domingo, 26 de maio de 2013

Terapia de Risco (Side Effects)


Dir.: Steven Soderbergh; Escrito por Scott Z. Burns; Com Jude Law, Rooney Mara, Catherine Zeta-Jones, Channing Tatum. 2013 - Diamond Films (106 min. - 14 anos)


Há cerca de um ano ou dois atrás, o diretor norte-americano Steven Soderbergh anunciou que iria fazer uma pausa de tempo indeterminado em sua carreira cinematográfica para passar a pintar em tempo integral. Apesar da surpresa, não é difícil de entender a sua decisão. Extremamente prolífico (26 filmes em 24 anos), o diretor além de dirigir também edita e fotografa a maioria de seus filmes sob os pseudônimos Mary Ann Bernard e Peter Andrews, o que torna a produção de seus filmes algo muito exaustivo. Além disso, na época em que fez as polêmicas declarações, o diretor já tinha engatilhado três longas: "Magic Mike" (estreou em 2012), "Behind the Candelabra" (recém-exibido no Festival de Cannes) e este "Terapia de Risco, que estreou nos EUA no início do ano e que chegou agora ao Brasil. Sobre "Magic Mike", tenho que admitir que fiquei decepcionado, quanto a "Behind the Candelabra", este, apesar de ter sido exibido em Cannes (onde recebeu muitos aplausos), foi realizado como um telefilme para a HBO. Sobra, então, "Terapia de Risco", que, oficialmente falando, é o último filme de Soderbergh direcionado para as telonas e, novamente, fiquei decepcionado.

Roteirizado por Scott Z. Burns, que colaborou com o diretor no eficiente "Contágio", o longa acompanha Emily, uma jovem que espera ansiosamente a saída de seu marido da prisão. Quando este é finalmente libertado, a moça começa a se sentir uma má esposa, incapaz de ajudá-lo a se reintegrar na sociedade, e por isso, tenta se suicidar ao bater, propositalmente, o carro contra uma parede.

No hospital, enquanto se recupera do "acidente", Emily conhece o dr. Jonathan Banks, que de imediato percebe as reais intenções da jovem. Para evitar que um novo desastre aconteça, a moça se dispõe a iniciar um tratamento psiquiátrico com Banks. Dessa forma, Emily começa a tomar antidepressivos, que, a curto prazo, realmente melhoram a sua vida conjugal e sexual. Porém, quando os efeitos colaterais dos remédios começam a aparecer, tudo muda e a jovem comete um crime enquanto estava sob o efeito das drogas. Crime esse que terá consequências graves tanto à paciente quanto ao médico.

O ponto de partida do filme é realmente interessante, uma vez que cria todo o cenário para o que poderia ser um intrigante thriller ou até mesmo um intenso filme de tribunal. Porém, se inicialmente o filme se apresenta como uma incisiva crítica à cultura dos remédios nos EUA, onde até anúncios de remédios tarja preta são veiculados em rede nacional, em pouco tempo o longa começa a perder força, tanto que até mesmo a primeira grande reviravolta da história não causa muito impacto. 

Ainda assim, não me dei por vencido e fiquei esperando que o filme finalmente engrenasse. Entretanto, isso não aconteceu. Parecendo que estava sob o efeito de antidepressivos, assim como sua protagonista, em nenhum momento o filme empolga ou cria qualquer tipo de tensão, algo que esperava que acontecesse durante o julgamento de Emily. Por sinal, esse trecho é muito mal aproveitado, já que daria chance aos realizadores do filme questionarem mais uma vez o consumo abusivo de remédios pesados pela população norte-americana, como também usaria o mote dramático do "quem é culpado?": a paciente que cometeu o crime ou o médico que não interrompeu o tratamento? 

Ao invés disso, a trama resolve focar na figura do médico que tenta descobrir se Emily estava realmente drogada na hora do crime ou se foi tudo intencionado, assim como o seu suicídio. Já achei essa escolha equivocada, mas se, no mínimo, a história tivesse uma conclusão satisfatória, até que isso não seria um grande problema. Porém, o clímax do filme é ridículo e até mesmo apelativo, sendo digno dos piores novelões das oito. Mas o mais engraçado é que essa péssima revelação é levada super a sério, o que deixa a situação ainda pior.

