sábado, 8 de junho de 2013

O Grande Gatsby (The Great Gatsby)


Dir.: Baz Luhrmann; Escrito por Baz Luhrmann e Craig Pearce; Com Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire, Carey Mulligan, Joel Edgerton. 2013 - Warner (142 min. - 14 anos)


"O Grande Gatsby" é considerado, até hoje, um dos maiores clássicos da literatura norte-americana. Apesar de ter sido um fracasso à época de seu lançamento, em 1925, o livro do escritor F. Scott Fitzgerald foi redescoberto após a Segunda Guerra Mundial e, a partir daí, tornou-se extremamente conhecido e foi incluído no currículo escolar das escolas americanas. Não é para pouco. O livro, basicamente, previu a Crise de 1929, ao mostrar os excessos e as vidas extravagantes da elite norte-americana dos Loucos Anos 20; tudo isso em meio ao pós-Primeira Guerra e à (falha) Lei Seca. Venhamos e convenhamos, era impossível a bolha não estourar em algum momento.

Considerado por muitos um livro quase auto-biográfico, uma vez que Fitzgerald, assim como o real protagonista de sua obra, Nick Carraway, conviveu com essa elite chegada aos extremos da vida, "O Grande Gatsby" já foi adaptado a tudo que é mídia: teatro, balé, ópera, rádio, televisão e até video-game. Porém, a relação mais famosa (e também conturbada) do livro de Fitzgerald com outro meio de comunicação, sem dúvida, foi o cinema. A primeira adaptação foi lançada um ano após o lançamento do livro, em 1926, ainda na época do cinema mudo, porém esta versão está desaparecida atualmente. Em 1949, pouco tempo depois do livro se tornar popular, foi feita uma nova adaptação, dessa vez com clima de filme noir, chamada, curiosamente, no Brasil de "Até o Céu Tem Limites". Essa é considerada por muitos a melhor adaptação do clássico de Fitzgerald, apesar de, o filme de 1926, ser, supostamente, mais fiel ao livro. Em 1974, foi lançada a terceira e, até então, mais conhecida versão cinematográfica de "O Grande Gatsby", protagonizada por Robert Redford e Mia Farrow, dirigida por Jack Clayton e escrita por Francis Ford Coppola (substituindo o escritor Truman Capote, que havia escrito um primeiro roteiro que, supostamente, alterava diversos pontos da trama, a fim de tornar o longa mais controverso). Porém, mesmo com tantos nomes conhecidos envolvidos no projeto, o filme foi um fracasso de público e crítica, por ser considerada demasiado lento. Finalmente, em 2013, foi lançada a mais nova adaptação da obra de Fitzgerald para o cinema, estrelada por Leonardo DiCaprio, Carey Mulligan e Tobey Maguire.

Dirigida pelo australiano Baz Luhrmann, que já havia adaptado outro clássico literário de língua inglesa, "Romeu e Julieta", em 1996 (um filme que, por sinal, não me agradou muito), a nova versão de "O Grande Gatsby" para o cinema é um prato cheio para quem é fã do diretor e um verdadeiro inferno para quem o odeia. Cheio de cores, visual estridente, músicas pop e com ritmo acelerado, tudo depende da boa vontade do espectador para com o filme e seu realizador. Eu, que costumo gostar dos longas de Luhrmann, nem preciso dizer que eu adorei esse "Gatsby" versão 2013.

Obviamente, quando o diretor é Baz Luhrmann, a maior qualidade do filme é a sua embalagem, ou seja, a estética. O longa possui uma belíssima fotografia, assinada por Simon Duggan ("Eu, Robô", "Presságio") e conta com direção de arte e figurinos caprichados, cortesia da sra. Luhrmann, Catherine Martin. Por sinal, que parceria! Colaboradora do diretor desde seu primeiro filme, o divertido "Vem Dançar Comigo" (foi aí que os dois se conheceram), Martin é, muitas vezes, o porto seguro de Luhrmann. Até mesmo quando a história parece empacar ou quando o filme, simplesmente, não é bom (caso de "Romeu + Julieta"), a dedicada esposa consegue deixar o filme ainda mais interessante visualmente e, assim, manter a atenção do espectador até o fim da projeção. Entretanto, tenho que admitir que o 3D não faz muita diferença, exceto nos letreiros iniciais e finais e nas tomadas panorâmicas, e que eu gostaria muitíssimo de ver um filme de Luhrmann com mais externas e menos chroma-key. Tudo bem que no caso de "Gatsby", isso seria difícil, já que o filme, mesmo se passando em Nova York, foi filmado na Austrália, por causa de generosos incentivos fiscais. Porém, até mesmo em seu filme anterior, "Austrália", no qual poderia ter usado muito mais as belas paisagens do Outback australiano, o diretor muitas vezes optou pelos cenários de CGI. Enfim, fica a dica para um próximo filme.

