quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Cine Majestic (The Majestic)


Dir.: Frank Darabont; Escrito por Michael Sloane; Com Jim Carrey, Bob Balaban, Hal Holbrook, Laurie Holden, Martin Landau. 2001 - Warner (152 min. - Livre)


"Cine Majestic" é um filme "-inho"! Mas o que é um filme "-inho"? Bem, em poucas palavras um filme "-inho" é aquele que nós podemos caracterizar com vários adjetivos no diminutivo, não necessariamente no seu sentido denotativo. Podemos dizer, portanto, que "Cine Majestic" é um filme bonitinho, bem-feitinho, fofinho, longuinho, bobinho e chatinho.

Dirigido por Frank Darabont, realizador de "Um Sonho de Liberdade" e "À Espera de um Milagre", "Cine Majestic" conta a história de um roteirista de filmes-B da Hollywood dos anos 1950, que logo quando vê a chance de escrever um grande filme, com uma emocionante história e um elenco de astros, é acusado pelos macarthistas de ter envolvimento com os temidos comunistas.

Então, na noite em que é demitido do estúdio e tem o seu filme cancelado, Peter (o roteirista) enche a cara em um bar e sai dirigindo pelos arredores de Los Angeles, quando sofre um acidente e acorda, sem memória, em uma cidade parada no tempo e marcada pela morte de seus filhos na Segunda Guerra Mundial.

Porém, os habitantes da cidade começam a achar que Peter é Luke Trimble, filho desaparecido do dono do cinema da cidade, o Majestic, fechado há quase uma década. Ficam, então, as perguntas: Peter é mesmo Luke? Luke morreu mesmo na Guerra, o que justificaria o seu desaparecimento? Por via das dúvidas, Peter ou Luke resolve se enturmar com os habitantes da cidade, reatar um antigo romance e reabrir o velho Cine Majestic.

A história em si já dá indícios de um filme que manipula emoções, isto é, daqueles que faz de tudo para arrancar uma lágrima que seja dos olhos dos espectador e que o faz abrir um sorriso quando necessário. Porém, para mim, isso não é problema! Há muitos filmes manipuladores extremamente interessantes. Um exemplo recente é "Cavalo de Guerra" de Spielberg, que aumentava a trilha sonora de John Williams sempre que queria causar algum tipo de emoção no espectador. 

O problema de "Cine Majestic" é que a parte mais interessante do filme são os seus primeiros quinze minutos, que se passam na Los Angeles dos anos 1950. Neste trecho, há um ótimo humor satírico sobre os bastidores de Hollywood (a primeira cena é, talvez, a melhor do longa) como também homenageia muito bem o ato de ir ao cinema. Na verdade, o início da estadia de Luke na pequena cidade de Lawson também é bastante interessante, pois conhecemos todos os personagens e a própria história da localidade através de uma eficiente mistura de drama e comédia.

O problema está, realmente, no momento em que o filme adota um lado mais dramático, culminando na sua última meia-hora. Neste trecho, os dramas ficam desinteressantes, o romance se torna bobo e o pior de tudo, o patriotismo do filme vira uma verdadeira peça moralista. O filme prega a liberdade de expressão e o respeito aos nossos heróis, no caso do filme os veteranos e vítimas da guerra, algo, definitivamente, essencial. Porém, o clímax do filme é tão didático e piegas que suga qualquer força presente nos valores  defendidos pelo longa, o que só é prejudicado pelas suas excessivas duas horas e meia de duração.

Felizmente, o filme tem suas qualidades, sendo a principal delas a ótima performance de Jim Carrey. A sua bela atuação melhora muitas partes do longa, principalmente o clímax, que como já comentei acima, é bem bobinho.

Além de Carrey, quem também faz um ótimo trabalho são Martin Landau e Gerry Black, que vivem, respectivamente, o dono e o lanterninha do Majestic. Ambos têm cenas fortes e importantes com Carrey e se saem muito bem nelas.