Entretanto, apesar dos pesares, o filme está longe de ser um fracasso e serve até mesmo de entretenimento passageiro. Entre suas qualidades estão, como de costume, o trabalho de Soderbergh (ou Peter Andrews, como preferir) na direção de fotografia do filme e o desempenho do elenco, encabeçado por Rooney Mara, Jude Law, Catherine Zeta-Jones e Channing Tatum, que apesar de não estarem memoráveis, conseguem cumprir direitinho os seus respectivos papéis.

Assim como todo diretor com uma média impressionante de um ou até dois filmes por ano, Soderbergh possui uma filmografia de altos e baixos, e "Terapia de Risco" está entre esses últimos. Porém, ainda temos que conferir "Behind the Candelabra" para termos a total certeza se o período sabático foi uma boa ou má escolha do prolífico realizador.

NOTA: 2.5/5


Em Transe (Trance)


Dir.: Danny Boyle; Escrito por Joe Ahearne e John Hodge; Com James McAvoy, Vincent Cassel, Rosario Dawson. 2013 - Fox (101 min. - 16 anos)


Como todo mundo sabe, o diretor Danny Boyle foi o responsável por todo o espetáculo de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres de 2012, isto é, se você adorou as criancinhas dançando em cima de macas de hospital ou do esquete que mostrava o encontro da Rainha Elizabeth II com James Bond, pode agradecer a ele. Porém, quem é conhecedor da filmografia de Boyle sabe que o diretor adora fazer filmes bem sanguinolentos, que em nada se assemelham à sua abertura das Olimpíadas. Portanto, não é de se espantar que em meio aos preparativos à grande festa do esporte, o diretor resolveu filmar um filme menor, mas nem por isso menos ambicioso: "Em Transe".

Protagonizado por Simon, segurança de uma casa de leilões londrina, o filme tem como ponto de partida um assalto feito por uma gangue que visava roubar o quadro "Voo das Bruxas" do pintor espanhol Goya. Durante o assalto, Simon quebra o protocolo e tenta impedir o roubo, o que faz com que o líder da gangue, Franck, lhe dê uma porrada na cabeça, deixando-o desacordado.

Pouco depois, quando Franck descobre que só roubou a moldura do quadro, ficamos sabendo que Simon estava mancomunado com a gangue desde início e que o seu dever era exatamente facilitar o furto da obra. Porém, surge uma dúvida: onde está quadro? Quem sabe disso é Simon, entretanto, como consequência da pancada que levara na cabeça, ele sofreu um tipo de amnésia, que fez com que ele esquecesse onde ele tinha deixado o quadro.

Para resolver o problema, uma vez que as sessões de tortura não estavam dando resultados, Franck decide contratar um hipnotizador que possa buscar dentro dos confins do cérebro de Simon a lembrança do local onde o quadro está guardado. É aí que entra Elizabeth na história, e o que começa como uma mera relação profissional se torna um triângulo amoroso pra lá de intrincado entre a moça, Franck e Simon.

Primeiro de tudo, ficam os elogios à direção de Boyle, que continua muito boa tanto técnica quanto artisticamente. A produção de "Em Transe" é toda de primeira: a fotografia inspirada de Anthony Dod Mantle (que usa e abusa de reflexos de espelhos e paredes de vidro); a edição frenética, mas compreensível, de Jon Harris; a direção de arte etc. Tudo contribui para um longa esteticamente impecável.

Além disso, o elenco está em ótima forma. James McAvoy faz ótimo uso de seu carisma para deixar Simon agradável ao público, mesmo que ele seja um homem endividado pelo jogo e de caráter, no mínimo, duvidoso. Vincent Cassel está bem como o vilão Franck, um homem que começa o filme puramente mal, mas que com o passar do tempo deixa o seu coração aparecer, e Rosario Dawson, como Elizabeth, é a que mais se destaca dentre o elenco, não só por ser a única mulher, mas também por ter a personagem mais complexa do trio de protagonistas.

