quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Assassinos por Natureza (Natural Born Killers)


Dir.: Oliver Stone; Escrito por David Veloz, Richard Rutowski e Oliver Stone; Com Woody Harrelson, Juliette Lewis, Robert Downey Jr., Tommy Lee Jones. 1994 - Warner (118 min. - 18 anos)


Oliver Stone sempre foi conhecido por ser uma figura polêmica, seja dentro ou fora do mundo do cinema. Ao mesmo tempo em que é simpatizante de figuras geralmente criticadas como os líderes latino-americanos Hugo Chávez e Fidel Castro, Stone também é famoso por seus filmes que usam e abusam da violência, da política e do criticismo social. Entre suas obras mais famosas (e controversas) estão "JFK - A Pergunta que não Quer Calar" e "The Doors", entretanto o seu filme mais polêmico é, talvez, "Assassinos por Natureza" de 1994.

Baseado num roteiro originalmente escrito por Quentin Tarantino, o longa conta a saga de um casal de assassinos em série, Mickey e Mallory Knox, que, por mera diversão, tocam o terror por onde passam, deixando um verdadeiro rastro de sangue. Enquanto isso, o filme também mostra a ascensão do casal à fama devido aos seus atos de carnificina e o aumento de sua popularidade entre a população norte-americana.

Com um visual marcante, "Assassinos por Natureza" já deixa a sua marca logo na sequência de abertura, em que o casal assassina diversas pessoas dentro de uma lanchonete no meio do deserto. Alternando a fotografia entre cores vibrantes e o clássico preto-e-branco, cortes rápidos e abundantes, uma trilha-sonora de tirar o fôlego e uma mistura de realismo com delírio, o que é prometido é um filme incrível. Entretanto, apesar do longa continuar esteticamente interessante, a história, que é o que mais importa, começa a mostrar os seus defeitos.

Com uma ótima e bem construída crítica à imprensa e à sociedade altamente influenciável, fazendo uso de inúmeros recursos, incluindo um apresentador de tevê de moral duvidosa (vivido com louvor por Robert Downey Jr.) e um comercial da Coca-Cola para efeito cômico, "Assassinos por Natureza" peca onde deveria ter exatamente mais cuidado: na construção de seus personagens principais.

Mickey e Mallory são devidamente apresentados através de uma sequência bastante interessante (e sinistra também) que copia clássicas sitcoms como "I Love Lucy". Entretanto, a partir do momento em que os dois saem estrada afora em sua jornada de assassinatos, a história dos dois começa a ficar bem rasa, dando maior ênfase à violência e à estética do que ao drama dos protagonistas, que poderia ter sido muito mais explorado.

Exemplo desse desleixo com os personagens são as cenas de discussões entre Mickey e Mallory, que poderiam ser mais calmas, dando, portanto, mais chances aos atores (os ótimos Woody Harrelson e Juliette Lewis) de mostrar o seu potencial dramático. Mas ao invés disso, o diretor insiste em manter a edição frenética, impedindo o envolvimento do espectador com os dois serial killers (algo que tornaria o filme bem mais interessante, pois criaria uma sensação de mal-estar no público por simpatizar com uma dupla de criminosos impiedosos).

Portanto, apesar dos maiores esforços de seu talentoso elenco, "Assassinos por Natureza" perde a oportunidade de ir além em sua crítica por preferir focar em sangue e visual do que no psicológico de duas figuras visivelmente perturbadas, mas ao mesmo tempo, perdidamente apaixonadas uma pela outra. É um bom filme, mas poderia ter sido melhor.