Outro ponto forte do filme é o seu elenco. Leonardo DiCaprio está ótimo como o milionário Jay Gatsby, personagem que lhe deu a chance de mostrar todo o seu carisma de estrela de cinema. Tobey Maguire também agrada como Nick Carraway. Há quem diga que ele aqui está atuando assim como nos filmes do Homem-Aranha, porém esse é o estilo dele e, felizmente, este se encaixa perfeitamente com o seu personagem. Carey Mulligan, na minha opinião, fez uma boa Daisy. É, realmente, uma personagem difícil e que se mostrou um desafio para vários diretores na hora da escalação do elenco, porém acho que Luhrmann fez uma boa escolha com Mulligan. Aqui, a atriz consegue dar o tom certo de tolice e indiferença que a personagem exige. Joel Edgerton tem em "Gatsby" o seu primeiro papel de destaque em um grande blockbuster hollywoodiano, e ele aproveita muito bem a chance. Apesar de Tom Buchanan só ganhar mais espaço no último ato do filme, o ator se sai muito bem neste trecho e consegue ficar à altura do Gatsby de DiCaprio em momentos decisivos da trama, especialmente a discussão no quarto do Hotel Plaza. Entretanto, fica aqui a insatisfação com o subaproveitamento de duas atrizes: Isla Fisher e Elizabeth Debicki. A primeira vive Myrtle Wilson, amante espalhafatosa de Tom. Fisher poderia ter deitado e rolado com essa personagem que tem tudo a ver com a sua carreira de comediante, mas que, ao mesmo tempo, lhe daria chances de mostrar seu potencial dramático. Porém, Myrtle aparece tão pouco no filme que nem dá chances da atriz fazer muita coisa com ela. Já Debicki interpreta Jordan Baker, golfista que, no livro, insinua um caso romântico com Nick. A modelo e atriz mostra, no primeiro ato, potencial, entretanto, com o possível romance com Nick descartado do roteiro de Luhrmann e Craig Pearce, a personagem quase não aparece no segundo ato e, praticamente, entra muda e sai calada do terceiro. Eu sei, que o filme já é grande sem uma participação maior dessas personagens, porém as duas atrizes mereciam mais tempo de tela.

O roteiro do longa, por sinal, também consegue ser bem-sucedido. Apesar de ter algumas modificações aqui e ali na história original (sendo uma que pode causar surpresa, ao final do filme, para quem já leu o livro), no geral, o filme de Luhrmann é bastante fiel ao texto de Fitizgerald. Tanto que em alguns momentos até trechos deste aparecem flutuando pela tela, enquanto Nick Carraway escreve as suas memórias.

Entretanto, nem tudo é perfeito, a começar pelo ritmo do filme. No caso de "O Grande Gatsby", o problema não é que o filme canse ou pareça longo demais (algo que não acontece, apesar de ter quase duas horas e meia de duração), na verdade, a falha é do próprio Baz Luhrmann. É uma constante em todos os seus filmes o mesmo problema no andamento do filme: o primeiro ato é corrido, frenético, cheio de cortes rápidos e recheados de acontecimentos, enquanto que nos segundo e terceiro atos, o diretor consegue se acalmar e leva o filme no embalo certo. Isso, pelo que parece, já se tornou um cacoete infeliz na maneira Luhrmann de dirigir. Eu espero, sinceramente, que um dia ele consiga se livrar disso, pois, na maioria das vezes, é isso que impede os seus filmes de serem ótimos.

Uma outra coisa que me incomodou foi a insistência do diretor em deixar claro para você as metáforas da trama de Fitzgerald. Acho que não sou só eu que já estava cansado de ver tantas vezes a luz verde do farol de East Egg ou os olhos no outdoor do doutor T.J. Eckleberg. Além disso, para deixar claro para o espectador o significado dessas imagens, Luhrmann faz questão que as personagens falem de otimismo e esperança enquanto apontam para o farol da luz verde ou de, até mesmo, pôr um indivíduo para falar "Deus vê tudo" enquanto a câmera sobrevoa o outdoor. Em resumo, não era necessário martelar a mesmo coisa o tempo todo na cabeça do espectador para que ele entendesse tudo mastigadinho. O interessante seria que ele mesmo descobrisse o significado da luz verde e dos olhos do doutor oftalmologista.