Entretanto, estaria mentindo se dissesse que "Em Transe" não tem alguns problemas sérios, principalmente em seu roteiro. Escrito por Joe Ahearne e John Hodge, o argumento do filme tem uma premissa bastante interessante e inusitada, do mesmo modo que funciona muito bem como thriller, especialmente em sua primeira metade. Entretanto, não há como negar que quanto mais a história avança, mais ela dá sinais de esgotamento. Quando o romance entre os três protagonistas começa a florescer, sente-se que o filme perde parte de seu impacto inicial, o que não deixa de causar uma certa decepção. Porém, nada supera a grande revelação final, que, apesar de ter algumas boas ideias, por vezes parece simplesmente absurda e até mesmo ridícula demais. Enfim, é um daqueles casos em que parece que os roteiristas começaram o trabalho bastante animados, mas foram perdendo a euforia com o tempo.

Mesmo assim, "Em Transe" está longe de ser um desperdício de tempo. Se o filme tem lá as suas falhas de roteiro, essas são quase completamente compensadas pelo bom trabalho de Boyle por trás das câmeras, pelo desempenho dos atores na frente destas e por sua ótima primeira hora.

NOTA: 3.5/5


domingo, 12 de maio de 2013

Dentro da Casa (Dans la Maison)


Dir.: François Ozon; Escrito por François Ozon; Com Fabrice Luchini, Ernst Umhauer, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner. 2012 - Califórnia Filmes (105 min. - 14 anos)


Desde os períodos mais remotos da História da humanidade, o homem sempre gostou de ouvir e contar histórias. Dramas, comédias, contos de fadas... Enfim, qualquer hora era hora de contar histórias. Não é de se espantar, portanto, o quanto a prensa de Gutenberg foi importante para todos nós, já que foi ela que possibilitou que histórias de diversos cantos do mundo fossem conhecidos em outros diversos cantos do mundo. E assim, a literatura, aliada às outras artes, se tornou um fator importantíssimo para a formação das culturas nacionais; até que chegou o cinema, que potencializou ainda mais o alcance de uma narrativa, dando-lhe novos traços e possibilidades. Por isso, por brincar com a importância das histórias na vida das pessoas, que "Dentro da Casa" é um filme tão bom.

Dirigido por François Ozon, o filme acompanha Germain, um professor de Francês que se vê desiludido com a vida e com seus alunos - que a cada ano parecem cada vez mais burros. Um dia, porém, ao corrigir uma bateria de redações deploráveis, ele lê uma que se destaca das outras; trata-se do texto de Claude Garcia. Em sua redação, o menino descreve o dia em que foi estudar na casa de um colega seu de turma, Rapha Artole. Porém, se a princípio a redação de Claude parece ser banal, tudo muda quando ele escreve "continua" no final do texto, o que desperta uma grande curiosidade em Germain. O professor, então, acaba encontrando um sentido para sua vida: incentivar aquele aluno a terminar de escrever aquela história, mesmo que isso abale a sua vida e a dos outros. Daí inicia-se uma história que mistura drama, comédia e suspense, e que prende o espectador do início ao fim.

Grande parte do sucesso de "Dentro da Casa" deve-se ao roteiro exemplar de Ozon. Como disse acima, o longa é uma amálgama de diversos gêneros, o que poderia ter resultado, nas mãos de um roteirista inexperiente, uma grande bagunça, que não saberia como equilibrar os diferentes tons da narrativa. Porém, Ozon consegue ultrapassar esse obstáculo e equilibra muito bem a comédia com o drama e o suspense. Em nenhum momento se sente que o filme dê prioridade a algum gênero específico; pelo contrário, é até difícil enquadrá-lo em alguma categoria.