Outra qualidade inegável de "Cine Majestic" é a impecabilidade técnica. A fotografia de David Tattersall é um colírio para os olhos, enquanto a direção de arte da dupla Erik Carlson e Tom Walsh e o figurino desenhado por Karyn Wagner são também de extremo profissionalismo. Além disso, a trilha sonora de Mark Isham, que possui um pezinho no jazz, também é um dos pontos altos do filme.

Enfim, apesar de ter boa intenções, seja em homenagear aqueles que lutaram na Segunda Guerra Mundial, seja em louvar a arte de ir ao cinema, e não ser um filme de todo ruim, "Cine Majestic" peca ao confundir diversão inteligente com moralismo chato.

NOTA: 2.5/5


Vida Que Segue (Moonlight Mile)


Dir.: Brad Silberling; Escrito por Brad Silberling; Com Jake Gyllenhaal, Dustin Hoffman, Susan Sarandon, Holly Hunter. 2002 - Buena Vista (117 min.)


Um jovem de vinte e poucos anos, chamado Joe, perde a sua noiva em um terrível assassinato dentro da lanchonete em que ela trabalhava. O crime, obviamente, dá início a um processo judicial, visando a condenação do assassino, o que obriga Joe a viver com seus sogros, Ben e Jojo. Entretanto, o que poderia ser apenas uma estadia tranquila inicia o desenrolar de toda a verdade sobre o relacionamento entre Joe e Diana, sua noiva, como também traz a Joe a possibilidade de uma nova paixão.

Baseado na própria vida do diretor Brad Silberling, realizador de filmes como "Cidade dos Anjos" e "Desventuras em Série", que namorava a atriz Rebecca Schaeffer quando esta foi assassinada em 1989, "Vida Que Segue" é, claramente, feito com muito carinho. Porém, isso não é o suficiente para deixar o filme mais interessante.

Na realidade, o longa começa muito bem, já mostrando logo de cara o enterro da jovem Diana e a festa que o segue, a qual o diretor usa para fazer críticas ácidas ao falso sofrimento e às lágrimas de crocodilo daqueles "amigos" que só fazem presença quando algum ente querido morre.

Entretanto, o filme perde esta acidez quando o jovem Joe começa a ter um caso com Bertie, funcionária dos correios e do bar da pequena cidade onde a história acontece. O romance entre os dois é até interessante, mas também não empolga como as primeiras cenas do filme.

Na verdade, o que salva o filme dos momentos de marasmo é o ótimo elenco. Encabeçado por Jake Gyllenhaal, que está muito bem na pele do jovem viúvo Joe, o elenco também conta com as presenças ilustres de Dustin Hoffman e Susan Sarandon, ótimos como Ben e Jojo, pais de Diana. Por sinal, as melhores cenas do filme são exatamente aquelas em que os três estão juntos.

Enfim, "Vida Que Segue", cujo título em inglês provém da canção "Moonlight Mile" dos Rolling Stones, é um filme simpático e de grande valor pessoal para o seu realizador. Mas sofre por não ter uma história tão boa quanto o seu elenco.

NOTA: 3/5


domingo, 18 de novembro de 2012

Entre o Céu e o Inferno (Black Snake Moan)


Dir.: Craig Brewer; Escrito por Craig Brewer; Com Samuel L. Jackson, Christina Ricci, Justin Timberlake, S. Epatha Merkerson. 2006 - Paramount (116 min. - 18 anos)


O pontapé inicial de "Entre o Céu e o Inferno" é, sem dúvida alguma, bastante estranho. No filme de Craig Brewer, um ex-guitarrista de uma banda de blues, em pleno processo de divórcio, encontra desmaiada, no meio de uma estrada, uma jovem ninfomaníaca de passado conturbado. Então, visando melhorar a vida da menina, o senhor resolve acolhê-la em sua casa e livrá-la de sua obsessão por sexo, mesmo que isso inclua prendê-la a uma corrente.

Sim, essa é realmente a premissa do filme. Porém, para aqueles que não se sentiram ofendidos ou enojados por ela, "Entre o Céu e o Inferno" pode se mostrar uma grata surpresa.