"O Grande Gatsby" está bem longe de ser a porcaria que muitos críticos vem dizendo por aí, porém possui os mesmos problemas de todos os filmes do diretor Baz Luhrmann, que mostra, que apesar de entregar bons filmes, não tem evoluído como diretor. Apesar de ter gostado muito dessa nova versão de "Gatsby", ainda pretendo fazer o mesmo que Nick Carraway: sentar na praia e observar a luz verde para ver se um dia Luhrmann faz o épico perfeito que, aparentemente, ele almeja tanto fazer.

NOTA: 3.5/5


segunda-feira, 3 de junho de 2013

Somos Tão Jovens


Dir.: Antonio Carlos da Fontoura; Escrito por Marcos Bernstein; Com Thiago Mendonça, Laila Zaid, Sandra Corveloni, Bianca Comparato. 2013 - Imagem Filmes/Fox (104 min. - 14 anos)


Este é mesmo o ano de Renato Russo! Essa é a única conclusão a que se pode chegar ao perceber que em menos de um mês dois filmes relacionados ao cantor e antigo líder da banda Legião Urbana chegaram aos cinemas; e aproveitando a estreia de "Faroeste Caboclo", que eu já resenhei aqui no blog, aproveitei e fiz uma sessão dupla e fui conferir também "Somos Tão Jovens", que estreou no início de maio, mas que eu ainda não tinha ido assistir até agora, apesar de todo o sucesso que tem feito.

Tenho que admitir que, na verdade, eu não estava com muita vontade de ver esse filme. Quem tinha visto disse que era legalzinho e ponto e as críticas que li também não iam muito além disso. Mas, no final das contas, acabei indo vê-lo e tenho que admitir que eu me diverti razoavelmente.

O filme, para quem não sabe, aborda a vida de Renato Russo entre os anos de 1973 e 1982, isto é, do final do colegial até os primeiros anos após a faculdade. Por causa disso, o filme é focado, principalmente, nos anos pré-Legião Urbana, quando Renato era vocalista e guitarrista da banda Aborto Elétrico, que quando se separou deu origem à Legião e ao Capital Inicial, dois dos grupos mais expressivos do movimento do rock brasiliense, que viveu o seu auge nos anos 1980.

Uma coisa é certa: os primeiros quarenta minutos de filme são nada menos do que vergonhosos com V maiúsculo, a começar pela sequência de abertura. Se não fosse embalada por Tempo Perdido e não mostrasse fotos antigas e afins de Renato Russo, eu juraria que estava prestes a começar um novo episódio de "Sandy & Junior". Sim, caro leitor, se você pensou naquela série global que passava domingo à tarde e que era estrelada pelos dois irmãos Lima, você não pensou errado. Só faltava tocar Eu Acho Que Pirei para pensar seriamente em homenagem à dupla de Campinas!

Como se isso não fosse o bastante, o espectador ainda tem que aguentar diálogos rasos que nem um pires, que de tão ruins fazem a "Malhação" parecer filme do Tarantino. Isso sem contar com pérolas como um ator vivendo um jovem Herbert Viana da maneira mais caricatural possível e um outro interpretando o primeiro guitarrista do Aborto Elétrico, Pretus, filho do embaixador da África do Sul, fazendo um sotaque sofrível de americano falando português. Enfim, já deu para perceber o nível da desgraça.

Felizmente, antes que uma tragédia cinematográfica acontecesse e que a plateia começasse a rolar de tanto rir (posso jurar que na sessão em que eu estava não era só eu que achava graça quando não devia), o filme, quase que por milagre, começa a se tornar interessante. Isso não significa que os diálogos melhoraram (esses não tinham jeito mesmo!), porém a história fica mais envolvente, o filme deixa de parecer um especial de fim de ano da Globo e, por fim, até o elenco parece atuar melhor. Explicação para essa transformação? Magia do cinema!