NOTA: 3/5


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ted (Ted)


Dir.: Seth MacFarlane; Escrito por Seth MacFarlane, Alec Sulkin e Wellesley Wild; Com Mark Wahlberg, Mila Kunis, Seth MacFarlane. 2012 - Universal (106 min. - 16 anos)


É algo comum na obra de Seth MacFarlane seres irreais viverem lado a lado com pessoas como eu e você. Em sua criação mais famosa, "Uma Família da Pesada", um cachorro falante e culto e um bebê com sotaque britânico moram na mesma casa que uma típica família de classe média norte-americana. Em "The Cleveland Show", um dos amigos do protagonista é um urso que fala, já em "American Dad" há um peixinho dourado também falante e um alienígena que adora se travestir. Em todos os casos, os humanos agem naturalmente diante dessas criaturas excêntricas, como se não fosse estranho animais falarem ou outras bizarrices. Portanto, não é surpresa que para a sua estreia como diretor de longa-metragens, com o filme "Ted", MacFarlane tenha escolhido falar sobre um ursinho de pelúcia que, pasmem!, fala e adora beber e fumar maconha.


O filme conta a história da amizade entre um homem de 35 anos, chamado John, que não atingiu nenhum objetivo em sua vida e o ursinho pervertido do título. A maior diversão dos dois é fumar maconha o tempo inteiro e assistir a um dos seus filmes favoritos da infância, "Flash Gordon" (sim, aquela pérola kitsch dos anos 1980 com trilha sonora da banda Queen).

Entretanto, a namorada de John, Lori, não aguenta mais ver o seu namorado desperdiçar a sua vida de forma tão estúpida, apesar de gostar do estranho amigo de seu companheiro. Portanto, ela dá um ultimato: ou Ted se muda e para de levar John para o mal caminho ou, então, o longo relacionamento de 4 anos entre John e Lori acaba. Assim, para não perder o seu grande amor, John inicia uma mudança em seu comportamento, que tem como consequência grandes mudanças na sua amizade com Ted.

Se você leu essa sinopse e achou-a bem bobinha, pode apostar que você não é único. Ela é bobinha mesmo. Entretanto, se tem algo que Seth MacFarlane consegue fazer muito bem é pegar algo já batido e transformar em algo divertido e original. As suas séries de animação são assim, incluindo "Uma Família da Pesada", que para muitos é uma cópia mal-feita de "Os Simpsons". E não é diferente com "Ted".

Primeiro de tudo, não há dúvidas de que MacFarlane se beneficiou e muito do cinema, uma vez que com "Ted" ele conseguiu levar a sua irreverência e humor politicamente incorreto ao extremo, coisa que não é possível na televisão. Afinal os seus programas passam na Fox norte-americana, um dos maiores canais abertos do país. Portanto, espere de "Ted" bastante palavrões, drogas e sexo. Entretanto, nada vem de forma gratuita, muito pelo contrário, tudo acontece de forma inteligente e até traz alguma crítica social pertinente. Um exemplo disso é o chefe de Ted, que aceita todas as safadezas que o funcionário faz, só porque ele é aquele típico americano deprimido, que não aguenta mais a vida, muito menos o seu emprego. Então, se ele pode evitar qualquer tipo de aborrecimento, melhor para ele.

Outra grande qualidade de "Ted" é o seu ótimo elenco. Encabeçado por Mark Wahlberg, por sinal, ótimo como John Bennett, mostrando que ele tem talento cômico de sobra, o elenco conta ainda com a divertidíssima Mila Kunis - colega de MacFarlane em "Uma Família da Pesada" e estrela em ascensão - como Lori, a namorada de John, Joel McHale - dos ótimos humorísticos "The Soup" e "Community" - como o chefe de Lori, e o próprio Seth MacFarlane dublando incrivelmente bem Ted.

Isso sem contar com as ótimas cameos (aquelas pequenas aparições de gente famosa) salpicadas ao longo do filme. Entre as celebridades que fazem uma pontinha estão Norah Jones, Sam J. Jones (o intérprete de Flash Gordon no filme de 1980) e Ryan Reynolds. Todos sacaneando a si mesmos de forma memorável.

Quem também aproveita ao máximo a exposição cinematográfica é o compositor Walter Murphy, parceiro de longa data de MacFarlane na televisão. Em "Ted", ele mantém o seu estilo característico com muito sucesso e quem sabe não arranje mais trabalhos no cinema?