Além disso, os personagens inventados por Ozon são bastante interessantes e complexos. Tudo começa com os dois protagonistas, Germain e Claude. Germain, num primeiro momento, é mostrado como um homem frio, que já perdeu as esperanças com a nova geração. Porém, com a entrada de Claude, a figura de Germain muda completamente, mostrando-se um homem manipulável e falho. Por outro lado, Claude inicia o filme como um garoto que apenas quer melhorar suas notas em Francês, mas que com o passar do tempo se mostra um jovem bastante maturo, e, por vezes, até mais inteligente do que seu próprio mestre. Por isso, a relação professor-aluno é bastante interessante, uma vez que as personalidades se invertem com o desenrolar da trama. Entretanto, vale a pena lembrar que as ótimas atuações de Fabrice Luchini (Germain) e Ernst Umhauer (Claude) são essenciais para trazer ainda mais vida ao texto, que já é de ótima qualidade.

Porém, o aspecto mais envolvente do roteiro de "Dentro da Casa" é a dualidade com a qual a trama se apresenta. Uma vez que todos os acontecimentos que ocorrem dentro da casa dos Artole são narrados por Claude em suas redações, não há como o espectador saber o que é verdade e o que é mentira. Fica no ar, portanto, uma contante dúvida, principalmente depois que Germain passa a dar dicas para Claude sobre como deixar a sua história mais emocionante.

A única ressalva que faço ao roteiro é às cenas relacionadas à inauguração da galeria de arte de Jeanne, esposa de Germain. Apesar de possuírem um ótimo senso de humor e de conterem uma química deliciosa entre Luchini e Kristin Scott Thomas, esses trechos, por vezes, parecem servir de mero alívio cômico à trama principal. Não é nada que prejudique o andamento do filme, mas também não é algo imperceptível.

Além do ótimo roteiro, "Dentro da Casa" conta com uma direção primorosa de Ozon. O diretor é daqueles que além de saber dirigir muito bem o seu elenco, consegue fazer um filme de extremo bom gosto, mesmo quando a sua história caminha por assuntos polêmicos, como o caso amoroso entre um adolescente e uma mulher de meia idade. Por causa disso, elogios devem ser feitos à fotografia de Jérôme Alméras e a todo o resto da equipe.

Um dos melhores filmes deste início de 2013, "Dentro da Casa" é um exemplo de como fazer cinema acessível e inteligente, mostrando que esse dois adjetivos, com um pouco de esforço, combinam tanto quanto cinema e pipoca.

NOTA: 4/5


domingo, 28 de abril de 2013

O Abismo Prateado


Dir.: Karim Aïnouz; Escrito por Karim Aïnouz e Beatriz Bracher; Com Alessandra Negrini, Thiago Martins, Otto Jr. 2011 - Vitrine Filmes (83 min. - 14 anos)


"Quando você me deixou, meu bem/Me disse pra ser feliz e passar bem/Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci/Mas depois, como era de costume, obedeci/Quando você me quiser rever/Já vai me encontrar refeita, pode crer/Olhos nos olhos, quero ver o que você faz/Ao sentir que sem você eu passo bem demais". Nas duas primeiras estrofes da canção "Olhos nos Olhos" de Chico Buarque, vemos o desenrolar de muitas separações. Ocorre primeiro o estágio da negação, aquele em que o indivíduo abandonado não aceita o fim do relacionamento. Depois, acontece o momento em que a pessoa aceita a separação, mas ainda não a aceita. Até que, finalmente, na terceira etapa, o indivíduo percebe que não adianta chorar pelo leite derramado e decide dar a volta por cima e continuar a viver a vida normalmente. Em poucas palavras, é essa a história de "O Abismo Prateado", que não à toa foi baseado na composição de Chico.

No longa de Karim Aïnouz, realizador de "Madame Satã" e "O Céu de Suely", Violeta é uma dentista que possui um filho saudável e um casamento, aparentemente, feliz. Porém, a casa cai quanto Djalma, seu marido, deixa uma mensagem no celular dela, dizendo que não a ama mais e pior, que se sente sufocado por ela. Obviamente, Violeta fica desconsolável e decide ir atrás do marido, que pegou um avião para Porto Alegre.

