Dir.: Felipe Joffily; Escrito por Marcelo Rubens Paiva e Lusa Silvestre; Com Bruno Mazzeo, Marcos Palmeira, Emílio Orciollo Netto. 2012 - Paris
"E Aí, Comeu?" pode ser visto como uma versão masculina de "Sex and the City". No filme, um grupo de amigos se reúne periodicamente num botequim para botar o papo em dia e, geralmente, 99,9% da conversa envolve sexo. Os amigos, assim como as nova-iorquinas da série da HBO, falam "daquele" assunto sem o menor pudor. Discutem sobre pênis, adultério, pelos pubianos, loiras, mulatas, ruivas... Enfim, na mesa do bar nada é proibido.
Em paralelo, cada um dos integrantes vive seus próprios dilemas amorosos e sexuais. Fernando, enrolado num processo de divórcio, ainda sofre por causa de sua futura ex-mulher, mas ao mesmo tempo, começa a cultivar uma paixão por uma vizinha sua de apenas 17 anos de idade. Honório, casado e pai de três filhas, passa por uma crise no matrimônio ao suspeitar que sua esposa anda traindo-o. Por fim, Afonsinho, um solteiro aficionado por mulheres casadas, começa a sentir algo a mais por uma prostituta da qual é amigo. Em resumo, a ideia é bastante interessante, pena que a execução seja tão fraca.
Apesar de ter boas performances de seu elenco, principalmente do trio de protagonistas formado por Bruno Mazzeo, Marcos Palmeira e Emílio Orciollo Netto, o roteiro é uma verdadeira decepção. O grande problema é o seguinte: os roteiristas Marcelo Rubens Paiva e Lusa Silvestre constroem bons pontos de partida, isto é, as situações criadas por eles têm bastante promessa - as histórias são intrigantes, os personagens são bem construídos etc. -, mas o percurso em si é sem graça e monótono. O filme pretende ser uma comédia, tanto que a quantidade de piadas é enorme, só que estas não são inspiradas. Dessa forma, as risadas demoram a chegar, e quando chegam não são das maiores, apesar de ter alguns bons momentos.
Outro problema é o terceiro ato, ou seja, a parte do filme em que todos os conflitos chegam à uma conclusão. Apesar de todos eles terem finais coerentes e bem amarrados, o ritmo começa a arrastar e a impressão de que o filme já deu o que tinha que dar é predominante.
Enfim, "E Aí, Comeu?" poderia ter sido um filme muito melhor do que é, porém a escassez de risadas e a extensão da história até o seu limite fazem do produto final um filme fraco. Portanto, a pergunta que vem à cabeça do espectador é: "e aí, acabou?".
Dir.: Tim Burton; Escrito por Seth Grahame-Smith; Com Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Eva Green, Helena Bonham Carter. 2012 - Warner (113 min. - 14 anos)
Uma das maiores qualidades de Tim Burton é o fato de seus filmes serem facilmente identificáveis. Todos eles possuem um visual gótico bastante característico do diretor, até mesmo os mais coloridos como os infantis "A Fantástica Fábrica de Chocolate" e "Alice no País das Maravilhas". Mais interessante ainda é a sua capacidade de manter este mesmo estilo tanto em produções modestas como os clássicos "Edward Mãos de Tesoura" e "Ed Wood" quanto em filmes de altíssimo orçamento como os seus filmes da franquia "Batman" e os já citados "Alice" e "Fábrica de Chocolate". Porém, isto tem um preço: a sua carreira é considerada por muitos como irregular. Felizmente, o seu último longa, "Sombras da Noite", apesar de ser visto pela maioria como um trabalho inferior seu, me fez passar duas horas bastante agradáveis no cinema.