Enfim, apesar de não ser o filme épico que poderia ter sido, deixando um pouco a desejar aos fãs de "Uma Família da Pesada" e afins, como eu, "Ted" é ainda assim uma divertidíssima comédia fiel ao estilo Seth MacFarlane de fazer rir. Ainda bem! Porque nos tempos de hoje o politicamente incorreto é cada vez mais bem-vindo.

NOTA: 3.5/5


domingo, 23 de setembro de 2012

Intocáveis (Intouchables)


Dir.: Olivier Nakache e Eric Toledano; Escrito por Olivier Nakache e Eric Toledano; Com François Cluzet, Omar Sy, Anne Le Ny. 2011 - Califórnia (112 min. - 14 anos)


Há pouco menos de uma semana foi anunciada pelo Centro Nacional do Cinema e da Imagem Animada da França a escolha do filme que vai representar o país na corrida pelo Oscar de melhor filme estrangeiro: "Intocáveis" dos diretores Olivier Nakache e Eric Toledano. Não é por nada, uma vez que o filme não só foi bem recebido pela crítica francesa e internacional, como também vem tendo uma extraordinária jornada pelos cinemas de todo mundo, tanto que se tornou há pouco o filme francês de maior arrecadação fora da França, ultrapassando "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" de Jean-Pierre Jeunet. Além disso, em seu país de origem, é o segundo filme nacional mais visto, perdendo apenas para "A Riviera não é Aqui" de Dany Boon. No Brasil não é diferente, já que aqui o filme já ultrapassou a marca dos 200 mil espectadores - ótimo número para um filme europeu.

Entretanto, não precisa ser um gênio para entender o porquê de um filme como "Intocáveis" fazer tanto sucesso. Ele é engraçado, emocionante, universal, atemporal... Enfim, é um filme com o qual qualquer um de nós pode se identificar, pois trata de seres humanos e não de meros robôs sem expressão ou personalidade.

O filme conta a história de Driss, um habitante da periferia de Paris que não tem nenhum rumo na vida. Na verdade, o seu maior objetivo é receber todo mês o seu seguro-desemprego e ficar até altas horas da madrugada bebendo e fumando com os amigos. Entretanto tudo muda quando ele é contratado por um empresário milionário tetraplégico para ser o seu "enfermeiro". É claro que de início Driss não gosta nada disso, porém com o tempo, ele e seu patrão, Phillipe (o deficiente), ficam próximos um do outro e desenvolvem uma grande amizade.

Só pela sinopse já deu para perceber que "Intocáveis" tem a história mais batida de todas: aquela em que os dois opostos se atraem (no caso, o pobre e o rico que se tornam amigos). Entretanto, o que poderia ter sido apenas mais um filme meloso é na verdade uma ótima comédia, graças ao seu elenco incrivelmente carismático, principalmente a dupla de protagonistas, François Cluzet e Omar Sy. 

Quando juntos em cena, Cluzet e Sy proporcionam ótimos momentos tanto cômicos como dramáticos, que focam, geralmente, nas diferenças sociais entre os dois personagens. Uma das melhores cenas do filme é uma em que Phillipe pede para uma pequena orquestra tocar diversos clássicos da música erudita numa forma de criar uma curiosidade de Driss pelos grandes compositores. O máximo que ele consegue é ligar as músicas a comerciais e a centrais de telemarketing.

Outro ponto positivo do filme é o roteiro, escrito pelos dois diretores, que não tem medo de brincar com o politicamente incorreto. Diversas cenas fazem piada com a condição de Phillipe, entretanto nenhuma delas tem o propósito de ofender, o que diferencia esse filme de outros com o mesmo tipo de humor, mas que infelizmente ao invés de divertir apenas provocam protestos e situações desagradáveis.