Ela se dirige, então, já tarde da noite, ao aeroporto para comprar a passagem para o próximo voo. Porém, este só sai às seis e meia da manhã do dia seguinte, obrigando-a a fazer algo enquanto espera a hora de embarcar. Nesse meio tempo, ela perambula pelas ruas do Rio de Janeiro, remoendo as palavras fortes usadas por Djalma para terminar o casamento de anos e conhecendo algumas pessoas em situação semelhante à sua.

Sim, a história não tem nada de inovadora e, pelo contrário, poderia muito bem ter caído no nível do banal. Porém, isso não acontece, devido à ótima performance de Alessandra Negrini como Violeta. A atriz incorpora a personagem e traz à tona de forma clara, mas também sutil, todas as emoções sentidas pela mulher abandonada, indo desde o sofrimento mais dolorido, como quando ela, em um quarto de motel, escuta novamente a mensagem deixada pelo marido, até a mais pura alegria e descontração, como quando ela dança ao som de "Maniac" do filme "Flashdance" em uma boate. Enfim, é uma bela atuação e um grande momento em sua carreira.

Porém, a direção de Karim Aïnouz também deixa o filme mais interessante. A fim de intensificar os sentimentos não só de Violeta, mas também de outras personagens, o diretor faz bastante uso da imagem e do som. Por exemplo, a primeira cena do filme mostra Djalma mergulhando na praia, enquanto ouvem-se os trovões de uma iminente tempestade, anunciando a tragédia que está para acontecer; no caso, o fim do casamento. Um outro momento de uso primoroso desse recurso ocorre na cena logo após a chegada de Violeta ao aeroporto. Nesse momento, a personagem está sozinha num saguão e acima de sua cabeça está o painel de pousos e decolagens. Até aí, tudo normal, porém o grande detalhe é que o último voo anunciado tem como destino Vitória, dando a entender que a personagem vai conseguir superar tudo aquilo. Acredito que isso pode até ter sido acidental, mas não é que se encaixou perfeitamente no contexto do filme?

O roteiro de Aïnouz e Beatriz Bracher também merece destaque. Apesar de ser, definitivamente, um drama, "O Abismo Prateado" possui, em diversos pontos da trama, elementos bastante singelos de humor. Não há como não abrir leves sorrisos quando uma taxista conta os seus desencontros amorosos à Violeta ou quando a moça conversa no banheiro com a menina Bel. Por sinal, a jovem Gabi Pereira como Bel e Thiago Martins como Nassir, o pai da menina, estão de parabéns por suas atuações.

"O Abismo Prateado" poderia ter sido uma verdadeira chatice, um filme com personagens pouco críveis e altas pretensões de seu realizador. Porém, felizmente, o oposto acontece. No geral, o filme é tão interessante que nem mesmo o seu ritmo lento chega a cansar (afinal, tem apenas 83 minutos de duração). Recomendo!

NOTA: 4/5


segunda-feira, 22 de abril de 2013

Oblivion (Oblivion)


Dir.: Joseph Kosinski; Escrito por Joseph Kosinski, Karl Gadjusek e Michael Arndt; Com Tom Cruise, Andrea Riseborough, Olga Kurylenko, Morgan Freeman. 2013 - Universal (126 min. - 12 anos)


Apesar de já estar chegando aos 51 anos de idade, Tom Cruise ainda é, mesmo que não na mesma proporção que há 15, 20 anos atrás, o maior astro de cinema da atualidade. Conhecido pelo mais alternativo dos cinéfilos como também pelo mais ordinário dos espectadores de fim de semana, Cruise tem sim seus muitos opositores, que, simplesmente, não entendem a sua fama. Ainda mais depois que a sua vida pessoal se tornou uma verdadeira Caras das bizarrices. Afinal, quem não se lembra dele pagando o maior mico de sua carreira no sofá da Oprah? Ou, então, de sua relação pra lá de duvidosa com a Cientologia? E por que não falar das histórias louquíssimas que envolveram a sua separação de Katie Holmes? Porém, se há algo que não se pode contestar sobre Tom Cruise é que ele sempre tenta diversificar os seus filmes. Desde dramas como "De Olhos Bem Fechados" - último filme de Stanley Kubrick -, "Magnólia" de Paul Thomas Anderson e "Vanilla Sky" de Cameron Crowe, passando por comédias como "Jerry Maguire - A Hora da Virada" e até por musicais como "Rock of Ages - O Filme", Cruise, sem dúvida, usa a sua fama mundial para chamar mais atenção para filmes que talvez não ganhassem tanta publicidade sem ele. O mesmo se aplica à ficção-científica, gênero no qual ele se tornou "habitué" e no qual ele sempre procura histórias diferentes, como as adaptações "Minority Report - A Nova Lei" (Phillip K. Dick) e "Guerra dos Mundos" (H. G. Wells) e o seu mais novo filme, "Oblivion".