Protagonizado por Samuel L. Jackson e Christina Ricci, o longa tem a seu favor diversos pontos positivos. O primeiro deles é a originalidade. A premissa em si já é bastante chamativa, afinal quem poderia imaginar uma história como essa, em que um senhor mantém uma ninfomaníaca acorrentada dentro de casa? Além disso, mais surpreendente ainda é a guinada que o filme apresenta, transformando essa premissa aparentemente misógina em um bonito conto sobre o amor entre pais e filhos.

Essa última parte, por sinal, só daria certo com os atores certos; e esse é o caso de "Entre o Céu e o Inferno". Christina Ricci, que é magrinha, tem voz aguda e que não tem um rosto especialmente fotogênico, consegue se passar com muita competência como uma piriguete do sul dos Estados Unidos. Já Samuel L. Jackson é a grande revelação do filme, mostrando que consegue carregar com excelência um filme que não envolva cobras dentro de um avião. Portanto, fica a dica: Hollywood precisa dar mais papeis principais para ele!

A fotografia, também, é um show à parte. Cortesia de Amelia Vincent, ela consegue passar para o espectador a sensação de calor típica dos estados sulistas dos Estados Unidos, chamando bastante atenção para a pele cheia de suor dos atores. Isso sem contar com a valorização que as câmeras dão para o corpo de Ricci, ajudando na construção da extrema sexualidade de sua personagem.

Mas o que seria falar de "Entre o Céu e o Inferno" sem mencionar a sua ótima trilha sonora composta apenas por canções blues? Aqui, o blues não serve só de pano de fundo para a história como também é um personagem da mesma, embalando as frustrações amorosas de seus protagonistas: Lazarus (L. Jackson) com sua ex-esposa que o trocou por seu irmão e Rae (Ricci) com seu namorado que está servindo no Exército. Não é por nada que o próprio nome original do filme ("Black Snake Moan") foi tirado de um blues de 1927, interpretado por Blind Lemon Jefferson.

Enfim, para quem estiver disposto a assistir a um filme simpático, mas não necessariamente fácil de aguentar, "Entre o Céu e o Inferno" é uma boa pedida.

NOTA: 3.5/5


À Toda Prova (Haywire)


Dir.: Steven Soderbergh; Escrito por Lem Dobbs; Com Gina Carano, Ewan McGregor, Michael Fassbender, Bill Paxton. 2011 - Imagem (93 min.)


Que o diretor Steven Soderbergh gosta de trabalhar, isso já não é segredo, afinal desde o ano passado ele lançou nada menos do que três filmes e já tem mais um engatilhado para o início de 2013. Além disso, outra característica sua, que já foi até comentada aqui no blog, é a sua versatilidade, alternando filmes comerciais e alternativos, comédias e dramas e filmes de ação; e em 2012, nós tivemos a verdadeira prova disso, já que além de lançar a comédia dramática "Magic Mike", no início do ano Soderbergh revelou ao mundo "À Toda Prova", um filme de ação que ele tinha filmado em 2010.

Como já é tradição em muitos filmes do diretor, o elenco aqui é espetacular integrado por astros como Ewan McGregor, Antonio Banderas, Bill Paxton (irreconhecível!) e Michael Douglas e estrelas em ascensão como Channing Tatum (que virou o novo ator favorito de Soderbergh) e Michael Fassbender. Todos eles em participações pequenas, mas conseguindo deixar a sua marca.

Mas o mais engraçado é que, apesar de contar com este elenco invejável, Soderbergh contratou uma iniciante para protagonizar o filme. A sortuda foi Gina Carano, ex-lutadora de MMA, famosa por sua participação no programa de tevê "American Gladiators". Que Soderbergh gosta de confiar seus filmes em gente sem qualquer experiência com a câmera, isso também não é novidade, afinal em 2005, ele lançou "Bubble", um filme cujo elenco era todo de novatos no ramo da atuação, e em 2009, ele dirigiu "Confissões de uma Garota de Programa" protagonizado pela ex-atriz pornô Sasha Grey.

