos seus momentos antológicos, tudo é exagerado de propósito. Mas neste caso quanto maior o escândalo e o choque, melhor a cena. Portanto, apesar de ser mais longo do que deveria e por vezes não conseguir abordar todos os seus temas da maneira adequada, "The Paperboy" é uma daquelas pequenas pérolas que vão passar despercebidas nessa competitiva temporada de prêmios.

NOTA: 3.5/5

INDICAÇÕES: GLOBO DE OURO - MELHOR ATRIZ COADJUVANTE (NICOLE KIDMAN); SAG AWARDS - MELHOR ATRIZ COADJUVANTE (NICOLE KIDMAN); PALMA DE OURO - FESTIVAL DE CANNES

*trailer com legendas em português de Portugal

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis (Les Misérables) - versão 2012


Dir.: Tom Hooper; Escrito por William Nicholson, Claude-Michel Schönberg, Alain Boublil e Herbert Kretzmer; Com Hugh Jackman, Russel Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried. 2012 - Universal (158 min. -14 anos)


"Os Miseráveis" é uma das obras literárias mais conhecidas de todos os tempos. Desde que foi lançado, em 1862, o livro se tornou um verdadeiro ícone da literatura francesa (assim como o seu autor, Victor Hugo), ao mesmo tempo em que também foi eternizado em muitos outros formatos como o rádio, o teatro, a televisão e o cinema.

Destas adaptações, a mais bem-sucedida é, sem dúvida alguma, o musical criado por Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg. Apresentado pela primeira vez em 1980 em Paris, a produção só ganhou o prestígio e a fama que agora tem quando estreou no palcos do West End londrino, em 1985, e na Broadway nova-iorquina, dois anos mais tarde. A partir daí, o sucesso só aumentou. Para se ter uma ideia, o espetáculo está até hoje em cartaz em Londres, contabilizando mais de 10.000 apresentações. Já na Broadway, o musical teve até agora duas temporadas (a primeira de 1987 até 2003 e a segunda de 2006 até 2008) com uma terceira com estreia prevista para 2014. Além disso, é atualmente o espetáculo com o quarto maior número de apresentações na Broadway (6.680, isso contando apenas as apresentações da primeira temporada), atrás apenas de "O Fantasma da Ópera", "Cats" e "Chicago". Por essas e outras razões, era de se esperar que algum dia fosse feita uma adaptação do musical para as telas do cinema. E esse dia chegou!

A mais nova versão de "Os Miseráveis" para o cinema é a primeira a ser baseada no show de Boublil e Schönberg e, portanto, foi chamada uma equipe de peso para realizá-la. Desde o diretor, Tom Hooper (vencedor do Oscar em 2010 por "O Discurso do Rei"), até o elenco cheio de estrelas como Hugh Jackman, Anne Hathaway e Russel Crowe, além do envolvimento dos criadores do espetáculo e do produtor de sua versão britânica, Cameron Mackintosh, estava claro de que esta visava ser a adaptação definitiva da obra de Victor Hugo. A mais grandiosa, a mais famosa, a mais bem-sucedida, a mais premiada... E por um lado, até se consegue isto, mas por outro, sente-se que há algo muito errado com o filme.

Falemos então dos acertos do longa. É inegável que a produção é realmente bastante caprichada. Sente-se em todo momento de projeção que houve um cuidado imenso com os figurinos, criados por Paco Delgado, com a direção de arte e com o aspecto visual do filme, cortesia de Eve Stewart. Dá a impressão de trabalho bem-feito.

Entretanto, o filme também conta com bastante falhas. A primeira delas é a fotografia. Apesar do filme ser bem iluminado e ter uma estética atraente, o uso da câmera é absurdamente equivocado. Tudo começa com os inúmeros closes nos rostos dos atores que resulta exagerado e inconveniente, exemplo disso são algumas cenas em que parecem que as personagens estão conversando a dois metros de distância uma da outra, quando na verdade era para a cena parecer mais intimista e não intrusiva. Temos ainda os enquadramentos propositalmente tortos, que podem até ter funcionado no papel, mas que no filme ficam horríveis. Parece até que o tripé estava torto ou que o cameraman era corcunda. Para terminar, há também os momentos em que os atores são filmados em cantos, afastados da cena, como na hora em que o vilão Javert reconhece o ex-prisioneiro Jean Valjean. Essa parece ser outra ideia que funcionou na concepção, mas que deu errado na execução.

Porém os erros não param por aí, uma vez que o roteiro também me pareceu mal executado. Apesar de ter mais de duas horas e meia de duração, o filme ainda assim me pareceu apressado, como se tivesse que respeitar a qualquer custo um tempo de duração específico. Dessa forma, a saga de Jean Valjean ficou parecendo mais um amontoado de situações do que uma história bem-desenvolvida.