Dirigido por Joseph Kosinski, "Oblivion" tem uma premissa bastante interessante. No ano de 2077, a Terra está devastada e, portanto, inabitável, resultado de uma guerra química com uma inteligente raça alienígena representada pelos Saqueadores. Apesar de terem sido vitoriosos, os terráqueos se veem obrigados a sair do planeta e procurar um novo lar; por isso, os humanos estão vivendo dentro de uma estação espacial chamada Tec, enquanto esperam para serem transferidos para Titã, uma das luas de Saturno. Entretanto, antes de seguir viagem, devem ser retiradas da Terra toda e qualquer riqueza natural ainda existente, principalmente a água dos oceanos, o que explica a existência de enormes plataformas que retiram este bem extremamente preciso. Para manter estes equipamentos e outros funcionando corretamente, especialmente os drones (espécie de robôs-vigilantes), estão sozinhos na Terra dois terráqueos, Jack e Victoria, que têm como única missão, respectivamente, consertar os robôs defeituosos e transmitir informações da Terra para a Tec. Porém, quando Jack encontra humanos dentro de câmaras de criogenia, incluindo uma mulher que ele vê constantemente nas lembranças que ainda lhe restam, ele começa a perceber que há muita coisa escondida por debaixo dos panos e que, por isso, a verdade talvez não seja tão verdadeira assim.

A primeira metade do filme, na qual as personagens são apresentadas e a história é estabelecida, é digna dos melhores filmes de ficção-científica da atualidade. Por um bom tempo eu achava estar diante de uma joia como "Looper - Assassinos do Futuro" ou "Contra o Tempo". Porém, o que começa com muita promessa acaba perdendo força com o passar do tempo.

O diretor Kosinski, sem sombra de dúvida, é um ótimo realizador no que diz respeito ao visual de seus filmes. Seu longa anterior, "Tron: o Legado", usufruía de uma exuberante fotografia e efeitos especiais de altíssima qualidade; isso sem contar com os figurinos high-tech e a direção de arte minimalista. Em "Oblivion", o mesmo acontece. A fotografia - cortesia do recém-oscarizado Claudio Miranda ("As Aventuras de Pi") - é espetacular e fica ainda mais bonita na tela maior e em alta definição do IMAX (fica a dica!). Os efeitos especiais aqui dão mais espaço a paisagens naturais do que em "Tron", mas ainda assim, estes são extremamente bem feitos. O figurino é impecável e a direção de arte de Darren Gilford segue a mesma linha clean do filme anterior de Kosinski, mas usa mais tons pastéis, em oposição ao branco e azul neon, onipresentes em "Tron". Além disso, as comparações não param por aí: se para "Tron", Kosinski convocou a dupla de DJs do Daft Punk para produzir a trilha sonora (incrível, por sinal), para "Oblivion", os encarregados são Anthony Gonzales (da banda eletrônica M83) e Joseph Trapanese, que colaborou com Daft Punk na composição da trilha de "Tron".

Porém, assim como o filme da Disney era um primor visual e uma decepção narrativa, "Oblivion" deixa a desejar no que diz respeito ao seu roteiro. A premissa, como já disse, é mesmo inventiva e merecia um filme melhor, porém o desenvolvimento desta, apesar de coerente, não consegue manter o impacto inicial que se tem com o filme. Ironicamente, exatamente quando as revelações começam a ser feitas, o filme perde força, se tornando um sci-fi convencional. Isso se deve a dois fatores: o número de reviravoltas e as personagens desinteressantes. 