Baseado numa telenovela homônima exibida entre 1966 e 1971, que devo admitir, não conhecia até saber da produção deste filme, o longa conta a história de Barnabas Collins. Herdeiro de uma rica família do ramo da pesca, Barnabas encontrou na doce Josette o amor de sua vida. Porém, uma de suas empregadas, a bruxa Angelique, era perdidamente apaixonada por ele e não aceitava de jeito nenhum o relacionamento entre os dois. Para dar fim ao romance, ela enfeitiçou Josette e fez com que ela pulasse de um penhasco direto nas pedras à beira do mar. Ao tentar salvá-la, Barnabas também se jogou do penhasco, mas sobreviveu, dando chance a Angelique transformá-lo num vampiro e fazer ele sofrer todos os dias pela perda de sua amada. Barnabas foi, então, enterrado vivo por Angelique e pela população da cidadezinha de Collinsport.
Entretanto, 200 anos mais tarde, em 1972, Barnabas é acordado e retorna à cidade que leva o nome de sua família. Ao chegar lá, descobre que o clã dos Collins está falido e sua magnífica mansão, Collinswood, está em deplorável estado. Barnabas decide, então, ajudar a matriarca da nova geração da família Collins, Elizabeth, a dar a volta por cima e trazer os Collins novamente ao seu tempo de glória.
Sem dúvida alguma, "Sombras da Noite" tem um roteiro falho, afinal a quantidade de personagens envolvidos na história é considerável. Para se ter uma noção, somente a família Collins conta com 5 integrantes, isso sem contar com o empregado, com a tutora e com a psiquiatra que também vivem na mansão Collinswood. Portanto, não é surpresa, que alguns deles vão ficar sem muito o que fazer ou vão ser esquecidos em certos momentos da trama. Um exemplo deles é Roger, o irmão de Elizabeth, pai do menino David. Ele aparece basicamente nas refeições da família, e apesar de ter uma subtrama ao seu redor, ela não é muito explorada pelo roteirista Seth Grahame-Smith. Outra que também tem uma aparição problemática é a tutora de David, Victoria. No início do filme, ela ganha bastante importância por ser, supostamente, a reencarnação de Josette, a grande paixão de Barnabas. Entretanto, a partir do momento em que o vampiro aparece para a sua família, ela quase não dá as caras, até que no final ela volta a ser uma das personagens mais importantes novamente. Pode-se dizer, que na realidade, apenas três personagens têm uma presença constante no filme: Barnabas, Angelique e Elizabeth.
Consequentemente, são de seus intérpretes as melhores interpretações do longa. Johnny Depp, na pele de Barnabas, mostra novamente que nasceu para interpretar tipos estranhos. Foi assim com Edward Mãos de Tesoura, Jack Sparrow, Willy Wonka entre outros. Aqui, o seu Barnabas é um homem atormentado pelas suas perdas do passado, mas ao mesmo tempo engraçado, pois tem uma dificuldade imensa em se adaptar aos loucos anos 1970. Eva Green como Angelique mostra um lado cômico que ainda não havia sido muito explorado e se sai muito bem na sua missão. Já Michelle Pfeiffer, interpretando a matriarca Elizabeth, tem uma performance competente, principalmente nos momentos em que conversa com o Barnabas de Johnny Depp. Realmente, os dois têm química juntos, assim como Depp também tem uma ótima química com Green. Enfim, esse trio funciona porque o entrosamento entre os atores é muito bom.
Mesmo assim, o resto do elenco também está muito bem, com menções especiais para Helena Bonham Carter e Jackie Earle Haley. Ela, como a dra. Hoffman, a psiquiatra dos Collins, tem alguns ótimos momentos, principalmente com Depp, com quem já trabalhou outras vezes; já ele, como Willie, o faz-tudo (é jardineiro, motorista, faxineiro...), aparece pouco no filme, mas quando aparece consegue imprimir a sua marca.
Outra falha do roteiro é a sua indecisão. Ele não sabe muito bem qual gênero seguir. Durante o prólogo, que apresenta a história de Barnabas, o longa é claramente um drama de época. Porém, quando o seu protagonista acorda do seu sono de 200 anos, o filme torna-se uma comédia, sendo fiel ao que o trailer do filme tenta vender. Porém, em seu clímax, o longa torna-se um filme de aventura, com pouco espaço para risadas. Por sinal, o final têm alguns elementos bastante forçados, mas que não posso contar aqui porque são spoilers. Além disso, não estranhe a quantidade de subtramas que o filme possui.