Porém, o grande problema de "À Toda Prova" é que o diretor não deu um filme à altura de toda a sua ambição.

Primeiro de tudo, Gina Carano, apesar de ser uma atriz competente, não tem o carisma necessário para sustentar um filme como esse em suas costas. Ela aparece em praticamente todas as cenas, sua personagem é a espinha dorsal de toda a história, mas ela não dá mostras da estrela de ação que Steven Soderbergh planejava lançar com este filme. Talvez, caso tenha mais oportunidades, Gina possa se soltar um pouco e mostrar que pode carregar um filme, mas por enquanto, não mostrou todo o seu potencial.

Além disso, "À Toda Prova" sofre da ausência de momentos realmente emocionantes, daqueles de pura tensão. Ao invés disso, não faltam lutas e perseguições, de carro ou a pé, mas nenhuma de grande impacto.

Mesmo assim, "À Toda Prova" ainda tem as suas qualidades como as cenas de luta coreografadas com extrema precisão e apresentadas de forma seca pela total ausência de trilha sonora nesses momentos. Portanto, o que falta de tensão nelas, sobra em profissionalismo.

O cuidado estético de Steven Soderbergh também está presente através da fotografia e da edição, mais uma vez feitas por ele mesmo por meio dos pseudônimos Peter Andrews e Mary Ann Bernard. 

O roteiro de Lem Dobbs também é bastante competente, trazendo uma história que realmente merecia um filme melhor.

Mas o principal ponto positivo de "À Toda Prova" é a ótima trilha sonora de David Holmes, reminiscente daqueles clássicos filmes de espionagem. Em certos momentos, é ela que torna o filme realmente interessante.

Enfim, "À Toda Prova" não está entre os melhores trabalhos de Steven Soderbergh e nem é dos melhores filmes de ação, mas também não é uma chatice sem tamanho. Basicamente, é um filme decente, mas decepcionante.


NOTA: 3/5



quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Magic Mike (Magic Mike)


Dir.: Steven Soderbergh; Escrito por Reid Carolin; Com Channing Tatum, Alex Pettyfer, Cody Horn, Matthew McConaughey. 2012 - Imagem (110 min. - 16 anos)


Mike é um homem de trinta e poucos anos com muitas ambições, sendo a maior delas montar a sua própria empresa de móveis customizados. Para isso, ele precisa desempenhar vários empregos bastante diferentes um do outro, fazendo com que durante o dia ele monte telhados e à noite viva nas ruas mais badaladas de Tampa à procura de clientes para o seu ganha-pão mais rentável: o strip-tease masculino. Porém, ele já está ficando velho para a função e precisa arranjar um substituto, figura esta que ele vê no jovem Adam. Daí, desenrola-se a trama de "Magic Mike", novo filme do oscarizado Steven Soderbergh.

Primeiro, vamos responder à pergunta que mais é feita sobre o filme. Quando foi lançado nos EUA, as sessões de "Magic Mike" ficaram lotadas de grupos de mulheres e homossexuais, fica, então, a dúvida: o filme tem algum atrativo para os homens heterossexuais? Acredite se quiser, tem sim! Apesar de o longa possuir cenas bem safadas de strip, incluindo closes em homens usando tanguinhas e tudo o mais, a parte da história que mais ganha importância é exatamente aquela que acontece fora do bar de strip-tease. Para falar a verdade, essas cenas até que não são muitas. Portanto, os "macho men" de plantão não precisam ficar tão preocupados caso a companheira queira levá-los ao cinema para assistir a esse filme.

E em segundo lugar: o filme é bom? Bom ele é, mas nada mais que isso.