Falando nos atores, Thiago Mendonça vive bem Renato Russo - se bem que eu o achei afetado demais em alguns momentos - e Laila Zaid como Ana, personagem criada especialmente para o filme, sendo uma mistura de várias mulheres na vida do cantor, é a grande surpresa do filme e consegue roubar todas as cenas em que aparece. Na verdade, ela é a única que tem uma performance exemplar do início ao fim do filme. Entretanto, tenho que admitir que fiquei surpreso, negativamente dessa vez, com a atuação de Sandra Corveloni. Ganhadora do prêmio de melhor atriz em Cannes (!) por "Linha de Passe", filme de 2008 dirigido por Walter Salles, a atriz, em "Somos tão Jovens", tem o papel ingrato da mãe de Renato Russo. A moça não tem uma única cena que lhe dê valor (nem mesmo o momento em que o filho se "declara" gay, que é rápido e bobo), o que acaba transformando a personagem dela em uma verdadeira caricatura; e aí, o que ela pode fazer, não é?

"Somos tão Jovens" começa como um trem descarrilhado prestes a se acidentar, porém em certo momento parece encontrar um porto seguro e fica nele até o fim. A biografia de Renato Russo, ironicamente, não se arrisca nem passa uma imagem muito boa do cantor - o filme tenta fazer dele um revolucionário, mas acaba transformando-o em um homem pedante e com comportamento de diva invocada. Porém, no final, o filme acaba sendo um bom divertimento de final de semana.

NOTA: 3/5


Faroeste Caboclo


Dir.: René Sampaio; Escrito por Marcos Bernstein e Victor Atherino; Com Fabrício Boliveira, Ísis Valverde, Felipe Abib, Antonio Calloni. 2013 - Europa Filmes (105 min. - 16 anos)


Para ser contada, a saga de João de Santo Cristo exigiu de Renato Russo pouco mais de 160 versos e nove minutos de canção, dando origem ao sucesso Faroeste Caboclo. Já na vida real, a jornada feita pelo filme "Faroeste Caboclo" desde sua idealização até às salas de cinema daria também uma música tão extensa e complicada quanto aquela que o originou. A ideia de desenvolver uma versão cinematográfica da canção escrita pelo líder da Legião Urbana surgiu em 2005, porém o filme só começou a ser filmado seis anos depois, já que os realizadores passaram um bom tempo procurando patrocinadores para o projeto. Com as filmagens encerradas em meados de 2011, o longa ainda passou por um árduo período de pós-produção e de busca por um distribuidor. Dessa forma, levou praticamente dois anos para que "Faroeste Caboclo" chegasse aos cinemas, e o pior é que, mesmo assim, o filme tem o mesmo destino de João de Santo Cristo. NÃO É SPOILER! Ele tenta e sua e se esforça, mas acaba morrendo no final.

Apesar de ser clara a paixão que os realizadores têm pelo projeto, especialmente o diretor René Belmonte, nativo de Brasília, cidade onde a história do filme se desenrola, "Faroeste Caboclo" não consegue sustentar toda a sua ambição. Parece que alguma coisa se perdeu na transição de uma mídia para a outra e fez com que o filme não desse certo.

Surpreendentemente, a história da canção, que é o maior atrativo dela, sem dúvida alguma, fica totalmente sem força no formato de longa-metragem. As desventuras de João de Santo Cristo na capital federal, decorrência do seu envolvimento com o tráfico de drogas, liderado por Jeremias, e o romance com Maria Lúcia tinham tudo para dar origem a um filme que, no mínimo, chamasse a atenção. O que não falta é violência, consumo e tráfico de drogas e crítica social, porém a ausência de um anti-herói carismático, de uma mocinha interessante e de um vilão envolvente prejudicam o produto final, deixando-o monótono. Além disso, todo o romance central me pareceu pouco convincente, uma vez que acontece de uma hora pra outra, quase que do nada, e o grand finale, o esperado duelo entre Santo Cristo e Jeremias, é, possivelmente, um dos mais insossos confrontos do cinema recente.

O elenco, encabeçado por Fabrício Boliveira, Ísis Valverde e Felipe Abib, dá o seu melhor, mas, infelizmente, é prejudicado pelas personagens desinteressantes. 

Por outro lado, o filme, sendo ele bom ou ruim, não deixa de representar uma tentativa de trazer novos ares para o cinema nacional comercial, dominado pelas comédias escrachadas e pelos dramas biográficos. Afinal, quem esperava um dia ver um faroeste situado em pleno Cerrado brasileiro protagonizado por um migrante baiano?

Ainda entre suas qualidades estão a produção como um todo, principalmente a sua ótima fotografia, e a excelente escolha das músicas, que vão da composição que deu origem ao filme até These Boots Are Made for Walkin' de Nancy Sinatra sendo tocada em meio a uma sequência em que Santo Cristo resolve criar uma plantação de maconha em Ceilândia, cidade satélite de Brasília.