Tecnicamente falando, o filme é uma beleza, talvez a característica mais marcante da marca Tim Burton. Os figurinos de Colleen Atwood (ganhadora do Oscar de melhor figurino em 2011 pelo filme anterior de Burton, "Alice no País das Maravilhas") são de extrema qualidade como sempre, a trilha sonora de Danny Elfman combina muito bem com o clima de humor negro do filme, a fotografia de Bruno Delbonnel, apesar de ser um pouco escura demais (em certos momentos nem consegue-se ver as expressões dos atores direito), passa de forma correta o estilo gótico de Burton, e por fim, a equipe de cenografia merece aplausos por construir de forma competente Collinsport do zero. Isso mesmo, a cidade foi construída especialmente para o filme no estúdios Pinewood na Inglaterra!
No final das contas, "Sombras da Noite" é um filme falho, mas que devido à excentricidade de sua história e ao carisma de seu elenco consegue divertir e encantar uma plateia.
Dir.: Darren Aronofsky; Escrito por Darren Aronofsky; Com Sean Gullette, Mark Margolis, Ben Shenkman. 1998 - Europa (84 min. - 14 anos)
Max é um matemático que acredita que tudo aquilo que está ao nosso redor pode ser definido pelos números. Sequências, espirais, padrões seriam a explicação para o porquê de tudo e todos. A partir deste conceito, ele inicia uma busca incessante pelo padrão das bolsas de valores. O que faz as ações caírem num dia e no outro subirem? Deve haver uma explicação matemática para isso. A possível resposta seja um número formado por 216 dígitos. Enquanto isso, um conhecido seu, judeu praticante, lhe conta de toda a Matemática que permeia as páginas do Torá, uma vez que cada letra do hebraico representa um número. Assim, como na bolsa de valores, é provável que haja um padrão matemático relacionado também a um número de 216 dígitos. A partir daí, Max inicia uma jornada frenética para buscar o tal número de 216 dígitos, mesmo que ponha a sua vida em risco.
Só pela sinopse já dá para perceber que "Pi" não é um filme calminho e devagar, mas sim o oposto. São 84 minutos de ação ininterrupta, cortes rápidos e diálogos afiados dirigidos com precisão por Darren Aronofsky, em sua estreia no cinema.
Com uma curiosa fotografia granulada e em preto e branco, "Pi" tem em seu roteiro a sua maior qualidade. Apesar de perder tempo em cenas desnecessárias como aquela em que Max encontra um cérebro na escada do metrô, que não contribui em nada para a trama, o filme ganha pontos por momentos inspirados como o primeiro encontro entre Max e Lenny, o seu amigo judeu, em que Lenny explica a Max a Matemática por trás do Torá. Isso sem falar no clímax de ritmo acelerado, artimanha que Aronofsky usaria em seu próximo filme, "Réquiem para um Sonho".
As atuações também contribuem. Sean Gullette, principalmente, como Max incorpora bem a paranoia do personagem quanto aos números e àqueles que vêm lhe procurar por causa de suas pesquisas nas bolsas de valores, como por exemplo a misteriosa Marcy Dawson. Em certos momentos de agonia, podemos sentir na pele o incômodo sentido por Max, principalmente em suas crises.
Apesar de não ser um grande filme (não é nem o melhor do diretor), "Pi" entretém com suas ideias mirabolantes sobre as relações entre a nossa vida e a Matemática.
Dir.: Darren Aronofsky; Escrito por Mark Heyman, Andrés Heinz e John McLaughlin; Com Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel. 2010 - Fox (108 min. - 16 anos)
Ao analisar a filmografia do norte-americano Darren Aronofsky, pode-se perceber que vários de seus filmes falam sobre a importância que os seres humanos dão à notoriedade. Todos nós queremos ser vistos da melhor forma possível, nós queremos ser perfeitos a qualquer custo. Este tema foi abordado em "Réquiem para um Sonho", em "O Lutador" e em seu mais recente filme, "Cisne Negro".