O primeiro problema de "Magic Mike" é que ele é uma comédia dramática. Nada contra o gênero, que por sinal, quando bem-feito rende filmes ótimos. A questão é que para um longa desse tipo funcionar, ele deve equilibrar com extrema precisão a parte cômica com a parte trágica do filme, algo que não acontece em "Magic Mike". No filme de Soderbergh, essas duas partes não conseguem criar um todo coeso, pois a primeira parte do filme é decididamente cômica, cheia de shows de strip-tease e piadas; enquanto que a segunda é uma verdadeira tragédia grega, tanto que nem as poucas cenas de strip, que serviriam de alívio cômico, conseguem fazer rir. 

Outra falha é o desenvolvimento dos personagens. Apesar dos três protagonistas, Mike, Adam e Brooke (irmã de Adam), serem muito bem explorados, os demais personagens são meras caricaturas. Tirando Mike e Adam, todos os outros strippers tem pouquíssimo tempo de tela, tendo, portanto, uma presença nada marcante. O único desse grupo que consegue um pouco mais de atenção é o dono do bar onde Mike trabalha, Dallas, vivido muito bem por Matthew McConaughey. Não é por nada que esse é o único dos strippers secundários que tem uma cena de real importância no filme.

Um terceiro aspecto que eu não entendi é o seguinte: Mike é considerado um stripper já em fase de envelhecimento, ou seja, perto da idade de se aposentar, entretanto, todos os outros strippers, exceto Adam, são mais velhos que ele. Enfim, fica claro que o grande problema de "Magic Mike" é o roteiro falho, escrito por Reid Carolin.

Pode-se dizer, portanto, que o que faz "Magic Mike" ir para a frente é a direção e o elenco. Quanto aos atores, todos eles estão muito bem (algo que se espera de um filme de Soderbergh, mestre em conduzir com competência grandes elencos), incluindo Channing Tatum, que vem mostrando cada vez mais que não é apenas um daqueles galãs que "atuam". Nos últimos dois anos ele tem mostrado o seu ótimo timing para comédia em filmes como "Anjos da Lei" e "O Dilema" (filme de Ron Howard em que ele tem uma pequena participação) e aqui, em "Magic Mike", ele demonstra que também sabe fazer papéis dramáticos.

Já de Soderbergh, "Magic Mike" mostra mais uma vez a versatilidade do diretor, que passeia com facilidade entre filmes independentes e alternativos (seu filmes dos anos 1990, "Bubble", "Che", "Traffic") e filmes comerciais de grande orçamento (trilogia "Onze/Doze/Treze Homens", "Contágio", "Erin Brockovich"). Além disso, mostra o cuidado que Soderbergh tem com a fotografia e com a edição de seus filmes, que, geralmente, ele mesmo faz sob os pseudônimos Peter Andrews e Mary Ann Bernard, respectivamente.

No fim, "Magic Mike" tem como o seu maior triunfo o diretor Steven Soderbergh, que não só preza pela estética de seus filmes como também tem experiência em lidar com grandes elencos, e olha, que ainda assim "Magic Mike" não é um filme notável. Imagine se dependesse apenas de seu roteiro? Teria sido bem pior.

NOTA: 3/5


domingo, 11 de novembro de 2012

Anônimo (Anonymous)


Dir.: Roland Emmerich; Escrito por John Orloff; Com Rhys Ifans, Vanessa Redgrave, Sebastian Armesto, Rafe Spall, David Thewlis. 2011 - Sony (130 min.)


Não há dúvidas de que William Shakespeare é o mais conhecido escritor de língua inglesa. Autor de 38 peças, 154 sonetos e diversos epitáfios e outros poemas, o Bardo de Avon é um ícone não só da Inglaterra, mas de todo mundo, uma vez que suas obras já foram traduzidas para quase todas as línguas vivas. Imagine, porém, se descobrissem que, na verdade, Shakespeare era uma fraude. Ele não escreveu nenhum de seus textos e, quem diria, era analfabeto. Daí surge a premissa de "Anônimo".

Segundo o filme, o verdadeiro autor de obras como "Romeu e Julieta", "A Megera Domada", "Macbeth" e "Hamlet" era Edward de Vere, 17º Conde de Oxford. Por ser nobre e casado com a filha de William Cecil, 1º Barão de Burghley, um homem averso à escrita, Edward nunca pôde assumir publicamente a autoria de suas obras com a ameaça de ter a sua reputação e a da família de sua esposa prejudicadas.