Quanto ao primeiro, em sua segunda metade, o longa contém um número enorme de revelações, o que de início é empolgante, porém após a milésima o esquema começa a parecer um pouco exagerado. Além disso, certas descobertas, como a relação entre as personagens de Tom Cruise e Olga Kurylenko, são bem previsíveis. Já sobre o segundo, a falha é mais grave. Se o filme mantivesse o número enorme de reviravoltas, mas contasse com figuras mais envolventes, o longa talvez fosse melhor. O protagonista, Jack (Cruise), é um clichê ambulante desse tipo de filme - o homem que, como quem não quer nada, coleciona vários objetos antigos e que descobre até um paraíso escondido em pleno inferno - e não traz muita emoção à história. As personagens de Kurylenko e Morgan Freeman também não conseguem trazer muito gás ao filme porque a primeira é banal e a segunda aparece pouco, evitando que seja deixada uma marca mais forte. Na realidade, a personagem mais interessante do filme é Victoria, a companheira de trabalho e cônjuge de Jack, que parece ser a única na qual foi investida um pouco mais de tempo em sua construção psicológica. Não é por nada que enquanto o resto do elenco está normal, Andrea Riseborough consegue se sobressair na pele da moça que acredita piamente na verdade dita pelo povo da Tec e ter, de longe, a melhor performance do longa.

Enfim, "Oblivion" vale a pena ser visto no cinema por causa de sua produção caprichada. Quanto à narrativa, porém, alguns ajustes sutis já conseguiriam elevar o nível do material. Enquanto isso, Joseph Kosinski fica apenas na promessa como um ascendente diretor de ficção-científica, daqueles que têm as armas para fazer uma obra-prima do gênero, mas que ficam limitados pelo trabalho irregular dos outros. Pelo menos "Oblivion" já mostra uma melhora em relação a "Tron: o Legado", seu filme de estreia.

NOTA: 3/5


Chamada de Emergência (The Call)


Dir.: Brad Anderson; Escrito por Richard D'Ovidio; Com Halle Berry, Abigail Breslin, Michael Eklund, Morris Chestnut. 2013 - Diamond Filmes (94 min. - 16 anos)


Antes de "Chamada de Emergência", Halle Berry vinha numa sucessão de fracassos de bilheteria (e frequentemente de crítica também) como "A Viagem" (mesmo que este seja injusto), "A Estranha Perfeita", "Noite de Ano Novo" e "Maré Negra". Entretanto, quem diria que um típico thriller daria uma guinada na carreira da primeira intérprete negra a levar para casa o Oscar de melhor atriz?

O filme possui uma história bem simples. Jordan é uma operadora do 911 (linha de emergência dos EUA) que ficou traumatizada quando, por impulso, ocasionou a morte de uma jovem que ligou para o serviço porque um homem estava invadindo a sua casa. Seis meses mais tarde, ocupando agora um cargo que exija menos sangue frio, Jordan está melhor e praticamente recuperada do choque que sofreu. Porém, quando uma adolescente liga para o 911 dizendo que está presa dentro de um porta-malas após ter sido sequestrada por um sujeito, Jordan precisa tomar as rédeas da situação e impedir que mais uma jovem seja assassinada.

Dirigido por Brad Anderson, "Chamada de Emergência" tem a seu favor uma ótima atuação de Berry como a atormentada atendente Jordan. O que poderia ter sido uma interpretação descartável em seu currículo se tornou uma pequena e brilhante joia em sua carreira. Entretanto, vale lembrar que a adolescente do outro lado da linha é a também ótima Abigail Breslin - sim, a eterna menininha de "Pequena Miss Sunshine". Este filme é um daqueles casos em que a dupla principal consegue, através de uma química invejável, carregar praticamente todo o filme nas costas.

Porém, Anderson também merece créditos pelo sucesso do filme. A sua direção segura e eficiente, aliada à dinâmica edição de Avi Youabian e à claustrofóbica trilha sonora de John Debney, que usa e abusa de música eletrônica pulsante, fazem do filme um exemplo de como dirigir um thriller: emocionante, mas sem exageros.