No final das contas, "Intocáveis" está longe de ser um filme original, tanto que muitos vão chamá-lo de bobinho, tolo e até de americanizado. Entretanto consegue formar uma identidade própria a partir de seu roteiro inteligente, mas acessível, e de seu elenco de primeira linha.


NOTA: 4/5



sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Os Mercenários 2 (The Expendables 2)


Dir.: Simon West; Escrito por Richard Wenk e Sylvester Stallone; Com Sylvester Stallone, Jason Statham, Dolph Lundgren, Chuck Norris. 2012 - Imagem (103 min. - 16 anos)


Quando "Os Mercenários" foi anunciado, o que não faltou foi marmanjo ficando animado por ter a oportunidade de ver em um único filme os maiores astros do cinema de ação do passado e do presente arrebentando com vilões em grande estilo. Entretanto, ninguém sabia se a empreitada ia dar certo ou se ia ser um tiro n'água. Felizmente ou infelizmente (você decide, pois ainda não vi o primeiro filme), "Os Mercenários" foi um grande sucesso de bilheteria, garantindo, então, a produção de uma sequência. Daí surgiu "Os Mercenários 2".

Para ser sincero, eu nem ia assistir a esse filme nos cinemas, afinal não tinha visto o primeiro filme, portanto a sua sequência não me interessava. Entretanto, lá fui eu ver o longa de Sylvester Stallone e companhia esperando uma das duas coisas: ou o filme ia ser péssimo ou ia ser tão ruim, mas tão ruim que seria bom. No final das contas, não foi nenhuma das duas coisas porque "Os Mercenários 2" é um ótimo filme. E ponto final.

Mas, afinal, como é que esta pérola do cinema de ação me surpreendeu tanto positivamente? Simples, ele resolveu brincar com o que tinha em mãos: atores conhecidos mais pelo seu físico do que pela sua capacidade de atuar, violência extrema, diálogos risíveis, vilões caricatos e por aí vai.

Primeiro de tudo, o elenco não decepciona e consegue ter boas atuações, mas ao mesmo tempo não deixa de lado o seu espírito de machão assassino. A violência é bem gráfica. O que não falta é sangue voando para tudo que é lado! Os diálogos são bem cafonas de propósito. E o vilão chamado Villain (com ênfase na última sílaba), vivido por ninguém menos que Jean-Claude Van Damme (o símbolo eterno do "Domingo Maior"), é deveras canastrão. Isso sem contar o "lindo" sotaque belga digno de muitas risadas do ator. Agora, imagina tudo isso sendo satirizado. É diversão certa!

A história aqui é o de menos! O que digo é que envolve um esquema de plutônio que se utilizado pode iniciar uma guerra nuclear. Enfim, aquele típico enredo idiota de filme de ação dos anos 80, mas que de alguma maneira, diverte.

Seja pela sobrancelha eternamente levantada de Sylvester Stallone (consequência das inúmeras injeções de botox a que o ator se submeteu), pela cameo memorável de Chuck Norris, pela heroína tão durona quanto os brucutus ou pelo simples fato de ser, ao mesmo tempo, paródia e homenagem ao tresloucado cinema de ação de 20, 30 anos atrás, "Os Mercenários 2" merece a sua atenção como uma diversão descerebrada de altíssima qualidade.

NOTA: 4/5


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Margaret (Margaret)


Dir.: Kenneth Lonergan; Escrito por Kenneth Lonergan; Com Anna Paquin, J. Smith-Cameron, Jeannie Berlin, Jean Reno, Matthew Broderick, Matt Damon, Mark Ruffalo. 2011 - Fox (150 min.)


Há várias maneiras de alimentar uma curiosidade por um filme. Pode ser um trailer eficiente, um elenco incrível, um renomado diretor, uma intrigante premissa ou até uma grande polêmica. Este último é o caso de como eu criei uma certa atração por "Margaret", do diretor Kenneth Lonergan.