No longa, uma bailarina extremamente técnica e perfeccionista, Nina Sayers, recebe a incumbência de protagonizar uma nova montagem do clássico de Tchaikovsky, "O Lago dos Cisnes". Porém, o seu personagem, a Rainha Cisne, incorpora duas personas completamente opostas: o Cisne Branco e o Cisne Negro. O Cisne Branco não é o problema: Nina é um doce de pessoa, frágil e um pouco infantil; enfim, ela se encaixa perfeitamente no papel. Por outro lado, o Cisne Negro é sensual e perigoso, o inverso de Nina. Entretanto, no intuito de manter o papel em suas mãos de qualquer jeito, ela começa a se esforçar para deixar o seu lado negro aparecer mesmo que para isso tenha que abandonar a sua sanidade também. A partir desta premissa, Aronofsky constrói um suspense psicológico intenso, abundante em violência e sexualidade.
Um dos aspectos mais interessantes do roteiro é o fato do filme se passar no mundo do balé, que é, aparentemente, encantador e mágico, mas que no fundo esconde uma realidade muito mais densa e sofrida. Podemos até considerar isto como uma representação literal do espírito de Nina, dividido entre o bem e o mal durante a procura pela perfeição.
Num ritmo frenético, "Cisne Negro" mostra de forma bastante convincente a transformação de sua protagonista. A cada passo seu, a cada gesto, é possível ver que ela já não é mais a mesma. A garota meiga, como diz sua mãe, está desaparecendo e dando lugar à uma figura perigosa e sexualizada. Para isso, Natalie Portman desempenha uma boa performance (apesar de não ser tão boa quanto o seu Oscar parece indicar), na qual ela se desgasta física e emocionalmente.
Acompanhando a turbulência emocional de Nina estão Thomas, Lily e Erica, respectivamente, o diretor da companhia de balé, a concorrente de Nina ao papel principal de Rainha Cisne e a mãe da bailarina perturbada. Todos os três vividos com competência por Vincent Cassel, Mila Kunis e Barbara Hershey.
Com uma trilha sonora desesperada (no bom sentido) de Clint Mansell e tensão para dar e vender, "Cisne Negro" não é um filme perfeito, mas que merece toda a atenção que lhe foi, e em certa parte, ainda lhe é dada.
Dir.: Gil Kenan; Escrito por Caroline Thompson; Com Saoirse Ronan, Harry Treadaway, Bill Murray, Tim Robbins. 2008 - Paris Filmes (90 min.)
Quando estreou nos cinemas norte-americanos, "Cidade das Sombras" foi um verdadeiro fracasso de bilheteria. Com um orçamento de 55 milhões de dólares, o longa, ao fim de sua exibição, não passou dos 7 milhões de renda nos EUA e no Canadá e dos 17 milhões no mundo todo. É realmente uma pena, já que "Cidade das Sombras" é uma diversão e tanto.
Dirigido por Gil Kenan (realizador de "A Casa Monstro", um outro filme bem divertido, diga-se de passagem), o longa se passa em Ember, uma cidade localizada no subsolo da Terra, criada no intuito de manter uma parte da espécie humana preservada após a realização de uma guerra nuclear. A cidade foi planejada para se sustentar por cerca de 200 anos, sendo estes cronometrados numa caixa de metal na qual está guardada também um segredo que só deve ser revelado em caso de extrema necessidade. Porém, num certo momento esta caixa se perde e os anos passam até que chegam aos tais 200 anos sem que ninguém saiba disso. A cidade começa, então, a se mostrar precária: o gerador que alimenta a cidade para de funcionar com mais frequência, os alimentos estão ficando escassos, as construções estão velhas e em situação deplorável; enfim, é apenas questão de tempo até que não haja mais condições de habitar Ember. É neste contexto que entra na história Lina, uma menina que descobre na casa de sua avó a tal caixa desaparecida e a partir daí começa a descobrir a verdade que o governo esconde dos cidadãos. Ela, então, se junta ao seu amigo Doon, e os dois vão descobrir uma forma de sair de Ember e livrar-se do fim iminente e da escuridão permanente.