Entretanto, Edward ainda queria mostrar o seu trabalho para o povo, não só para poder ver as suas peças ganharam a luz do dia, mas também para difundir as suas opiniões quanto à política e à nobreza britânica pelas camadas populares. Dessa forma, ele contacta um promissor escritor, Ben Jonson, obrigando-o a pôr o seu nome nas peças de autoria do conde. Entretanto, por uma virada do destino, quem acaba "assinando" as obras é William Shakespeare, um ator analfabeto e sem muitos escrúpulos.

Entretanto, o filme não fica só por aí, ligando as peças supostamente escritas por Shakespeare à toda a tensão política existente na Inglaterra da virada do século XVI para o XVII, principalmente a questão sucessória, envolvendo a já idosa Rainha Elizabeth I e o Rei Jaime VI da Escócia (posteriormente, Jaime I da Inglaterra).

Dirigido pelo alemão Roland Emmerich, conhecido por já ter destruído o mundo várias vezes no cinema em filmes como "2012", "O Dia Depois de Amanhã" e "Independence Day", "Anônimo" não traz nenhuma inovação ao gênero do drama histórico, porém recompensa a falta de originalidade com um filme bastante eficiente, divertido e envolvente. 

As suas qualidades são várias. Primeiro de tudo, o elenco escolhido é muito bom. Rhys Ifans, que vive Edward de Vere desempenha muito bem o seu papel, assim como Sebastian Armesto, intérprete de Ben Jonson, e Rafe Spall, como o boêmio e irresponsável William Shakespeare. O elenco ainda conta com as presenças ilustres de David Thewlis como William Cecil e Vanessa Redgrave e sua filha Joely Richardson vivendo a Rainha Elizabeth I em duas épocas distintas de sua vida.

A reconstituição histórica também é ótima. Filmado nos estúdios Babelsberg, "Anônimo" conta com uma impecável versão cenográfica da Londres elizabetana, incluindo reconstituições do The Rose Theatre e o do The Globe Theatre. Isso sem contar os lindos palácios que abrigavam a corte britânica e suas festas. O figurino desenhado por Lisy Christl também é notável, tanto que foi indicado ao Oscar.

Até mesmo o roteiro, que peca no final com uma revelação, que apesar de ser possível naquela época, é extremamente estranha, mantém o ritmo frenético até o último minuto. Portanto, não pense em ver "Anônimo" se você estiver com sono ou prestando apenas meia atenção na história, pois é daqueles filmes que se você perde um momento sequer, você já fica todo confuso.

Enfim, "Anônimo" não foi indicado a nenhum grande prêmio em nenhuma grande categoria, mas e daí? O filme é muito bem-feito, tem uma premissa interessante, tem boas atuações e toda a produção luxuosa que você pode esperar de um longa-metragem de época.


NOTA: 3.5/5


007 - Operação Skyfall (Skyfall)


Dir.: Sam Mendes; Escrito por Neal Purvis, Robert Wade e John Logan; Com Daniel Craig, Judi Dench, Javier Bardem, Ralph Fiennes. 2012 - Sony (143 min. - 14 anos)


A franquia 007 é realmente impressionante! São 50 anos de história contados por 23 filmes e seis intérpretes diferentes de James Bond. Era de se esperar que hoje em dia a franquia já estivesse bastante desgastada, mas não, parece que atualmente ela está vivendo o seu auge de popularidade. Mas como? Simples: como o próprio James Bond diz no mais novo filme da saga, o seu hobby é a ressurreição; e quer fênix maior do que essa franquia? E num desses momentos de renascimento das cinzas, eis que surge "007 - Operação Skyfall".

O novo longa do agente secreto tem como pano de fundo o misterioso passado de M, que ameaça não só a reputação da chefe dos agentes como também a de todo o MI6, o serviço secreto do Reino Unido. Dessa forma, em "Skyfall", M não é apenas mais uma coadjuvante, como acontecia nos outros filmes, aqui ela é a peça-chave de toda a narrativa do longa.