Esse filme, apesar de ter um elenco recheado de caras conhecidas como Anna Paquin, Jean Reno, Matthew Broderick e Matt Damon por pouco não é lançado, pelo simples fato do  diretor nunca conseguir finalizá-lo. Filmado ao longo de três meses em 2005, "Margaret" passou anos e anos sendo editado e re-editado, gerando uma longa novela que chegou à elaboração de dois processos judiciais e ao envolvimento de Martin Scorsese - que junto de sua editora de longa data, Thelma Schoonmaker, tentou montar uma versão final do longa que agradasse ao diretor e ao estúdio - e dos produtores Scott Rudin, Sidney Pollack e Anthony Minghella, sendo que os dois últimos morreram antes do filme ser finalmente lançado.

No final das contas, "Margaret" estreou em 2011, seis anos após o fim das filmagens, tendo uma quase nula campanha de divulgação e recebendo opiniões divergentes dos críticos especializados. Mas, enfim, "Margaret" vale esse drama todo? Não, mas nem por isso deixa de ser um bom filme.

O longa acompanha o drama de uma adolescente de 17 anos chamada Lisa, que após presenciar o terrível atropelamento de uma mulher por um ônibus, passa a se sentir culpada pelo ocorrido, já que ela foi a responsável pela distração do motorista no momento do acidente. Daí, ela inicia uma busca por justiça para, enfim, ficar com a consciência limpa.

Entretanto, essa é apenas a espinha dorsal do filme, já que várias outras tramas envolvendo Lisa se desenrolam ao longo de seus 150 minutos de duração, incluindo a relação entre a jovem e sua mãe atriz, o seu envolvimento com o professor de Geometria e perda da sua virgindade com um garoto já comprometido.

A maior razão para se assistir a "Margaret", porém, nem é toda a polêmica envolvendo a pós-produção do filme, mas sim a incrível performance de Anna Paquin. Apesar de ser um pouco velha demais para o papel de Lisa, afinal ela já tinha 24 anos durante as filmagens, é ela quem consegue sustentar todas as histórias ao seu redor, algo bastante difícil, uma vez que ela interage com diversos atores diferentes em diversas tramas diferentes. Não é por nada que ela ganhou o seu primeiro Oscar como atriz coadjuvante aos 11 anos de idade pelo filme "O Piano" como também ainda é o principal (se não o único) motivo para ainda se assistir a "True Blood" da HBO.

Outros pontos altos do filme são as atuações de outras duas atrizes, não muito conhecidas, mas de extrema importância na trama do longa. A primeira delas, J. Smith-Cameron, vive Joan, a mãe da protagonista. Paquin e Cameron possuem ótimas cenas juntas, nas quais as duas têm chance de mostrar todo o seu potencial dramático, tanto em cenas tristes (como as brigas entre as personagens) como também em momentos felizes (como a sequência que fecha o filme). A outra atriz é Jeannie Berlin, que vive Emily, a melhor amiga de Monica, vítima do acidente que dá o pontapé inicial no filme. Indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante em 1972 por "The Heartbreak Kid", Berlin é outra que tem grandes momentos com Paquin, principalmente numa discussão entre as duas sobre a morte de Monica, gerando um desentendimento entre elas.

Entretanto, o filme tem seus problemas. O principal deles é exatamente a união de todas essas histórias durante o tempo de duração do filme. Como são várias, muitas delas são pouco exploradas ou simplesmente desaparecem. Um exemplo disso é uma trama envolvendo a paixonite de um nerd por Lisa. No início do filme, ela ganha bastante atenção, porém com o desenrolar do filme, ela literalmente some. 

Isso sem contar as inúmeras cenas em que Lisa e seus colegas de turma debatem assuntos como a qualidade dos presidentes norte-americanos ou o terrorismo. Apesar de algumas dessas cenas serem interessantes e ajudarem a construir o caráter da protagonista, elas são muitas e não tão importantes à história em si.

Longo, bagunçado, imperfeito, mas também envolvente, emocionante e bem-feito, seja na direção, nas atuações ou na construção dos diálogos, "Margaret" demorou para ver a luz de um projetor, mas quando a viu conseguiu cumprir o seu papel.