Protagonizado por dois bons atores juvenis, Saoirse Ronan (já indicada ao Oscar por "Desejo e Reparação") e Harry Treadaway, "Cidade das Sombras" surpreende, não apenas por possuir uma história bastante interessante, mas também porque flerta com alguns assuntos mais sérios, normalmente pouco tratados em filmes infanto-juvenis como política e religião e crença.
Por um ponto de vista técnico, a sua produção também é bastante caprichada. O departamento de arte responsável pela construção de Ember está de parabéns, assim como a fotografia de Xavier Pérez Grobet, bastante adequada à escura e suja cidade subterrânea.
Além de Ronan e Treadaway, o elenco também possui coadjuvantes de peso como Bill Murray, interpretando um prefeito nem um pouco honesto, Tim Robbins como o pai de ideais revolucionários de Doon e Toby Jones vivendo o assistente e braço direito do prefeito.
Em poucas palavras, "Cidade das Sombras" é um filme que merece uma segunda chance.
Dir.: Roman Polanski; Escrito por: Yasmina Reza e Roman Polanksi; Com Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly. 2011 - Imagem (80 min. - 12 anos)
"Deus da Carnificina" começa com uma cena na qual um grupo de crianças está brincando num parque à beira de um rio. Tudo está muito bem, todos estão alegres até que algo - não sabemos o quê - acontece e o clima muda drasticamente. Os meninos começam a discutir até que um deles acerta um galho de árvore na cara de um outro. A confusão foi iniciada.
Na cena seguinte, os pais dos dois garotos que se desentenderam estão num confortável apartamento de classe média alta em Nova York. Eles estão formulando um documento em que fica claro o estado físico do menino agredido: em resumo, ele perdeu dois dentes, mas segundo a mãe do menino ele ficou desfigurado.
Assim que o documento está pronto, os casais vão para a sala de estar e começam a tomar um café e comer bolo de frutas. Até aí tudo vai bem, todos estão devidamente vestidos, falam da forma mais educada possível, porém o clima começa a mudar e os pais passam a discutir e o que era para ser uma tarde agradável torna-se um verdadeiro inferno. Acontece de tudo um pouco: briga entre casais, vômito, xingamentos... Enfim, os bons modos vão pelos ares.
Dirigido por Roman Polanski, "Deus da Carnificina" tem ao seu favor, primeiro, o elenco. Integrado por gente oscarizada como Jodie Foster, Kate Winslet e Christoph Waltz e pelo cada vez mais competente John C. Reilly, o longa mantém o espectador vidrado o tempo inteiro, sempre curioso em saber o que vem em seguida.
Aos atores une-se também o roteiro extremamente dinâmico escrito por Polanksi e Yasmina Reza, autora da peça homônima que inspirou o filme. Para se ter uma ideia, durante todo o encontro entre os casais não há uma única música, a intervenção de qualquer outro personagem além dos quatro protagonistas, um outro cenário a não ser o apartamento do casal vivido por Foster e Reilly, mas ainda assim, em nenhum momento o longa deixa a peteca cair e cede para a monotonia.
De um ponto de vista técnico, o filme também está de parabéns, principalmente a iluminação, que acompanha o passar do dia. No início da projeção, o apartamento é iluminado basicamente pela luz vinda do meio externo, enquanto ao fim do filme, percebe-se que o apartamento está mais escuro e que agora as luzes estão todas ligadas. Na minha opinião, é algo sutil, mas bastante interessante, tanto que chamou a minha atenção.
Em resumo, é nada menos do que divertido ver quatro pessoas perdendo a cabeça em apenas 80 minutos, provando que o ser humano ainda é um selvagem, apesar de todas as boas aparências. E o mais interessante: isto serve para os personagens do filme e para o espectador também.