Enfim, "Faroeste Caboclo" merece nota 10 pela tentativa e pela coragem de adaptar uma das canções mais conhecidas do rock brasileiro para o cinema, porém o longa em si merece uma nota 4, já que apesar das boas intenções de fazer jus à sua matéria-prima e de constituir uma feroz crítica à desigualdade social e ao racismo, o filme deixa a desejar num dos quesitos cinematográficos básicos: o entretenimento.

NOTA: 2/5


domingo, 2 de junho de 2013

Sem Proteção (The Company You Keep)


Dir.: Robert Redford; Escrito por Lem Dobbs; Com Robert Redford, Shia LaBeouf, Julie Christie, Susan Sarandon. 2012 - Imagem Filmes (121 min. - 12 anos)


Uma coisa é certa: "Sem Proteção" já começa deixando bem claro a que veio. Em menos de dez minutos são mostrados trechos de reportagens sobre as ações terroristas de um grupo de rebeldes chamado Weather Underground, que atuou nos anos 1970, em meio a Guerra do Vietnã, e, já no presente, uma de suas integrantes, vivida por Susan Sarandon, é presa após ter se escondido por 30 anos. A julgar por esse começo, esperava-se que o mais novo filme dirigido por Robert Redford (que também o protagoniza) fosse ser bem movimentado, dinâmico; porém não é exatamente isso que acontece.

Escrito por Lem Dobbs, o longa acompanha a fuga de Nick Sloan, um dos integrantes do Weather Underground que ainda está solto, ao mesmo tempo em que um jovem jornalista de um pequeno jornal local procura descobrir toda a verdade por trás do ex-grupo terrorista. Tudo isso em meio às buscas do FBI para descobrir o paradeiro de Sloan.

Em "Sem Proteção", o problema não é a história, que é bem construída e aborda temas interessantes como os limites da ideologia, tanto no jornalismo, representado pelo jovem Ben, quanto no ativismo, presente na figura de Nick, e o quanto o passar dos anos muda as nossas atitudes e pensamentos. O filme peca mesmo é no ritmo! Uma história como essa escrita por Dobbs clamava por um longa de edição rápida (não frenética!) e uma trilha sonora pulsante e tensa, porém o que se vê é um filme de ritmo lento e certamente mais longo do que deveria ser. Ao querer trazer uma reflexão para o espectador, Redford acaba sacrificando o andamento de seu filme, que sempre parece estar em primeira marcha, especialmente em seu último ato. Além disso, a trilha sonora de Cliff Martinez, que poderia dar uma animada nas coisas, acaba não fazendo muita diferença (lembrando que ele é o mesmo compositor de "Drive", um filme longe de ser rápido, mas que ainda assim mantinha um suspense constante). Resumindo, em um filme como "Sem Proteção", falta de ritmo é um erro inadmissível!

Felizmente, pode-se dizer que este é o único problema maior do filme. Como um todo, o longa possui boas performances (cortesia de um elenco de deixar qualquer diretor com inveja) e uma produção respeitável, principalmente a fotografia do brasileiro Adriano Goldman.

Enfim, o que poderia ter sido um ótimo thriller acabou se tornando um longa mediano. Sem querer ser preconceituoso aqui, mas acho que esse é um dos casos em que um diretor mais jovem faria diferença. Apesar de mostrar ser um bom realizador, Redford, 76 anos, talvez não tenha mais o fôlego para dirigir um filme que exija ser rápido, como "Sem Proteção" exige.

NOTA: 3/5


domingo, 26 de maio de 2013

Terapia de Risco (Side Effects)


Dir.: Steven Soderbergh; Escrito por Scott Z. Burns; Com Jude Law, Rooney Mara, Catherine Zeta-Jones, Channing Tatum. 2013 - Diamond Films (106 min. - 14 anos)


Há cerca de um ano ou dois atrás, o diretor norte-americano Steven Soderbergh anunciou que iria fazer uma pausa de tempo indeterminado em sua carreira cinematográfica para passar a pintar em tempo integral. Apesar da surpresa, não é difícil de entender a sua decisão. Extremamente prolífico (26 filmes em 24 anos), o diretor além de dirigir também edita e fotografa a maioria de seus filmes sob os pseudônimos Mary Ann Bernard e Peter Andrews, o que torna a produção de seus filmes algo muito exaustivo. Além disso, na época em que fez as polêmicas declarações, o diretor já tinha engatilhado três longas: "Magic Mike" (estreou em 2012), "Behind the Candelabra" (recém-exibido no Festival de Cannes) e este "Terapia de Risco, que estreou nos EUA no início do ano e que chegou agora ao Brasil. Sobre "Magic Mike", tenho que admitir que fiquei decepcionado, quanto a "Behind the Candelabra", este, apesar de ter sido exibido em Cannes (onde recebeu muitos aplausos), foi realizado como um telefilme para a HBO. Sobra, então, "Terapia de Risco", que, oficialmente falando, é o último filme de Soderbergh direcionado para as telonas e, novamente, fiquei decepcionado.