NOTA: 3.5/5


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Um Divã para Dois (Hope Springs)


Dir.: David Frankel; Escrito por Vanessa Taylor; Com Meryl Streep, Tommy Lee Jones, Steve Carell. 2012 - Imagem (100 min.)


Realmente, parece que o mundo do entretenimento está finalmente descobrindo, ou melhor, valorizando um de seus públicos mais cativos: a terceira idade. Há pouco tempo atrás era difícil ver filmes, séries e programas de tevê voltados a essa faixa etária que não fossem relacionados, principalmente, à saúde. Entretanto, a situação está mudando: se antigamente, na televisão norte-americana, a grande sacada era veicular propagandas voltadas aos jovens, atualmente, o que não falta são anúncios que procuram atrair os aposentados, para o bem ou para o mal, é verdade. E no cinema essa mudança também é visível, uma vez que cada vez mais filmes voltados para os sexagenários, septuagenários, octogenários etc. estão sendo lançados. Um exemplo recente foi o inglês "O Exótico Hotel Marigold", que reuniu grandes estrelas do cinema britânico como Judi Dench e Maggie Smith, e ainda foi um sucesso de bilheteria, arrecadando mais de 130 milhões de dólares em cima de um orçamento de apenas 10 milhões. Não é por nada, então, que "Um Divã para Dois" tenha sido lançado e venha tendo uma competente carreira nos cinemas.

Protagonizado por dois veteranos de Hollywood, Meryl Streep e Tommy Lee Jones, o filme de David Frankel acompanha um casal que viaja até o estado norte-americano do Maine para fazer parte de um tratamento intensivo com um conhecido terapeuta, vivido por Steve Carell, afim de salvar o seu casamento decadente. Não é surpresa que ninguém está feliz com esse cenário, mesmo que por motivos diferentes. Kay (Streep) não aguenta mais dormir num quarto separado de seu marido nem da falta de carinho que este tem com ela. Por outro lado, Arnold (Jones) está bastante estressado por ter sido indiretamente obrigado por sua esposa a participar do tratamento. Esse é o ponto de partida de "Um Divã para Dois", uma comédia irregular, mas muito divertida sobre os desejos de um casal da terceira idade.

O principal ponto a ser notado é a franqueza com a qual os personagens falam sobre sexo. Em nenhum momento o diálogo parte para a baixaria ou coisa parecida, mas pelo contrário, todas as conversas ou situações de conteúdo sexual são tratadas de forma realista, mas ao mesmo tempo sutil. Enfim, em "Um Divã para Dois" masturbação, sexo oral, ménage a trois: tudo isso é motivo de piada, mas de uma forma nem um pouco vulgar, algo importante num filme desse gênero. Afinal, não estamos falando de nenhuma comédia escrachada.

Parte do sucesso desse equilíbrio entre sexo e sutileza se deve aos dois atores principais. Streep e Jones não só têm uma ótima química juntos como também sabem administrar muito bem as piadas mais sugestivas. Num certo momento, por exemplo, Meryl tenta, de forma fracassada, fazer sexo oral em Jones dentro de um cinema. Essa cena tinha tudo para dar errado e fazer com que os atores parecessem dois ridículos, mas não, Meryl e Tommy se saem bem e fazem desta cena uma das melhores do longa. 

No final das contas, percebe-se que "Um Divã para Dois" acerta exatamente onde, por exemplo, "Sex and the City 2" erra de maneira vergonhosa. No filme de Sarah Jessica Parker e cia. é ridículo ver quatro quarentonas achando que tem vinte e poucos anos, falando de sexo como se tivessem acabado de entrar na faculdade, já em "Um Divã para Dois" os protagonistas realmente parecem duas pessoas de sessenta e poucos anos falando sobre sexo. Nesse sentido, é louvável, portanto, o trabalho da roteirista Vanessa Taylor.