Falando nisso, o andamento precário do filme acabou prejudicando uma boa parcela dos atores, principalmente os dois maiores chamarizes do longa: Hugh Jackman e Anne Hathaway. No caso de Jackman, apesar de ele ter bastante espaço na primeira metade do filme, na segunda metade, ele some por um considerável período de tempo, dando mais tempo ao Javert de Russel Crowe. Tudo bem que o antagonista é um personagem tão importante quanto o herói, mas porque dar mais tempo à cantoria irregular de Crowe? No mínimo Jackman tem uma voz mais potente e marcante. 

Já o caso de Hathaway é bem mais preocupante. Apesar de ser uma das melhores atrizes de sua geração e sua personagem, Fantine, ser uma das mais importantes da história do filme, aqui ela fica relegada a uns vinte minutos de projeção, sendo que neste tempo ela não tem muito o que fazer. Ela só chora, implora, faz cara de assustada, se desespera... Enfim, uma das personagens mais interessantes de "Os Miseráveis" é reduzida à meia dúzia de cenas repetitivas e bastante acima do tom. Sorte de Anne que ela tem a chance de cantar "I Dreamed a Dream" porque é realmente o único momento de maior profundidade de sua personagem. Falando nisso, parabéns para o diretor por optar em fazer desta cena uma só sequência, sem cortes, trazendo um dos poucos momentos em que o filme para e dá chance para uma performance se desenvolver naturalmente. Ainda assim, acho que Anne merecia o reconhecimento que ela vem recebendo agora por um outro papel, pois em "Os Miseráveis" ela é prejudicada pelas escolhas erradas de alheios.

Falando nas personagens e no elenco, ainda quero entender como o diretor achou que o casal Thénardier, formado por Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter, se encaixava bem com o resto do filme. Apesar de terem uma certa importância na história e servirem de alívio cômico para toda o sofrimento abundante no longa, não entendi o porquê de eles terem que parecer duas personagens recém-saídas de um filme do Tim Burton. Bonham Carter, então, nem se fala! Tem momentos em que sua Madame Thénardier parece uma variante da Rainha Vermelha que ela interpretou em "Alice no País das Maravilhas".

No final das contas, quem se sai melhor nisso tudo são exatamente os dois nomes menos conhecidos do elenco: Eddie Redmayne e Samantha Barks. Intérpretes de Marius e Éponine, os dois estão excelentes e mostram-se muito melhores do que os protagonistas do filme. Deve-se a eles também o interesse que se cria envolta do triângulo amoroso entre os dois e Cosette (filha adotiva de Jean Valjean e biológica de Fantine), porque se fosse por Amanda Seyfried e sua Cosette sem-sal, essa trama ia por água abaixo.

Enfim, "Os Miseráveis" é um filme bem-feito e longe de ser um fracasso completo. Porém, na melhor das hipóteses, é um filme regular, que sofre principalmente de um roteiro fraco, um ritmo cansativo e algumas escolhas ruins do diretor Tom Hooper. No final das contas, continuo preferindo a versão de 1998 dirigida por Bille August, que apesar de não ser perfeita, é um filme mais curto, com personagens e história melhor desenvolvidos e sem diálogos cantados.


NOTA: 2.5/5


INDICAÇÕES: OSCAR - FILME, ATOR (HUGH JACKMAN), ATRIZ COADJUVANTE (ANNE HATHAWAY), FIGURINO, MAQUIAGEM E CABELO, MIXAGEM DE SOM, DESIGN DE PRODUÇÃO, CANÇÃO ORIGINAL ("SUDDENLY"); BAFTA - FILME, FILME BRITÂNICO, ATOR (HUGH JACKMAN), ATRIZ COADJUVANTE (ANNE HATHAWAY), FOTOGRAFIA, FIGURINO, MAQUIAGEM E CABELO, DESIGN DE PRODUÇÃO, SOM; GLOBO DE OURO - CANÇÃO ORIGINAL ("SUDDENLY"); SAG AWARDS - ELENCO, ATOR (HUGH JACKMAN), ELENCO DE DUBLÊS.

VITÓRIAS: GLOBO DE OURO - FILME (COMÉDIA/MUSICAL), ATOR (COMÉDIA/MUSICAL - HUGH JACKMAN), ATRIZ COADJUVANTE (ANNE HATHAWAY); SAG AWARDS - ATRIZ COADJUVANTE.


sábado, 26 de janeiro de 2013

Quatro Amigas e um Casamento (Bachelorette)


Dir.: Leslye Headland; Escrito por Leslye Headland; Com Kirsten Dunst, Lizzy Caplan, Isla Fisher, Rebel Wilson. 2012 - Imagem (87 min.)