Roteirizado por Scott Z. Burns, que colaborou com o diretor no eficiente "Contágio", o longa acompanha Emily, uma jovem que espera ansiosamente a saída de seu marido da prisão. Quando este é finalmente libertado, a moça começa a se sentir uma má esposa, incapaz de ajudá-lo a se reintegrar na sociedade, e por isso, tenta se suicidar ao bater, propositalmente, o carro contra uma parede.

No hospital, enquanto se recupera do "acidente", Emily conhece o dr. Jonathan Banks, que de imediato percebe as reais intenções da jovem. Para evitar que um novo desastre aconteça, a moça se dispõe a iniciar um tratamento psiquiátrico com Banks. Dessa forma, Emily começa a tomar antidepressivos, que, a curto prazo, realmente melhoram a sua vida conjugal e sexual. Porém, quando os efeitos colaterais dos remédios começam a aparecer, tudo muda e a jovem comete um crime enquanto estava sob o efeito das drogas. Crime esse que terá consequências graves tanto à paciente quanto ao médico.

O ponto de partida do filme é realmente interessante, uma vez que cria todo o cenário para o que poderia ser um intrigante thriller ou até mesmo um intenso filme de tribunal. Porém, se inicialmente o filme se apresenta como uma incisiva crítica à cultura dos remédios nos EUA, onde até anúncios de remédios tarja preta são veiculados em rede nacional, em pouco tempo o longa começa a perder força, tanto que até mesmo a primeira grande reviravolta da história não causa muito impacto. 

Ainda assim, não me dei por vencido e fiquei esperando que o filme finalmente engrenasse. Entretanto, isso não aconteceu. Parecendo que estava sob o efeito de antidepressivos, assim como sua protagonista, em nenhum momento o filme empolga ou cria qualquer tipo de tensão, algo que esperava que acontecesse durante o julgamento de Emily. Por sinal, esse trecho é muito mal aproveitado, já que daria chance aos realizadores do filme questionarem mais uma vez o consumo abusivo de remédios pesados pela população norte-americana, como também usaria o mote dramático do "quem é culpado?": a paciente que cometeu o crime ou o médico que não interrompeu o tratamento? 

Ao invés disso, a trama resolve focar na figura do médico que tenta descobrir se Emily estava realmente drogada na hora do crime ou se foi tudo intencionado, assim como o seu suicídio. Já achei essa escolha equivocada, mas se, no mínimo, a história tivesse uma conclusão satisfatória, até que isso não seria um grande problema. Porém, o clímax do filme é ridículo e até mesmo apelativo, sendo digno dos piores novelões das oito. Mas o mais engraçado é que essa péssima revelação é levada super a sério, o que deixa a situação ainda pior.

Entretanto, apesar dos pesares, o filme está longe de ser um fracasso e serve até mesmo de entretenimento passageiro. Entre suas qualidades estão, como de costume, o trabalho de Soderbergh (ou Peter Andrews, como preferir) na direção de fotografia do filme e o desempenho do elenco, encabeçado por Rooney Mara, Jude Law, Catherine Zeta-Jones e Channing Tatum, que apesar de não estarem memoráveis, conseguem cumprir direitinho os seus respectivos papéis.

Assim como todo diretor com uma média impressionante de um ou até dois filmes por ano, Soderbergh possui uma filmografia de altos e baixos, e "Terapia de Risco" está entre esses últimos. Porém, ainda temos que conferir "Behind the Candelabra" para termos a total certeza se o período sabático foi uma boa ou má escolha do prolífico realizador.