Entretanto, nem tudo são flores. O filme em certos momentos parece novelesco demais, o que é apenas realçado pela trilha sonora infeliz composta por Theodore Shapiro. Isso sem contar na seleção de músicas digna do setlist da JB-FM. Além disso, Steve Carell me pareceu subaproveitado no filme. Ele, que é um grande comediante, não tem momentos de destaque, uma vez que ele basicamente serve de escada para Meryl e Tommy desenvolverem os seus diálogos.

Engraçado, bem dirigido, com excelentes atuações de seus protagonistas e, por que não, um pouco cafona, "Um Divã para Dois" não é perfeito, mas nem por isso merece ser ignorado.

NOTA: 3.5/5 


O Gato do Rabino (Le Chat du Rabbin)


Dir.: Antoine Delesvaux e Joann Sfar; Escrito por Sandrina Jardel e Joann Sfar; Com François Morel, Mathieu Amalric, Hafsia Herzi. 2011 - Imovision (100 min.)


Logo no início de "O Gato do Rabino", há uma narração feita pelo próprio bicho do título explicando o porquê dos judeus preferirem ter gatos a cachorros. A explicação é bastante simples: os judeus não gostam de cachorros pelo fato de eles estarem sempre atrás de seu dono, como se o perseguisse, e como os judeus já foram perseguidos diversas vezes, eles se sentem desconfortáveis nessa situação. Por isso, eles preferem os gatos, já que estes são independentes e não fiquem rodeando o dono o tempo inteiro. Digamos que esta pequena fala já dá uma amostra do que vai ser o resto do filme.

"O Gato do Rabino", vencedor do César 2012 (o Oscar do cinema francês) de melhor filme de animação, está longe de ser um filme para crianças, pelo contrário, o seu público alvo são os adultos. Um exemplo disso é a própria temática do filme, extremamente ligada à religião. Além disso, há algumas (mas sutis) cenas de sexo e outras sequências mais violentas. Só esse já é um motivo para conferir o filme, já que animações adultas são raras de se encontrar em nossos cinemas. Mas há outro motivo: "O Gato do Rabino" é muito bom.

O longa conta a história de um grupo formado por um gato e um burro falantes, dois rabinos e dois russos - um judeu e outro constantemente bêbado -, que viajam à bordo de um mini-trator Citroën 1925 da Argélia até a Etiópia, onde supostamente os judeus vivem em paz. Entretanto, até chegar nessa história principal, o filme narra pequenas histórias que ajudam na apresentação e construção dos personagens. Estes contos explicam desde como o gato adquiriu o dom da fala até como o judeu russo chegou à Argélia dentro de uma caixa.

A maior qualidade de "O Gato do Rabino" é a forma como trata as religiões. Os roteiristas decidiram por satirizar, mas ao mesmo tempo homenagear diversas crenças, principalmente o judaísmo e a fé muçulmana. Dessa forma, o filme possui piadas inteligentes, mas que ao mesmo tempo não causam nenhum mal estar no espectador.

Outro triunfo dessa animação francesa são os seus personagens. O narrador da historia, o gato que quer fazer um bar mitzvah, é uma figura bastante interessante por ser irônico, estressado, irritante, mas também muito divertido. O seu dono, o rabino, também é ótimo, mas exatamente por ser o oposto do seu bichinho de estimação. Ele é basicamente um doce de pessoa. Outro personagem muito bom é o russo Vastenov, um bebedor inveterado de vodca, responsável por ótimos momentos no filme como quando compara o seu amor à bebida e ao tabaco ao amor que o rabino sente por Deus.

Um longa de cores e opiniões fortes, "O Gato do Rabino" não é uma unanimidade (posso apostar que muitos não vão gostar), mas merece a sua atenção por ser um dos filmes de animação mais interessantes (e excêntricos) do ano.


P.S. - Para quem for fã do Tintim, fique atento à participação do personagem perto do final do filme.


NOTA: 4/5