Os créditos iniciais de "Quatro Amigas e um Casamento" são embalados por "Infinity Guitars" da dupla Sleigh Bells. A música é daquelas que você tem a impressão de que o intérprete está cantando-a com o dedo em riste na sua cara. Enquanto isso, as guitarras gritam, a bateria marca o passo e a letra tem passagens como "dumb whores, best friends" (vadias estúpidas, melhores amigas). Já neste início você já tem a noção de que "Quatro Amigas e um Casamento" está longe de ser um filme sutil. Exatamente por isso, é um daqueles filmes ame-ou-odeie, e eu o adorei.

O filme inicia quando três amigas, Regan, Gena e Katie, se reencontram para o casamento da quarta integrante de seu grupo, a gordinha Becky. Podemos dizer que as três protagonistas são a definição perfeita das vadias melhores amigas do canção dos Sleigh Bells. Elas não possuem papas na língua, vivem enchendo a cara e cheirando cocaína e morrem de inveja de Becky por ela ser a primeira a se casar, mesmo que ela seja a mais feiinha do grupo.

A confusão toma conta quando na véspera do casamento, a noiva e suas três amigas se desentendem. Regan, Gena e Katie, então, depois de tomarem algumas taças de champanhe e meterem nariz adentro algumas carreirinhas de coca, resolvem se enfiar no vestido de noiva tamanho GG de Becky. Obviamente, a brincadeira dá errado e o vestido termina rasgado e manchado. Daí começa uma verdadeira jornada para consertar a burrada a tempo da cerimônia.

O roteiro de "Quatro Amigas e um Casamento" já é por si só bastante engraçado, incluindo cenas inacreditáveis como a da stripper limpando a vagina com o vestido de Becky (isso depois de ele já estar todo detonado) ou a conversa de Gena sobre o sexo oral com o seu vizinho de cadeira no avião. Mas todo roteiro é beneficiado por um bom elenco, e no caso do longa da diretora Leslye Headland (que também escreveu a peça no qual o filme é baseado) este é de primeira.

As três protagonistas: Kirsten Dunst, Lizzy Caplan e Isla Fisher parecem estar se divertindo ao máximo, além de terem uma ótima química. Por sinal, fiquei impressionado com Dunst que fez este filme pouco depois de atuar em "Melancolia" de Lars Von Trier. Isso é o que eu chamo de versatilidade! Rebel Wilson, que interpreta a gordinha Becky, também é ótima e mostrou que 2012 foi o ano de sua revelação. Mas o elenco masculino também é muito bom, trazendo nomes como James Marsden, que faz um garanhão louco para transar com Regan, e Adam Scott, vivendo o antigo namorado de Gena.

O final do filme pode decepcionar alguns por ser talvez sentimental demais, porém não é nada que prejudique as loucuras que acontecem antes. É, eu realmente gostei das vadias melhores amigas.

NOTA: 4/5


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A Origem dos Guardiões (Rise of the Guardians)


Dir.: Peter Ramsey; Escrito por David Lindsay-Abaire; Com Chris Pine, Alec Baldwin, Jude Law, Isla Fisher, Hugh Jackman. 2012 - Paramount (97 min.)


A premissa de "A Origem dos Guardiões" é bastante interessante. Imagina se Papai Noel, a Fada do Dente, Jack Frost, o Coelhinho da Páscoa e o Sandman se juntassem para lutar contra o Bicho Papão. Já parece ser uma boa história, não? Adicione a isso a marca Dreamworks Animation e você já espera uma boa diversão, certo? Se você achou isso, bem pode esquecer de tudo, pois "A Origem dos Guardiões" é uma bela de uma decepção.

É inegável que a produção do filme é muito caprichada. A animação é de primeira, como já é de se esperar do estúdio, e há ótimas sacadas quanto ao visual dos cenários e dos personagens. Exemplo disso são os lares do Papai Noel, do Coelhinho da Páscoa e da Fada dos Dentes e seus respectivos traços físicos como as tatuagens, a estatura e a aparência de beija-flor. Isso sem contar os belíssimos sonhos feitos de areia do Sandman e as piruetas de Jack Frost enquanto voa.

Porém, se visualmente o filme é de bater palmas, o mesmo não pode ser dito de sua narrativa. Na verdade, "A Origem dos Guardiões" é mais um daqueles filmes em que a premissa é muito mais interessante do que a história em si. O que parece ainda pior quando se sabe que o roteirista do filme é David Lindsay-Abaire, autor teatral ganhador do Prêmio Pulitzer e com alguns roteiros cinematográficos em seu currículo.

O problema de "A Origem dos Guardiões" já é típico da Dreamworks Animation. Conhecido por seus filmes irônicos e satíricos, o estúdio de vez em quando decide fazer um longa mais fofinho e menos ácido. Não vejo nenhum problema nisso, afinal quanto maior a diversidade melhor. A questão é que, geralmente, a Dreamworks erra a mão e ao invés de fazer um filme que mescla bem o drama com a comédia (algo que a sua rival Pixar faz com maestria), ela faz um filme bobinho, meloso e moralista.