A única ressalva séria que pode ser feita ao filme é o final pra lá de fantasioso. Uma verdadeira viagem na maionese, o último ato por pouco não quebra o realismo pelo qual o filme presa até então. Felizmente, as qualidades já citadas acima conseguem evitar o desastre e manter o longa com um resultado final positivo.

Apesar de não ser especialmente memorável nem ter pretensões maiores a não ser deixar a plateia com os nervos à flor da pele, "Chamada de Emergência" é um suspense acima da média e que, acredito eu, irá se tornar um grande sucesso na "Tela Quente" daqui uns dois ou três anos.

NOTA: 3.5/5


domingo, 21 de abril de 2013

A Busca


Dir.: Luciano Moura; Escrito por Luciano Moura e Elena Soarez; Com Wagner Moura, Mariana Lima, Lima Duarte. 2013 - Downtown Filmes (96 min. - 12 anos)


Dificilmente a gente vê um filme comercial brasileiro que fuja de um dos dois gêneros a seguir: a comédia e o drama biográfico. É só uma questão de ver os longas brasileiros de maior sucesso no ano passado para comprovar isso: "De Pernas pro Ar 2" (comédia), "Até que a Sorte nos Separe" (comédia), "Os Penetras" (comédia), "E aí... Comeu?" (comédia) e "Gonzaga - De Pai para Filho" (drama biográfico). Por isso que me deu vontade de ir assistir a "A Busca". Não é todo dia que um drama familiar (não baseado em acontecimentos reais) misturado com filme de ação chega às nossas telonas com tamanha divulgação.

O longa acompanha um casal, Theo e Branca, que em pleno processo de separação leva um baque quando o filho desaparece sem mais nem menos bem no dia de seu aniversário. Theo, então, desesperado, resolve ir à procura do filho pelos lugares mais inóspitos do interior do Brasil, ao mesmo tempo em que repensa a sua própria relação com seu pai.

Estreia de Luciano Moura na direção, "A Busca" já merece destaque por sua produção caprichada. Ao contrário de muitos filmes brasileiros que vemos por aí, o longa possui uma fotografia cuidadosa (apesar de abusar de closes muito próximos ao rostos dos atores) e uma direção de arte muito bem feita. A edição, essencial para que um filme desse tipo mantenha o ritmo, também é exemplar e de extrema precisão.

Porém, o filme ganha muito com a presença de Wagner Moura. O ator, que em outras ocasiões já mostrou todo o seu potencial, aqui continua a fazer um excelente trabalho. Em nenhum momento sua personagem cai na caricatura, cheia de caras e bocas, como poderia ter acontecido. Ao invés disso, Moura cria um Theo realista, mas sem deixar que ele se torne uma pessoa fria, que acabe se distanciando do espectador. Nada a reclamar também dos coadjuvantes Mariana Lima e Brás Antunes que cumprem bem o seu papel e da participação especial de Lima Duarte numa atuação sincera e de extrema importância emocional para a história.

Entretanto, o roteiro deixa um pouco a desejar. A busca em si parece mais uma brincadeira de ligar os pontos, idêntica àquelas de livro infantil, como também o drama da separação de Theo e Branca não sai do óbvio em nenhum momento. Além disso, há aqueles absurdos típicos de filmes do gênero como, por exemplo, por que, em nenhum momento, os pais pensam em ligar para a polícia? Como o carro de Theo consegue andar por tanto tempo sem ter de abastecer o tanque de gasolina? Enfim, não é nada que prejudique fatalmente o filme, mas também não há nenhuma novidade no enredo.

Lançado no Festival de Sundance de 2012, quando ainda se chamava "A Cadeira do Pai", "A Busca" merece parabéns por investir num gênero pouco explorado pelo cinema brasileiro, mesmo que não tenha um roteiro muito inspirado. Pelo menos vê-se um esforço da Globo Filmes (inegavelmente a maior produtora de filmes do Brasil) em investir em projetos fora da sua zona de conforto.

NOTA: 3.5/5