A história se desenvolve exatamente igual aos últimos filmes da franquia, cheia de perseguições e cenas de ação mais realistas, opondo-se aos filmes mais antigos, que usavam e abusavam da imaginação. Apesar disso, pode-se dizer que este "Skyfall" seja o filme mais "absurdo" protagonizado por Daniel Craig como o agente secreto. Algumas cenas dentro do metrô de Londres e a própria suposta morte de Bond são bem irreais, mas não chegam nem perto das invencionices de outros filmes do personagem.

Uma das maiores qualidades de "Skyfall", porém, não é nem a história nem mesmo Daniel Craig (que a essa altura do campeonato já convence como James Bond), mas sim o vilão. Assim como em alguns filmes clássicos de 007, o vilão de "Skyfall" é memorável. Vivido espetacularmente bem por Javier Bardem, Silva é um daqueles antagonistas que vão ficar para a história da franquia. Ele é bronzeado e tem um cabelo loiro esquisito, para dizer o mínimo, ele tem parte da sua mandíbula deformada, o que o obriga a usar uma espécie de dentadura, ele tem planos mirabolantes e, por fim, tem uma cena homoerótica hilária com James Bond. Tem como não gostar?

Outra que também não deixa por menos é Judi Dench. Principalmente neste capítulo, em que M tem grande importância na história, a veterana faz o seu melhor como a exigente chefe dos agentes secretos do MI6. Isso sem contar as cenas mais desafiadoras, fisicamente falando, que devem ser bem difíceis para uma atriz de 77 anos. Mas ela foi lá e correu, se meteu debaixo de mesas etc.

Outro aspecto notável foi a direção. O filme é muito bem fotografado, a trilha sonora é boa, as atuações são ótimas, o ritmo é bem construído, enfim, o diretor mandou muito bem. Mas também não é por menos, o filme foi realizado por Sam Mendes, ganhador do Oscar por "Beleza Americana" em 2000 e diretor de outros filmes elogiados como "Estrada para a Perdição" e "Foi Apenas um Sonho". Nem preciso dizer que para quem não tinha experiência em dirigir blockbusters de ação, ele fez um excelente trabalho.

Entretanto, não gostei de alguns pontos do filme. Em primeiro lugar, em "Skyfall", falta uma Bond girl que seja realmente interessante. Neste filme, há duas, vividas pela inglesa Naomie Harris e pela francesa Bérenice Marlohe, porém nenhuma das duas tem uma entrada triunfal ou muito tempo para mostrar alguma coisa a mais do típico "quero ajudar e/ou transar com Bond". Em resumo, senti falta de uma Vesper, de "Cassino Royale". As duas deste filme nem precisavam ter a importância que a personagem de Eva Green teve no primeiro filme do 007 estrelado por Daniel Craig, mas poderiam ser, no mínimo, mais bem exploradas pelo roteiro, dando-lhes um quê a mais, que é o diferencial das Bong girls.

Além disso, o filme com seus 143 minutos começa a cansar um pouquinho no final, ainda mais que o clímax nem é tão climático assim. Para falar a verdade, na minha opinião, a melhor cena do filme foi a ótima abertura ao som da música-tema interpretada por Adele, que compete com a abertura de "Os Homens que não Amavam as Mulheres" ao som do cover de "Immigrant Song" cantado por Karen O como a melhor cena de abertura do ano.

No final das contas, "007 - Operação Skyfall" representa uma grande melhora em relação ao filme anterior da franquia, o insosso "Quantum of Solace", mas não achei o melhor filme do ano como alguns acharam. Entretanto, pode-se afirmar que "Skyfall" é um filme de ação acima da média.

P.S.: Coincidência ou não, este é o 100º post do Cinematógrapho e o personagem James Bonf fez em 2012 cinquenta anos de cinema.

NOTA: 3.5/5