Em "A Origem dos Guardiões" isso fica claro com aquela insistência em fazer com que toda criança seja um amor de pessoa, cheia de amor pra dar. As crianças são iguais a qualquer ser humano, elas têm um lado bom e um lado ruim, então por que os filmes tendem a mostrá-las como seres lindos e maravilhosos ou como verdadeiros diabos na Terra? Não há meio-termo? 

Além disso, o final do filme é sacarina pura, cheio de sorrisos e lições de moral. Não tem como o filme terminar bem, mas sem uma sessão de didatismo? São por essas e outras que "A Origem dos Guardiões" me lembrou em vários momentos "Bee Movie", outro filme da Dreamworks que sofria com o mesmo problema. Tinha uma premissa interessante, mas que era prejudicada por uma história sem sal. E olha que este último ainda tinha as referências à cultura pop típicas do estúdio!

Se por um lado, "A Origem dos Guardiões" é um colírio para os olhos e possui uma ótima trilha sonora de Alexandre Desplat, por outro o 3D não serve para nada e a história é muito sem-graça. Mais uma oportunidade perdida...

NOTA: 2.5/5


Os Penetras


Dir.: Andrucha Waddington; Escrito por Nina Crintzs, Rafael Dragaud, Marcelo Vindicato e Andrucha Waddington; Com Marcelo Adnet, Eduardo Sterblitch, Mariana Ximenes. 2012 - Warner (


Eu, assim como muita gente, estranhei quando saiu a notícia de que o diretor Andrucha Waddington dirigiria uma comédia mais próxima da chanchada, afinal ele é mais conhecido por seus dramas como "Casa de Areia" e "Eu, Tu, Eles". Achei ainda mais esquisito quando soube que o filme ia ser protagonizado por dois comediantes de fama televisiva: Marcelo Adnet, o homem que fez com que a MTV começasse a investir pesado em programas humorísticos, e Eduardo Sterblitch, integrante do "Pânico na TV", uma atração conhecida pela sua falta de bom-gosto. Mas não é que apesar dos pesares "Os Penetras", o fruto dessa mistura inusitada, é um filme bastante divertido?

O longa conta a história do encontro entre dois indivíduos bastante diferentes, Marco Polo e Beto. Se por um lado Marco é um típico malandro carioca, daqueles cheios de contatos e com um dom para enganar turistas, por outro Beto é um ingênuo homem do interior que chega ao Rio de Janeiro à procura da mulher que o deixou, Laura.

Ao notar que Beto guarda um bela quantia de dinheiro na sua carteira, Marco Polo resolve "ajudar" o pobre coitado a encontrar Laura. Ao adentrar as portas do Hotel Fasano, Marco descobre quem é a tal moça e que ela está acompanhada de um velho bastante rico, já que ela é uma prostituta de luxo.

Mesmo assim, ele resolve continuar a ajudar Beto a se reconciliar com o seu grande amor. Tudo para poder lhe arrancar mais dinheiro. Dessa forma, eles penetram algumas festas às vésperas do Ano Novo a fim de juntar Beto e Laura novamente. Só que claro, isso não vai acontecer tão fácil assim.

Primeiro de tudo, o que já causa uma boa impressão em "Os Penetras" é a ótima utilização de seu elenco. Marcelo Adnet, apesar de ser feio para ser o garanhão da história, diverte como o malandro Marco Polo, principalmente quando está junto de seu parceiro de golpes, Nelson, interpretado por Stepan Nercessian. Eduardo Sterblitch surpreende e faz de Beto muito mais do que o homem ingênuo do interior. Ele possui cenas engraçadíssimas como uma em que ele dança com uma bailarina russa no meio de uma festa elegantíssima. Já a representante feminina do elenco, Mariana Ximenes, está ótima como Laura, a prostituta da qual Marco e Beto estão atrás.

Além disso, o filme conta com participações especiais de vários rostos conhecidos como Luiz  Gustavo, Miele, Suzana Vieira e Andréa Beltrão.

Um outro motivo pelo qual vale a pena ver "Os Penetras" é o cuidado com o qual Andrucha Waddington filma o longa. Talvez por ter ganhado fama no cinema, Waddington evita com que "Os Penetras" fique parecendo um programa de televisão, uma maldição que vem assolando vários sucessos do cinema nacional. Aqui a fotografia é muito bem realizada e há até alguns posicionamentos de câmera bastante inusitados, mas que funcionam perfeitamente.

Enfim, "Os Penetras" não é nenhum filme digno de prêmio ou com maiores pretensões do que ser mero entretenimento. Mesmo assim, o longa de Andrucha Waddington diverte (e muito) com as desventuras de Marco Polo e Beto.

NOTA: 3.5/5