NOTA: 2.5/5


Em Transe (Trance)


Dir.: Danny Boyle; Escrito por Joe Ahearne e John Hodge; Com James McAvoy, Vincent Cassel, Rosario Dawson. 2013 - Fox (101 min. - 16 anos)


Como todo mundo sabe, o diretor Danny Boyle foi o responsável por todo o espetáculo de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres de 2012, isto é, se você adorou as criancinhas dançando em cima de macas de hospital ou do esquete que mostrava o encontro da Rainha Elizabeth II com James Bond, pode agradecer a ele. Porém, quem é conhecedor da filmografia de Boyle sabe que o diretor adora fazer filmes bem sanguinolentos, que em nada se assemelham à sua abertura das Olimpíadas. Portanto, não é de se espantar que em meio aos preparativos à grande festa do esporte, o diretor resolveu filmar um filme menor, mas nem por isso menos ambicioso: "Em Transe".

Protagonizado por Simon, segurança de uma casa de leilões londrina, o filme tem como ponto de partida um assalto feito por uma gangue que visava roubar o quadro "Voo das Bruxas" do pintor espanhol Goya. Durante o assalto, Simon quebra o protocolo e tenta impedir o roubo, o que faz com que o líder da gangue, Franck, lhe dê uma porrada na cabeça, deixando-o desacordado.

Pouco depois, quando Franck descobre que só roubou a moldura do quadro, ficamos sabendo que Simon estava mancomunado com a gangue desde início e que o seu dever era exatamente facilitar o furto da obra. Porém, surge uma dúvida: onde está quadro? Quem sabe disso é Simon, entretanto, como consequência da pancada que levara na cabeça, ele sofreu um tipo de amnésia, que fez com que ele esquecesse onde ele tinha deixado o quadro.

Para resolver o problema, uma vez que as sessões de tortura não estavam dando resultados, Franck decide contratar um hipnotizador que possa buscar dentro dos confins do cérebro de Simon a lembrança do local onde o quadro está guardado. É aí que entra Elizabeth na história, e o que começa como uma mera relação profissional se torna um triângulo amoroso pra lá de intrincado entre a moça, Franck e Simon.

Primeiro de tudo, ficam os elogios à direção de Boyle, que continua muito boa tanto técnica quanto artisticamente. A produção de "Em Transe" é toda de primeira: a fotografia inspirada de Anthony Dod Mantle (que usa e abusa de reflexos de espelhos e paredes de vidro); a edição frenética, mas compreensível, de Jon Harris; a direção de arte etc. Tudo contribui para um longa esteticamente impecável.

Além disso, o elenco está em ótima forma. James McAvoy faz ótimo uso de seu carisma para deixar Simon agradável ao público, mesmo que ele seja um homem endividado pelo jogo e de caráter, no mínimo, duvidoso. Vincent Cassel está bem como o vilão Franck, um homem que começa o filme puramente mal, mas que com o passar do tempo deixa o seu coração aparecer, e Rosario Dawson, como Elizabeth, é a que mais se destaca dentre o elenco, não só por ser a única mulher, mas também por ter a personagem mais complexa do trio de protagonistas.

Entretanto, estaria mentindo se dissesse que "Em Transe" não tem alguns problemas sérios, principalmente em seu roteiro. Escrito por Joe Ahearne e John Hodge, o argumento do filme tem uma premissa bastante interessante e inusitada, do mesmo modo que funciona muito bem como thriller, especialmente em sua primeira metade. Entretanto, não há como negar que quanto mais a história avança, mais ela dá sinais de esgotamento. Quando o romance entre os três protagonistas começa a florescer, sente-se que o filme perde parte de seu impacto inicial, o que não deixa de causar uma certa decepção. Porém, nada supera a grande revelação final, que, apesar de ter algumas boas ideias, por vezes parece simplesmente absurda e até mesmo ridícula demais. Enfim, é um daqueles casos em que parece que os roteiristas começaram o trabalho bastante animados, mas foram perdendo a euforia com o tempo.

Mesmo assim, "Em Transe" está longe de ser um desperdício de tempo. Se o filme tem lá as suas falhas de roteiro, essas são quase completamente compensadas pelo bom trabalho de Boyle por trás das câmeras, pelo desempenho dos atores na frente destas e por sua ótima primeira hora.

NOTA: 3.5/5


domingo, 12 de maio de 2013

Dentro da Casa (Dans la Maison)


Dir.: François Ozon; Escrito por François Ozon; Com Fabrice Luchini, Ernst Umhauer, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner. 2012 - Califórnia Filmes (105 min. - 14 anos)


Desde os períodos mais remotos da História da humanidade, o homem sempre gostou de ouvir e contar histórias. Dramas, comédias, contos de fadas... Enfim, qualquer hora era hora de contar histórias. Não é de se espantar, portanto, o quanto a prensa de Gutenberg foi importante para todos nós, já que foi ela que possibilitou que histórias de diversos cantos do mundo fossem conhecidos em outros diversos cantos do mundo. E assim, a literatura, aliada às outras artes, se tornou um fator importantíssimo para a formação das culturas nacionais; até que chegou o cinema, que potencializou ainda mais o alcance de uma narrativa, dando-lhe novos traços e possibilidades. Por isso, por brincar com a importância das histórias na vida das pessoas, que "Dentro da Casa" é um filme tão bom.