Dir.: Rupert Sanders; Escrito por Evan Daugherty, John Lee Hancock e Hossein Amini; Com Kristen Stewart, Chris Hemsworth, Charlize Theron. 2012 - Universal (127 min. - 12 anos)
De tempos em tempos, os estúdios de Hollywood lançam num curto espaço de tempo filmes de temática bastante parecida. Foi assim com "Armageddon" e "Impacto Profundo" em 1998, "O Show de Truman" e "Edtv" em 1998/99, "Curtindo a Liberdade" e "A Filha do Presidente" em 2004, "O Ilusionista" e "O Grande Truque" em 2006, e mais recentemente, "Sexo sem Compromisso" e "Amizade Colorida" em 2011. Obviamente, as comparações são inevitáveis e, exatamente por isso, o lançamento de dois filmes baseados no conto da Branca de Neve no mesmo ano deu o que falar.
Entretanto, os dois filmes não podiam ser mais diferentes um do outro. Enquanto "Espelho, Espelho Meu", lançado no início do ano, é uma comédia familiar colorida e alegre, "Branca de Neve e o Caçador" é um épico de ação recheado de efeitos especiais e sequências de batalha. Porém, apesar do potencial, esta adaptação sombria do conto dos irmãos Grimm deixa um gosto de decepção ao final da sessão.
No longa, Branca de Neve é uma jovem que vive trancafiada numa cela dentro de uma das torres do castelo da rainha Ravenna, sua bela e amargurada madrasta. Um dia, porém, Branca consegue fugir e se refugia na Floresta Negra, onde conhece o Caçador, um viúvo que havia sido contratado pela rainha para capturá-la. Entretanto, o Caçador simpatiza com a garota e ambos decidem se unir para acabar com o reinado de Ravenna.
Para início de conversa, quero deixar bem claro que não achei "Branca de Neve e o Caçador" um filme ruim, mas sim um projeto mal-aproveitado. O roteiro, apesar de ter sido escrito a seis mãos, peca em não trazer elementos novos realmente interessantes ao conto medieval, exceto por um discurso feminista que se encaixa bem na história. O filme, que já demora a dar início à sua história propriamente dita, não tem um único momento em que o espectador fica na ponta da cadeira, genuinamente animado. Pelo contrário, quando o filme parece que vai empolgar, murcha e fica por isso mesmo.
Além disso, certos momentos parecem extremamente forçados. Um exemplo é a sequência em que Branca de Neve escapa do castelo de sua madrasta. Ela, simplesmente, ficou presa numa masmorra por quase toda a vida, mas ainda assim, consegue nadar em alto mar e cavalgar como uma experiente amazona, despistando os funcionários da rainha. Isso sem contar que em apenas alguns dias ela se torna uma verdadeira guerreira, sabendo empunhar uma espada com se fizesse isso há muito tempo.
O elenco também está insosso. Kristen Stewart está melhor aqui do que em todos os filmes da saga Crepúsculo juntos, mas continua usando e abusando de seus trejeitos característicos. Chris Hemsworth, apesar de ser aquele com o melhor desempenho entre o trio de protagonistas, ainda interpreta o Caçador como uma versão menos shakesperiana de Thor. Mas sem dúvida alguma a maior decepção é Charlize Theron. Não só a sua personagem, a rainha, tão presente nos trailers e pôsteres do filme, aparece basicamente no início e no fim do filme, a sua interpretação é bem acima do tom, cheia de caras e bocas. Enfim, nem parece aquela atriz que ganhou um Oscar por "Monster - Desejo Assassino" e que consegue ter boas performances até em filmes medianos.
Felizmente, a equipe técnica ampara com muita competência o diretor Rupert Sanders. Os efeitos especiais são muito bons, a trilha sonora de James Newton Howard se encaixa perfeitamente com a proposta do filme, a fotografia de Greig Fraser, apesar de às vezes ser um pouco escura demais, é muito bonita, o figurino da ótima Colleen Atwood é extremamente bem-feito, a direção de arte é notável, e por aí vai.
Então, apesar de ser perfeitamente suportável e tecnicamente impecável, "Branca de Neve e o Caçador" decepciona, pois poderia ter sido muito mais do que apenas um colírio para os olhos.