Dirigido por François Ozon, o filme acompanha Germain, um professor de Francês que se vê desiludido com a vida e com seus alunos - que a cada ano parecem cada vez mais burros. Um dia, porém, ao corrigir uma bateria de redações deploráveis, ele lê uma que se destaca das outras; trata-se do texto de Claude Garcia. Em sua redação, o menino descreve o dia em que foi estudar na casa de um colega seu de turma, Rapha Artole. Porém, se a princípio a redação de Claude parece ser banal, tudo muda quando ele escreve "continua" no final do texto, o que desperta uma grande curiosidade em Germain. O professor, então, acaba encontrando um sentido para sua vida: incentivar aquele aluno a terminar de escrever aquela história, mesmo que isso abale a sua vida e a dos outros. Daí inicia-se uma história que mistura drama, comédia e suspense, e que prende o espectador do início ao fim.

Grande parte do sucesso de "Dentro da Casa" deve-se ao roteiro exemplar de Ozon. Como disse acima, o longa é uma amálgama de diversos gêneros, o que poderia ter resultado, nas mãos de um roteirista inexperiente, uma grande bagunça, que não saberia como equilibrar os diferentes tons da narrativa. Porém, Ozon consegue ultrapassar esse obstáculo e equilibra muito bem a comédia com o drama e o suspense. Em nenhum momento se sente que o filme dê prioridade a algum gênero específico; pelo contrário, é até difícil enquadrá-lo em alguma categoria.

Além disso, os personagens inventados por Ozon são bastante interessantes e complexos. Tudo começa com os dois protagonistas, Germain e Claude. Germain, num primeiro momento, é mostrado como um homem frio, que já perdeu as esperanças com a nova geração. Porém, com a entrada de Claude, a figura de Germain muda completamente, mostrando-se um homem manipulável e falho. Por outro lado, Claude inicia o filme como um garoto que apenas quer melhorar suas notas em Francês, mas que com o passar do tempo se mostra um jovem bastante maturo, e, por vezes, até mais inteligente do que seu próprio mestre. Por isso, a relação professor-aluno é bastante interessante, uma vez que as personalidades se invertem com o desenrolar da trama. Entretanto, vale a pena lembrar que as ótimas atuações de Fabrice Luchini (Germain) e Ernst Umhauer (Claude) são essenciais para trazer ainda mais vida ao texto, que já é de ótima qualidade.

Porém, o aspecto mais envolvente do roteiro de "Dentro da Casa" é a dualidade com a qual a trama se apresenta. Uma vez que todos os acontecimentos que ocorrem dentro da casa dos Artole são narrados por Claude em suas redações, não há como o espectador saber o que é verdade e o que é mentira. Fica no ar, portanto, uma contante dúvida, principalmente depois que Germain passa a dar dicas para Claude sobre como deixar a sua história mais emocionante.

A única ressalva que faço ao roteiro é às cenas relacionadas à inauguração da galeria de arte de Jeanne, esposa de Germain. Apesar de possuírem um ótimo senso de humor e de conterem uma química deliciosa entre Luchini e Kristin Scott Thomas, esses trechos, por vezes, parecem servir de mero alívio cômico à trama principal. Não é nada que prejudique o andamento do filme, mas também não é algo imperceptível.

Além do ótimo roteiro, "Dentro da Casa" conta com uma direção primorosa de Ozon. O diretor é daqueles que além de saber dirigir muito bem o seu elenco, consegue fazer um filme de extremo bom gosto, mesmo quando a sua história caminha por assuntos polêmicos, como o caso amoroso entre um adolescente e uma mulher de meia idade. Por causa disso, elogios devem ser feitos à fotografia de Jérôme Alméras e a todo o resto da equipe.

Um dos melhores filmes deste início de 2013, "Dentro da Casa" é um exemplo de como fazer cinema acessível e inteligente, mostrando que esse dois adjetivos, com um pouco de esforço, combinam tanto quanto cinema e pipoca.

NOTA: 4/5